Toronto, 25/09/2007 – Acionistas, investidores e analistas financeiros agora querem saber como a mudança climática afetará os balanços das empresas, e um novo estudo avalia os riscos e as oportunidades das grandes corporações A pedido de fundos de investimento que administram mais de US$ 41 bilhões, várias centenas de companhias revelaram voluntariamente como respondem a este desafio. O informe foi apresentado ontem na Bolsa de Comércio de Nova Yorque. “A mudança climática modificará nosso comportamento em tudo o que fazemos”, disse à IPS Paul Dickinson, presidente do Projeto de Informação sobre Carbono (CDP, sigla em inglês), organização independente sem fins lucrativos. “Nada será como antes”, acrescentou.
O CDP fez uma pesquisa entre as 1.300 maiores empresas do mundo e descobriu “um processo global de reestruturação econômica e industrial” movido por regulamentações, políticas e respostas empresariais para enfrentar o aquecimento do planeta. Os resultados mostram que muitas companhias entendem que o mundo está mudando e buscam formas de reduzir sua exposição e seu risco financeiro. Em geral, existe uma tendência acentuada, tanto dos governos quanto do público, de não comprar produtos que tenham um impacto negativo no clima, disse Dickinson.
“Na Europa ninguém quer comprar automóveis grandes. Assim, as montadoras com fortes programas de veículos híbridos, que combinam dois motores, um elétrico e outro à explosão, representam dinheiro em caixa para os investidores”, acrescentou. A mudança climática está mudando completamente a forma de fazer negócios, e haverá grandes ganhadores e perdedores, alertou o especialista. “Os investidores buscam a próxima Microsoft”, a gigante norte-americano da informática, “em relação à mudança climática”, acrescentou.
Apesar da férrea oposição do governo do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, as reduções obrigatórias nas emissões de dióxido de carbono, empresas desse país estão prevendo um eventual imposto sobre as mesmas, maiores exigências sobre uso eficiente da energia e pressões para elaborar produtos sustentáveis, disse Dickinson. O informe revela que muitas companhias estão redefinindo suas vantagens competitivas e seu desempenho financeiro. Bancos e agentes da bolsa, como JP Morgan, investiram US$ 650 milhões em 26 fazendas que utilizam moinhos de vento. O HSBC destinou US$ 55 bilhões a projetos de energia limpa, e 40% da energia que consumiu em 2006 tiveram origem em fontes renováveis, diz o estudo.
Além disso, o banco Barclays concedeu financiamento de longo prazo a projetos para gerar mais de 2.600 megawatts de eletricidade a partir de fontes renováveis, a metade da energia consumida na Inglaterra é dessa origem. O estudo também indica que a cervejaria Anheuser-Busch se mostra muito ativa em pesquisas para desenvolver sementes resistentes a condições climáticas extremas, ao mesmo tempo em que seu Conselho da Água administra aspectos relacionados com sua cadeia de abastecimento, os produtos e as comunidades locais. Por sua vez, a Unilever associou-se a vários grupos de acionistas para desenvolver programas de agricultura sustentável, centrados nas formas de melhorar a eficiência de fazendas e minimizar o uso de água, acrescenta a pesquisa.
O estudo do CDP era de resposta voluntária, mas 86% das companhias consultadas na Europa e 74% na América do Norte enviaram suas respostas. Nenhuma das sete empresas chinesas que receberam o questionário aceitou participar. Embora os dados não tenham sido auditados, Dickinson acredita que nenhuma das corporações enviou informação falsa. “Esperamos que as grandes firmas contábeis se unam a nós”, acrescentou. Existe uma crescente reclamação para que a Comissão de Valores dos Estados Unidos (SEC), que regulamenta a atividade na bolsa, peça às empresas que revelam seu nível de risco diante da mudança climática.
A Allstate Corporation, que faz seguro de um em cada oito lares nos Estados Unidos, informou perdas acima de US$ 4 bilhões devido aos furacões Katrina e Rita, mas não mencionou a mudança climática em seu último balanço. E o gigante do ramo de energia Exxon Móbil apenas menciona o tema. Investidores, fundos de pensão e organizações ambientalistas pediram oficialmente à SEC, no último dia 18, que obrigue todas as empresas cotadas na bolsa a divulgar informação mais detalhada e útil.
“A mudança climática pode afetar o desempenho das empresas de várias maneiras: desde danos em suas instalações e maiores custos para cumprir as regulamentações até suas oportunidades no mercado internacional para produtos ou serviços que contribuem pouco ou nada para o aquecimento global”, diz a petição enviada à SEC. O texto também destaca que um estudo feito em janeiro passado por Ceres e o Grupo Calvert, uma empresa de administração de ativos, revelou que mais da metade das companhias incluídas no índice Standard&Poor 500 estão fazendo um trabalho muito deficiente para informar seus investidores sobre os riscos da mudança climática.
“A SEC precisa fazer mais para proteger os acionistas dos ricos que enfrentam as companhias por causa da mudança climática, seja em razão de impactos físicos diretos ou por novas regulamentações”, disse Mindy S. Lubber, a presidente da Ceres, grupo de investidores e organizações não-governamentais, e diretoira da Rede de Investidores sobre Risco Climático. “Os acionistas merecem saber se as empresas nas quais colocaram seu dinheiro estão bem posicionadas para enfrentar a mudança climática ou se encontra-se potencialmente expostas”, afirmou.
Dickinson previu que haverá uma enorme resposta global à mudança climática e acrescentou que toda a informação coletada pelo CDP está disponível em seu site, porque a organização quer “ajudar os investidores a votarem com seu dinheiro”. A mudança climática é como a Internet. Sempre estará entre nós”, concluiu.

