México, 22/10/2007 – O jornalismo deve procurar a multiplicação de leitores “que não lêem para passar a vista por sinais no final das contas indecifráveis”, mas para levantar a indignação contra as múltiplas injustiças, “Sem o qual a vida cotidiana se converte em zona de isolamento e docilidade”, disse o escritor mexicano Carlos Monsiváis. O compromisso com leitores críticos, um “pré-requisito da cidadania plena” e com a urgência de “fazer do jornalismo um dos instrumentos de resistência cultural”, é o que Monsiváis encontrou nos trabalhos ganhadores do Primeiro Concurso Jornalístico América Latina e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, organizado pela agência internacional de notícias IPS (Inter Press Service) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
O escritor, que integrou o júri do concurso do qual participaram 466 trabalhos escritos de 19 países latino-americanos, foi o orador central de uma concorrida cerimônia realizada na capital mexicana na noite de quinta-feira para a entrega dos prêmios aos três primeiros lugares. “Estes jornalistas cumprem seu dever de modo criativo ao nos colocar próximos de temas tão evitados com o trabalho infantil, os ecocídios, as cumplicidades dos governos e um empresariado voraz, a situação das mulheres, o paradoxo da fome e as realidades do neoliberalismo”, afirmou Monsiváis.
A série “Crianças diaristas”, publicada pelo jornal mexicano Excelsior entre 27 e 29 de junho por uma equipe liderada pela jornalista Marcela Turati, obteve o primeiro lugar no concurso organizado pela IPS e pelo Pnud. Turati dedicou seu prêmio, de US$ 5 mil, “aos jornalistas que se sentem fora de lugar e que usam espaços na mídia para insistir que a pobreza existe e que não é uma anomalia, aos jornalistas que se sentem primeiro cidadãos antes de jornalistas e que vivem indignados, mas esperançosos”. Turati disse, ainda, que “amamos nossa profissão e sabemos que é a ferramenta que temos para que este mundo seja menos feio, menos desumano e menos injusto”.
O uruguaio Joaquín Costanzo, diretor da IPS para a América Latina, considerou que os trabalhos apresentados no concurso entre 1º de outubro de 2006 e 30 de junho deste ano demonstraram que “há uma enorme reserva de sensibilidade, de compromisso, de valor e de seriedade profissional em jornalistas da região”. A quantidade e qualidade dos trabalhos que concorreram são “uma resposta aos que desejam jornalistas acéticos, que diante de todos os problemas se colocam com indiferença e olham como se fossem exercícios técnicos os problemas existentes em seus países”. Ficou demonstrado que “se pode ser sensível e profissional ao mesmo tempo”, afirmou.
O concurso foi criado para premiar trabalhos publicados na imprensa latino-americana sobre temas sociais ligados aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, um conjunto de metas em matéria de saúde, educação, gênero, meio ambiente e luta contra a fome e a pobreza adotadas em 2000 pela Organização das Nações Unidas. O júri esteve integrado, além de Monsiváis, elo escritor cubano Leonardo Padura; pela presidente da Fundação para a Liberdade de Imprensa da Colômbia, Maria Teresa Ronderos; pelo diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, e pela diretora regional do Pnud para a América Latina e o Caribe, Rebeca Grynspan.
Thierry Lemaresquier, representante residente do Pnud no México, afirmou que o concurso permitiu confirmar que na América Latina existe um forte jornalismo que “se apega aos princípios do desenvolvimento e da responsabilidade e que é uma voz essencial para que a realidade dos países em desenvolvimento seja conhecida”. Segundo Lemaresquier, “sem a voz da mídia (as agências da ONU) não poderíamos trabalhar”. Monsiváis, a quem alguns intelectuais mexicanos chamam de “instigador democrático”, agradeceu a oportunidade de participar como júri e poder constatar “a vastidão dos problemas e a impossibilidade de resolvê-los” na América Latina. “isto pode ser muito deprimente. E é. Porém, dá gosto ver um jornalismo que não se concentra no que sucede e não se detém no escândalo”, acrescentou.
“Ao ler os textos me convenci, uma vez mais e com maior ênfase, que o jornalismo é o resultado da aliança entre jornalistas e leitores, e que, em muito maior medida do que já se viu, os leitores também são responsáveis pelos climas de complacência, oportunismo e adulação que marcaram etapas muito infelizes da imprensa latino-americana”, afirmou Monsiváis. “Aos leitores cabe converter a denúncia em clima social, cabe a eles superar o escândalo, que como tal é sempre um alívio, e levá-lo à retificação. A isto convocam as reportagens e crônicas premiadas nesta oportunidade, à certeza da radicalização do encontro na pagina da vontade informativa e a vontade social”, acrescentou.
O segundo prêmio coube à reportagem “Faces da maternidade”, de Bruna Cabral de Vasconcelos e Mona Lisa dourado, publicado no Jornal do Commercio, do Recife (PE). Trata-se de um relato das experiências de muitas mães que “pinta um rico e ásperp panorama da maternidade no Brasil”, segundo o júri. O terceiro lugar foi dividido entre o extenso trabalho “Morrer na pobreza”, publicado na revista mexicana Contralínea por Zósimo Camacho e sua equipe, e a reportagem “Mata Atlântica, a floresta esquecida”, de Paulo Aurélio Martinelli e Raquel Lima para o jornal Correio Popular, do Brasil.
O quarto lugar ficou com César Bianchi, autor de “O pequeno Comcar”, publicado no jornal uruguaio El País, sobre uma escola para crianças com “conduta tão ruim que não podem cursar escolar normais”. O quinto lugar foi dividido entre “Tolupanes, paraíso dos abandonados”, de César Antonio Rivera Irias e publicado no jornal hondurenho El Heraldo, e “Violência extrema nas escolas”, de Humberto Padggett León, da revista Emeequis, do México. (Envolverde/ IPS)

