Desenvolvimento: Emergentes querem lugar permanente no Conselho de Segurança

Johannesburgo, 16/10/2007 – Brasil, Índia e África do Sul intensificarão sua campanha para ocupar lugares permanentes no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, quando seus líderes se reunirem amanhã em Pretória. Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, e Thabo Mbeki, da África do Sul, bem como o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, debaterão as reformas da Organização das Nações Unidas e outros assuntos de interesse comum na segunda cúpula da aliança IBSA (sigla dos três países) esta semana. As três nações são firmes candidatas a assumirem postos permanentes em um Conselho de Segurança expandido, e parece certo que apoiarão os esforços de cada uma para representar suas regiões. Esta aprovação mútua dará um peso considerável às suas respectivas apostas, mas, ao mesmo tempo, pode aliená-las de potenciais partidários em suas próprias regiões.

O IBSA foi concebido em 2003 para contrapor-se ao Grupo dos Oito países mais poderosos e para promover a cooperação Sul-Sul. As três potências regionais viram a sim mesmas como campeãs das causas do mundo em desenvolvimento, e entenderam que ao forjarem vínculos mais próximos entre elas poderiam melhorar a cooperação e o comércio entre suas regiões. A África do Sul é a superpotência da União Aduaneira da África Austral e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. O Brasil é, de longe, o membro mais influente do Mercado Comum do Sul (Mercosul, integrado também por Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela), enquanto a Índia tem a maior economia da Ásia austral.

Antes da cúpula acontecerão várias atividades em Sandton, Johhanesburgo, incluindo reuniões de 14 grupos de trabalho, a Iniciativa de Mulheres da IBSA, o Fórum Acadêmico da IBSA e o Fórum Empresarial da IBSA, além de um seminário sobre transferência de tecnologia e vários acontecimentos culturais. Os 14 grupos de trabalho que representam vários departamentos governamentais referem-se a agricultura, mudança climática, defesa, educação, energia, saúde, tecnologia, assuntos sociais, turismo, comércio e transporte, entre outros. Os países IBSA uniram-se por compartilharem objetivos políticos comuns, representando as nações emergentes com metas sócio-políticas semelhantes.

As três nações têm economias em rápido crescimento, enquanto grandes proporções de suas populações se esforçam para sair da pobreza. Os líderes da IBSA tentam transformar seus paralelos políticos e econômicos em uma base para a maior cooperação econômica. Afirmam que, trabalhando juntos, terão maior influência na hora de negociar com os países do Norte industrializado por melhores condições comerciais no contexto da Organização Mundial do Comércio. Desde a formação da IBSA, o comércio entre os três Estados-membros aumentou consideravelmente. “As cifras do comércio estão saudáveis e agora se situam entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões”, disse o diretor da seção Ásia e Oriente Médio do Departamento de Assuntos Externos da África do Sul, Jerry Matjila.

Este diplomata disse que quando for assinado um novo acordo de livre comércio as perspectivas de crescimento serão ainda maiores. “Quando criarmos um contexto de trabalho comum (acordo trilateral) poderemos alcançar nosso objetivo de US$ 10 bilhões”, disse Matjila. Apesar de seu entusiasmo pelo futuro do comércio trilateral, uma avaliação da realidade revela que de longe os três membros da IBSA ainda realizam a maior parte de seus negócios com países industrializados. Dados da OMC de 2005 indicam que a União Européia foi o principal destino das exportações de Brasil Índia e África do Sul, bem como a principal fonte de importações.

Nenhum dos países IBSA aparece nas listas dos cinco principais sócios comerciais de nenhum dos outros Estados-membros. O comércio trilateral cresceu de maneira impressionante, mas em relação a uma base ínfima. A OMC diz que entre 2004 e 2006 os negócios do Brasil com a Índia aumentaram 170% e com a África do Sul 86%. Embora seja provável que o comércio entre as três nações continue crescendo no futuro imediato, é improvável que alcance os objetivos estabelecidos pelos líderes da IBSA, afirmam analistas.

“Os três países são competidores essenciais para exportar aos mercados industrializados”, disse Dirk Ernst van Seventer, economista da Trade and Industrial Policy Strategies (Estratégias em políticas comerciais e industriais), uma organização de especialistas com sede em Johannesburgo. Os Estados-membros da IBSA terão de fazer sacrifícios significativos em suas economias internas para tornarem o bloco comercial menos competitivo internamente e mais competitivo externamente, acrescentou. Seventer insinuou não acreditar que os governos dos países IBSA tenham feito os sacrifícios políticos no curto prazo necessários para conseguir os desejados objetivos econômicos a longo prazo.

Em sua sétima viagem ao continente africano, o presidente Lula fez polêmicas escalas em seu caminho à cúpula IBSA. Os meios de comunicação brasileiros criticaram o mandatário por visitar três países com questionados antecedentes na prática democrática: Burkina Fasso, República do Congo e Angola. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou ontem seu colega de Burkina Fasso, Blaise Campaoré, por ocasião do vigésimo aniversario do golpe de Estado que deu o poder a Campaoré e em que foi assassinado seu ex-aliado Thomas Sankara. O presidente do Congo, Denis Sassou-Nguesso, e seu colega angolano, José Eduardo dos Santos, estão aferrados ao poder desde 1979. Por sua vez, Singh realizará uma curta visita à Nigéria em seu caminho à cúpula IBSA.

(Envolverde/ IPS)

Paulo Jorge

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *