APEC: Exercícios militares manda recado à China

Pequim, 10/09/2007 – A exibição de influencia econômica e firmeza diplomática pela China na cúpula Ásia-Pacifico em Sidnei ficou encoberta pelos maiores exercícios de guerra jamais realizados na região, dirigidos pelos Estados Unidos na baia de Bengala. Analistas consideram que estes jogos de guerra com juntos, com participação de navios norte-americanos e de Austrália, Índia, Japão e Cingapura, integram um plano estratégico de Washington para fortalecer seus vínculos na Ásia em um momento em que Pequim tenta projetar seu crescente poderio militar.

Os exercícios, chamados Malabar 07/02, começaram depois dos exercícios navais de menor porte realizados por Índia, Japão e Estados Unidos no oceano Pacifico ocidental no início deste ano. Pequim acompanha tanto os exercícios quanto as conversações sobre segurança que os acompanham com um mal-estar cada vez maior. O governo chinês protestou quando Índia, Japão e Estados Unidos se reuniram em junho com a Austrália para um diálogo a respeito de uma nova “iniciativa quadrilateral” e exigiu uma explicação oficial.

A China também questionou a falta de transparência na agenda das conversações trilaterais sobre segurança realizadas no sábado por Austrália, Japão e Estados Unidos, com atividades suplementares do fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacifico (APEC). A APEC é integrada por Austrália, Brunei, Canadá, Coréia do Sul, Chile, China, Estados Unidos, Filipinas, Hong Kong, Indonésia, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Papúa-Nova Guiné, Peru, Rússia, Cingapura, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

O primeiro-ministro australiano, John Howard, foi rápido em defender as conversações do sábado como uma “expressão dos interesses comuns de três democracias do Pacifico”. Porém, para Pequim este argumento soa muito semelhante ao apresentado pelo primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, no sentido de se “criar um arco asiático da liberdade e da prosperidade” que exclui a China. Em recente visita à Índia, Abe disse ver o arco constituído por democracias ao longo dos oceanos Índico e Pacifico, e citou Índia, Estados Unidos, Austrália e Japão como seus componentes.

Embora Pequim compreenda os motivos do Japão na busca por aliados enquanto observa nervosamente o crescimento econômico e militar de seu vizinho, ainda suspeita que o realinhamento de poderes está guiado, em última instância, pelos Estados Unidos. “Vemos um renascimento da mentalidade da Guerra Fria nos esforços de Washington para encontrar aliados e sócios enquanto fortalece sua presença militar na região Ásia-Pacifico, na Europa oriental e na Ásia austral, além de sua ocupação indefinida do Iraque”, afirmou o especialista Fu Mengzi em uma coluna publicada em agosto pelo diário estatal China Daily.

Fu, pesquisador do Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, alegou que os Estados Unidos estão decididos a revitalizar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), além de construir uma “aliança” com a “obsessão de forjar relações militares” co países que não integram esse bloco. Estados Unidos, Japão e Austrália ainda não têm um acordo trilateral formal, mas nos últimos meses houve uma série de conversações e negociações diplomáticas no sentido de atualizar sua aliança de segurança.

Em março, Japão e Austrália assinaram uma declaração sobre segurança, traçando uma estratégia conjunta que inclui exercícios militares e cooperação em matéria de inteligência, contra-terrorismo e armas de destruição em massa. Espera-se que outro acordo neste sentido, entre Canberra e Washington, seja anunciado após as conversações sobre segurança do último fim de semana, complementares ao fórum da APEC.

A resposta oficial da China ao que seus analistas vêem como uma tentativa desses três países para cercá-la foi apostar na abertura e tentar aplacar temores. Antes do início da reunião da APEC Pequim anunciou de surpresa sua decisão de levar à Organização das Nações Unidos um informe anual sobre seu gasto militar e suas importações e exportações de armas convencionais. O Ministério das Relações Exteriores disse que a decisão tem o objetivo de exercer a “transparência” e minimizar a crescente preocupação internacional sobre a rápida escalada militar da China.

O compromisso de uma transparência maior surge em meio a manifestas preocupações internacionais sobre o gasto militar chinês, que cresce ao ritmo de dois dígitos quase todos os anos desde a década de 90. Este ano, o orçamento militar da China aumentou 17,8%, cerca de US$ 45 bilhões. Na semana passada, o ministro chinês da Defesa, general Cao Gangchuan, disse no Japão que a escalada militar de seu país se orienta para a autodefesa. “Os que falam da teoria da China como uma ameaça militar ignoram a situação e suas alegações são infundadas’, disse Cao em um discurso público.

A visita do general ao Japão – a primeira de um ministro chinês da Defesa desde 1998 – indica uma cautelosa tentativa de Pequim em restabelecer as relações bilaterais, depois de um período de congelamento durante o governo do ex-primeiro-ministro Junichiro Koizumi, (2001-2006). Os dois países acertaram a primeira visita de um navio de guerra chinês ao Japão e tentar o estabelecimento de uma linha direta de diálogo para solucionar a crise. A China também foi cautelosa diante das tentativas de Washington em seduzir Nova Délhi, e se absteve de criticar abertamente um controvertido acordo nuclear civil assinado entre esses dois países.

O acordo assinado no ano passado habilita os Estados Unidos e outros países a fornecerem tecnologia e combustíveis nucleares à Índia, sem que este país precise abandonar suas armas nucleares ou assinar o Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP). Como membro do Grupo de Fornecedores Nucleares, que precisa de consenso sobre o pacto para validá-lo, a China pode usar seu voto para bloquear o acordo. Mas, insinuando que o tratado gerou oposição de diferentes lados, a chancelaria permaneceu relativamente calma em sua reação.

“Também notamos que dentro do Grupo de Fornecedores Nucleares há diferentes pontos de vista quanto à flexibilização das restrições sobre exportações nucleares para a Índia”, disse o porta-voz da chancelaria, Jiang Yu, em entrevista coletiva na quinta-feira. “A China acredita que, com a pré-condição de acatar suas responsabilidades internacionais, todos os países possam desenvolver a cooperação na exploração pacifica da energia nuclear”, acrescentou.

Mas, enquanto corteja os aliados dos Estados Unidos na Ásia, a China continua forjando relações mais próximas com Rússia e a Organização de Cooperação de Xangai, que inclui as republicas da Ásia central. Neste verão boreal a organização realizou pela segunda vez manobras militares conjuntas intituladas “Missão de paz 2007”, que reafirmaram o perfil militar cada vez maior deste organismo regional. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *