Rio de Janeiro, 24/09/2007 – Quinze anos depois da Cúpula da Terra, o Brasil voltou a receber representantes de diferentes partes do mundo para um exame dos resultados da mobilização gerada por esse ato que se converteu em referência histórica ambiental. A chamada Conferência Internacional Rio +15, que aconteceu quarta-feira e ontem no Rio de Janeiro, reuniu uma centena de líderes do mundo político, empresarial e acadêmico, bem com de organizações internacionais e não-governamentais. Pedro Moura costa, um dos organizadores do encontro, procura “estimular a contribuição de todos os segmentos da sociedade em torno do objetivo de controlar ou reduzir a mudança climática”.
“Há muito para se refletir a respeito do que melhorou em relação à mudança climática e à redução dos gases causadores do efeito estufa’, disse à IPS Moura Costa, presidente da Ecosecurities, uma empresa internacional especializada em promover projetos destinados a reduzir a emissão desses gases. “Este é o objetivo de nosso encontro, refletir e discutir sobre o que funcionou e não funcionou” a partir da Eco 92, acrescentou, após destacar que essa reunião foi “o marco histórico” para que começasse um processo de esforços mundiais no combate à contaminação e ao aquecimento global.
Alfredo Sirkis, co-fundador do Partido Verde brasileiro e um dos participantes do encontro, reconhece esse papel da Cúpula da Terra, cuja denominação completa é Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no rio de Janeiro. “Atualmente existe uma mobilização militante global que antes não havia”, disse Sirkis à IPS, ao se referir, entre outros resultados, ao fato de nove Estados norte-americanos, incluindo sete governados pelo Partido Republicano, já assinaram as metas do Protocolo de Kyoto, que obriga os países industrializados a reduzirem em 5% as emissões de gases que provocam o efeito estufa.
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, republicano, retirou em 2001, pouco depois de assumir seu primeiro mandato, a assinatura que seu antecessor, Bill Clinton, havia colocado no tratado aprovado em 1997 na cidade japonesa de Kyoto, que entrou em vigor em 2005 e que estabelece a redução das emissões em, pelo menos, 5% entre 1990 e 2012. Mas, para Sirkis, também presidente da Fundação Onda Azul, é muito mais o que “não funcionou” do que o que “funcionou” a partir da Cúpula da Terra. “Porque em 1992 a questão do efeito estufa era vista mais como algo distante no tempo, e agora é algo dramático. As mudanças do clima estão aí e creio que hoje há um sentido de urgência que não havia antes”, afirmou.
O encontro organizado pela Ecosecurities não contou em seu primeiro dia de sessões – como havia sido anunciado em seu programa – com a presença da ministra de Meio Ambiente e Desenvolvimento, Marina Silva. Em seu lugar, o secretário-executivo da Comissão Brasileira de Mudanças Climáticas, José Miguez, fez uma avaliação “extremamente positiva” dos 15 anos transcorridos desde a Eco 92. Entre outros avanços, mencionou à IPS a multiplicação dos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que já somam 2.400 em mais de 60 países, segundo disse. O que de acordo com Miguez pode reduzir as emissões de gases em cerca de dois bilhões de toneladas de gás carbono.
A iniciativa, que surgiu por instância do Brasil é conhecida como MDL e permite às nações industrializadas obter créditos investindo em projetos de energia limpa no Sul. Mais da metade da matriz energética mundial é movida por petróleo ou carvão, os principais causadores do efeito estufa. Nesse sentido, e através do Protocolo de Kyoto, que deu lugar ao mecanismo de MDL, vários países se comprometeram a desenvolver tecnologias apropriadas para diminuir as emissões de dióxido de carbono (CO²), principal gás contaminante.
Para Miguez, o maior desafio atualmente é “colocar dentro” da luta ambiental a Austrália e os Estados Unidos, este último responsável por 24% das emissões de gases causadores do efeito estufa. “Creio que em muito pouco tempo – em 15 anos – mudamos a mentalidade. Há muitíssima gente, engenheiros, economistas, advogados, trabalhando fortemente para reduzir esses gases. Existe uma mudança estrutural muito grande que não podemos avaliar completamente hoje”, acrescentou o especialista. Por sua vez, Israel Klabin, diretor da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável do Brasil, se mostra menos otimista. “Embora a Eco 92 tenha criado os mecanismos para controlar a emissão de gases que contaminam a atmosfera, ainda não são suficientes’, disse à IPS. “Se em 1991 a meta era que em 2000 se voltaria ao limite de emissões de gases de 1990, a situação é totalmente distinta, pois as emissões duplicaram”, ressaltou.
Os ambientalistas discutiram também as novas alternativas energéticas, como os biocombustíveis, e as mudanças tecnológicas que as indústrias precisam realizar. O documento final do encontro será apresentado em dezembro em Bali, na Indonésia, quando os ministros de Meio Ambiente de mais de 180 países que assinaram a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática se reunirem para discutir metas e políticas para a redução da emissão de gases causadores do efeito estufa depois de 2012.

