Biocombustíveis: O risco do modelo exportador de matérias primas

Rio de Janeiro, 15/10/2007 – O temor de que o boom do etanol e do biodiesel perpetue os países em desenvolvimento como simples exportadores de matérias-primas foi um ponto destacado na segunda Feira Internacional de Agroenergia, Biocombustíveis e Energias Renováveis (Enerbio), realizada na semana passada em Brasília. Durante três dias, mais de 18 mil pessoas e 130 expositores participaram dos cinco encontros que compunham a Enerbio: três conferencias internacionais, sobre biocombustíveis, energia e transporte; o Seminário de fomento a Microprodutores de Etanol e Biodiesel, e a feira propriamente dita. Estiveram presentes delegações de 50 paises, 12 deles africanos.

A preocupação de que países como o Brasil tenham um papel de simples fornecedores de matéria-prima para a indústria de biocombustíveis dos Estados Unidos e da Europa se deve à crescente participação de investidores estrangeiros no setor dos combustíveis destilados de cultivos, disse à IPS o presidente da Enerbio, Ronaldo Knack, em um balanço das conferencias. Os investimentos estrangeiros, que representaram apenas 6% na agricultura energética brasileira no ano passado, duplicaram em 2007, ressaltou. O risco é que com esse poder consigam determinar a divisão do mercado. O Brasil já exporta mais soja em grão do que seus derivados de maior valor agregado, com óleo e farelo, situação que pode se repetir com o biodiesel refinado a partir dessa oleaginosa.

Outros dois enfoques que obtiveram consenso indicam que o governo brasileiro, contrariando o discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não está apoiando os pequenos produtores de oleaginosas destinadas ao biodiesel e tampouco adotou uma política a favor das fontes renováveis de energia, segundo Knack. O óleo de rícino, cuja produção o governo diz estimular na agricultura familiar do Nordeste pobre, tem no mercado internacional preço quatro vezes maior do que o obtido para ser transformado em biodiesel nacional, acrescentou. Por outro lado, os planos oficiais dão prioridade às grandes centrais hidrelétricas e nucleares em lugar das energias eólica, solar e de biomassa, ressaltou Knack.

Os painéis, seminários, fóruns e encontros que reuniram especialistas, empresários, investidores e interessados desenharam um panorama dos biocombustíveis no mundo. O Brasil continuará atraindo investimentos neste setor por suas extensas terras disponíveis, clima favorável e baixos custos de produção, afirmou Roel Collier, do grupo britânico Clean Energy. A demanda por etanol seguirá em franca expansão, tanto no mercado interno quanto no externo, graças aos automóveis equipados com motores flex, que funcionam com gasolina e álcool.

No Brasil, esses veículos já dominam 90% da produção nacional. No ano passado foram fabricados dois milhões de unidades. Nos Estados Unidos já chegaram a seis milhões. Além disso, multiplicam-se os países que, como Austrália, China, Japão e alguns europeus, misturam de 3% a 10% de etanol na gasolina. O comércio internacional do combustível alternativo, entretanto, segue restrito devido às elevadas tarifas e às exigências de certificados que assegurem uma produção ambientalmente sã e que respeito os direitos dos trabalhadores.

Todos em Brasília aprovaram as certificações, e as tarifas pouco preocupam, porque cedo ou tarde os países ricos (EUA, Japão e os europeus) terão de abrir seus mercados aos biocombustíveis, disse Knack. Mas, não faltaram queixas pela “contradição” que representa o protecionismo contra o etanol, enquanto se deixa livre a importação de petróleo, que contamina muito mais. É o biodiesel que apresenta iniciativas mais novas, porque se trata de um mercado em construção.

Enquanto o Rio de Janeiro se orgulha de já contar com uma frota de ônibus funcionando com uma mistura de 5% de biodiesel, reduzindo a contaminação com a fumaça negra em 10%, Brasília iniciou um projeto de reaproveitamento do óleo vegetal de cozinha. A empresa Eco Brasília Diesel já recolhe o óleo usado em 1.280 empresas comerciais para a produção de 50 mil litros de biodiesel por dia a partir de janeiro próximo, capacidade que poderá chegar a até 200 mil litros.

A União Brasileira de Biodiesel (Ubrabio), que reúne 24 empresas produtoras desse combustível e de equipamentos necessários para a nova indústria, afirma que o Brasil dispõe de matéria-prima e capacidade produtiva para garantir o consumo nacional. Em janeiro entrará em vigor a lei que impõe a mistura de 2% de biodiesel ao combustível obtido a partir do petróleo, compondo o chamado B2. Para cumprir esse primeiro passo, o Brasil só precisa consumir 12% dos 24 milhões de toneladas de soja que exporta anualmente, destacou o presidente da Ubrabio, Odacir Klein. O País já tem capacidade para o B5, assegurou. Esta mescla de 5% está prevista para 2013, mas o governo pretende antecipá-la em três anos.

O programa nacional do biodiesel estimula a produção de oleaginosas na agricultura familiar através do selo Combustível social, que libera de impostos a indústria dedicada a promover a pequena produção, gerando renda e emprego. Mas as cooperativas de produtores se queixam da legislação que, segundo dizem, não estimula o desenvolvimento do cooperativismo no refino do biodiesel. A imposição de determinadas normas técnicas favorece a grande indústria, dificultando aos grupos de produtores de oleaginosas acesso à industrialização.

A Enerbio deste ano comprovou seu sucesso, segundo Knack, não apenas pela ampla participação, mas também pelo interesse e o acordo de levá-la à África e à Europa. No próximo ano também será realizada em Moçambique e Portugal. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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