Ambiente-Brasil: Sorvetes para salvar o cerrado brasileiro

Goiânia, 23/10/2007 – A capital de Goiás tenta os turistas com três sorveterias. Não só atraem mais consumidores dia a dia pelo sabor exótico das frutas nativas como também promovem a biodiversidade. Um quarto estabelecimento será aberto em duas semanas em Goiânia, que tem 1, 4 milhão de habitantes. Todas as lojas são abastecidas pela família de Clóvis de Almeida, um camponês de 54 anos que encontrou a fortuna graças ao conhecimento botânico acumulado em sua infância e juventude vivida em terras longínquas de Goiás.

Houve tempos mais difíceis. Para chegar ao povoado mais próximo, a 60 quilômetros de distancia, andávamos dois dias a cavalo”. Não havia farmácias, “tudo era curado com medicamentos da floresta e abríamos as estradas a golpes de enxadão”, recordou Almeida. Ele se mudou para Goiânia, onde manteve sua família, com três filhos, vendendo sorvetes “comuns” em carrinhos que empurrava pelas ruas da cidade. Em 1990 quebrou, ao ser pego de surpresa pelo plano antiinflacionário que bloqueou a poupança de toda a população. Como avalista de três amigos, ficou com dívidas impagáveis.

Então, começou a recorrer aos seus conhecimentos das frutas nativas, desenvolvendo os sorvetes que, mais tarde, passou a produzir industrialmente em sua empresa, a Milka Frutos do Cerrado. Hoje são vendidas sob franquia nas sorveterias de Goiânia e outras cidades do interior de Goiás e da vizinha Minas Gerais. “Ficamos lotados nos finais de semana”, mesmo no inverno, disse à IPS Antonio Neto, gerente da sorveteria de 19 mesas e mais de 90 cadeiras na larga Avenida 85 de Goiânia. Cajá-manga é o preferido entre os 46 sabores de picolé e 23 de massa.

As variedades também incluem sabores como chocolate e morango, “porque temos de atender as crianças” acostumadas a sorvetes da grande indústria, admitiu Neto. Milhares de pessoas consomem diariamente os picolés com a marca Frutos do Cerrado e os clientes se multiplicam no verão, ao que devem ser somadas as lojas e as vendas de rua que são uma tradição em Goiânia. Há muitos candidatos à franquia no Brasil, e também estrangeiros. O negócio, que emprega mais de 200 pessoas na fabrica, cumpre também outra missão assumida por Almeida: preservar e valorizar a biodiversidade do cerrado.

Cajá-mangua, gabiroba, araticum, buriti, jatobá e jenipapo são palavras que vão se incorporando ao vocabulário e gosto da população urbana jovem ou são uma recordação aos adultos de origem rural através dos sorvetes. Almeida é um apaixonado pelo cerrado, a ponto de ser convidado para dar palestras em universidades graças aos seus conhecimentos práticos. O bioma ou ecossistema concentra a maior riqueza do Brasil, por suas frutas e plantas medicinais e porque ali nascem os rios que formam as três maiores bacias do país, incluindo a Amazônia, disse à IPS.

“Quem tem terra no cerrado possui uma mina de ouro”, acrescentou, já que com um hectare produzindo as frutas locais pode-se ganhar US$ 165 mil por ano, enquanto um hectare de soja rende apenas US$ 4.400. Almeida critica a irracionalidade do desmatamento para usar essas terras com fins agrícolas. Seu entusiasmo se baseia em seu negócio, cuja expansão não está limitada pela falta de demanda, mas pela dificuldade em conseguir matéria-prima. A seca deste ano em Goiás obrigou sua empresa a “buscar frutas em áreas distantes, até no Piauí”, lamentou.

O Estado do Piauí, que fica a cerca de dois mil quilômetros de Goiânia, fica em um extremo do cerrado, a savana que se estende por um quarto do território brasileiro, com uma biodiversidade comparável à amazônica, embora pouco reconhecida e protegida. Um estudo feito em 2004 pela Conservação Internacional (CI) estimou que esse bioma estará totalmente destruído até 2030, considerando que apenas 34% de sua extensão manteria a vegetação nativa e que a perda anual, baseada em uma média obtida entre 1984 e 2002, é de 1,1%, diante do avanço da pecuária e da agricultura.

