Havana, 26/10/2007 – O anúncio do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de um endurecimento de sua política para Cuba e a forte reação oficial de Havana definem as posturas extremas de um conflito que faz prever maiores tensões nos próximos meses. “Obviamente, a intransigência não ajuda o diálogo”, disse à IPS um diplomata acreditado em Havana que não quis se identificar, partidário de posições que estimulem, em lugar de fechar, as possibilidades de mudanças na sociedade cubana. A fonte considerou totalmente “previsível” a rápida resposta do governo cubano ao discurso de Bush, que afirmou que seu governo manterá o embargo comercial contra a ilha até que esta “adote, tanto de palavra quanto nos fatos, as liberdades fundamentais”.
Cerca de três horas após o discurso de Bush em Washington, o chanceler cubano, Felipe Pérez roque, disse em Havana que o chefe da Casa Branca, em uma “em uma linguagem ameaçadora e altaneira”, promove a subversão interna e busca “a mudança de regime em Cuba, inclusive pela força. Devemos advertir que um cenário como esse não só significaria a ruptura da estabilidade de Cuba mas, também, a estabilidade dos Estados Unidos, e poria em perigo o povo norte-americano, cujos filhos seriam enviados para matar e morrer em uma guerra contra Cuba”, disse Roque.
Segundo o chanceler, Washington encontraria na ilha “milhões de combatentes armados e treinados e um povo preparado, depois de quase meio século de revolução vitoriosa, em defender suas conquistas e seu direito à liberdade e à independência”. Cuba baseia suas concepções de defesa no que chama “guerra de todo o povo”, projetada em um período igualmente tenso das relações com os Estados Unidos no governo do também republicano Ronald Reagan (1981-1989), morto em junho de 2004.
Essa doutrina militar, que autoridades cubanas consideram aperfeiçoada com o passar dos anos, tem como força decisiva as tropas terrestres e toma como experiências de luta de guerrilha e convencional próprias, aplicadas fundamentalmente na África, como de outros países. Calcula-se que mais de 300 mil “combatentes internacionalistas” cubanos participaram da guerra de Angola por sua independência de Portugal em 1975, contendo a invasão militar sul-africana, e depois sustentaram o governo do Movimento Popular de Libertação, que enfrentou uma guerra civil por mais de duas décadas.
Devido à doença que mantém Fidel Castro longe do poder desde 31 de julho de 2006, as autoridades aumentaram a capacidade e a disposição combativa das tropas, segundo disse seu irmão mais novo, Raúl Castro, em suas primeiras palavras como mandatário interino. “Não podíamos descartar o risco de alguém ficar louco, ou ainda mais louco, dentro do governo norte-americano”, disse Raul, ministro das Forças Armadas e primeiro vice-presidente do Conselho de Estado, em entrevista publicada pouco mais de 15 dias depois do anúncio do afastamento provisório de Fidel.
Embora sem mencionar nomes, Bush deixou claro que Washington não reconhece nem reconhecerá um governo sucessor de Fidel Castro liderado por Raúl. “As condições de vida dos cubanos não irão melhorar sob o atual sistema de governo. Nem melhorarão trocando um ditador por outro”, afirmou. O chefe da Casa Branca acrescentou que seu país “não insuflará oxigênio a um regime criminoso que explora seu próprio povo. Não vamos apoiar o velho regime com novas caras, o velho sistema mantido com novas cadeias. A palavra-chave em nossos tratos no futuro com Cuba não será estabilidade. A palavra-chave é liberdade”.
De maneira pouco usual, o jornal oficial Granma não se limitou a uma curta resenha do discurso de Bush, mas dedicou uma pagina completa às suas “partes essenciais”, seguidas da declaração de Pérez Roque. Na primeira pagina, o jornal publicou um texto e fotos de Raúl Castro sobre a visita do rei do Lesoto, Letsie III. Do Lado opositor, houve quem sentiu certa decepção pelas palavras de Bush. “Temo que este discurso sirva em alguns aspectos aos setores que aqui estão colocando obstáculos à política de mudança”, disse à IPS o economista dissidente Oscar Espinoza Chepe, para quem o embargo é um “fracasso”.
“Não é uma política que, em geral, possa alentar esse processo, que pode ou não frutificar, mas está dentro das possibilidades”, disse Chepe, um dos opositores convidados na quarta-feira ao escritório da Seção de Interesses dos Estados Unidos (Sina) em Havana para ouvir ao vivo o discurso de Bush. Manul Cuesta Morúa, do setor moderado da dissidência cubana e crítico das políticas de “confrontação”, disse à IPS que o presidente norte-americano “está em clara posição de malograr a possibilidade de Cuba evoluir para um processo de transição a partir de si mesma”.
“Como sempre, os Estados Unidos são o principal obstáculo externo para a mudança em Cuba”, disse o opositor, um dos que não aceitou o convite da Sina, como Eloy Gutiérrez Menoyo, que em uma declaração entregue à imprensa internacional afirmou que Washington não tem nenhum direito de “imiscuir-se nos assuntos de Cuba. Em nome da oposição independente da ilha, rechaço as declarações do presidente Bush e reitero a fé inquebrantável dos cubanos como arquitetos de seu destino”, acrescentou Menoyo, da organização Mudança Cubana, que fundou durante seu exílio nos Estados Unidos.
Enquanto isso, o governo de Cuba continua sua campanha contra o bloqueio. De maneira simultânea, uma manifestação popular foi organizada ontem na província de Matanzas, a leste de Havana, e uma moção de resolução condenando o embargo circula na Organização das Nações Unidas para ser votada no próximo mês. (IPS/Envolverde)