Uma nova avaliação, com imagens obtidas via satélite de melhor resolução deverá estar pronta no próximo semestre, disse à IPS Ricardo Machado, diretor do Programa Cerrado, da CI. Oscilações no mercado internacional da soja e a exposição do fenômeno dos biocombustíveis provavelmente alteraram o ritmo do desmatamento. O problema é a visão tradicional que considera o cerrado como um ecossistema pobre e “descartável”, por sua paisagem sem florestas exuberantes, dominado por vegetação baixa e arbustos retorcidos. A Constituição brasileira de 1988 excluiu o cerrado dos patrimônios nacionais contemplando apenas a Amazônia, Mata Atlântica, Pantanal Matogrossense e a zona costeira.

O cerrado também era menosprezado por sua baixa fertilidade natural, mas os avanços tecnológicos e a fertilização o converteram em fronteira de expansão agrícola nas três últimas décadas, acentuando sua devastação. A intensa aplicação de cal para corrigir a acidez alterou quimicamente o solo, em detrimento da vegetação original. Aproveitar economicamente a biodiversidade do cerrado, hoje reconhecida como rica em espécies medicinais, alimentares e fornecedoras de insumos para a indústria cosmética, é um caminho para preserva a parte remanescente do bioma, segundo Machado.

O uso de frutas nativas na fabricação de sorvetes, sucos e doces “é interessante” para popularizar as espécies do cerrado, agregando-lhes valor e gerando muitos empregos, embora seja insuficiente para conter o desmatamento, disse Machado. É um caminho já percorrido com sucesso no caso de algumas espécies amazônicas, como o açaí e o cupuaçu. É necessário, segundo este ativista, ampliar o uso sustentável dessa biodiversidade por parte de comunidades locais organizadas e estimular outras iniciativas, inclusive com políticas governamentais e financiamentos favorecidos. Não se deve ficar no limite da extração de frutas, mas passar ao cultivo “em pequena escala”, acrescentou.

A Associação dos Produtores e Beneficiadores de Frutas do Cerrado (Benfruc), fundada por 10 pessoas em 2004 em Damianópolis, pequeno município de quatro mil habitantes no nordeste de Goiás, somou-se a este esforço. Colhe e processa 30 toneladas por ano, que passaram a cem com uma nova unidade que será inaugurada ainda este ano. Toda a polpa produzida das frutas é vendida para a Sorbé, uma sorveteria de Brasília, a 300 quilômetros de Damianópolis, e se produz doce de pequi, fruta abundante em Goiás, para o comércio de Goiânia, a 535 quilômetros.

A associação surgiu porque em “Damianópolis não há trabalho. Apenas a escola e a prefeitura oferecem empregos”, explicou Giovanda de Souza Brandão, presidente da Benfruc. “Queremos agora uma reserva extrativista”, já proposta ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente, com 27 mil hectares que permitam ampliar a colheita de frutas, produtos medicinais e mel. Há demanda, é a coleta de frutas que limita a cadeia produtiva, afirmou. Reserva extrativista (Resex) é uma área destinada à colheita controlada de frutas da floresta, sem afetar sua capacidade de reprodução nem o equilíbrio ecológico. A idéia nasceu na Amazônia, por iniciativa de Chico Mendes, líder dos seringueiros e herói de lutas ambientais, cujo assassinato em 1988 teve repercussão mundial.

A Benfruc, cujos membros colhem e processam as frutas, está capacitando 90 famílias para a ampliação do negócio. Seus associados também plantam novas árvores e arbustos frutíferos, mas enfrentam o problema da escassez de terras. Sua atividade somente progredirá de fato com a Resex, que garantiria terras amplas e crédito oficial, afirmou Brandão, ex-camponesa de 40 anos, com dois filhos, que sonha um dia comprar uma fazenda para destinar cinco ou 10 hectares exclusivamente ao cultivo de frutas do cerrado.

(Envolverde/ IPS)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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