Ambiente: Mudança climática é um grave risco para a humanidade

Nações Unidas, 26/10/2007 – A falta de ações drásticas para deter a mudança climática e a acelerada perda de biodiversidade coloca em grave risco o futuro da humanidade, alertou ontem o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O quarto Informe Perspectivas do Meio Ambiente Mundial (GEO 4), divulgado pelo Pnuma, apresenta em suas 535 paginas uma completa análise dos esforços internacionais de proteção e preservação ecológica nos últimos 20 anos.

O GEO 4 foi apresentado faltando pouco mais de um mês para uma conferência internacional-chave que acontecerá em Bali, na Indonsia, quando serão debatidas medidas a serem tomadas depois que expirar, em 2012, o Protocolo de Kyoto, único instrumento mundial para conter o aquecimento global. Desde que a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento divulgou seu próprio estudo há duas décadas, a comunidade internacional não conseguiu responder aos desafios ambientais causados pelo homem, diz o informe do Pnuma, preparado por quase 400 cientistas.

O GEO 4 indica que o crescimento populacional, os padrões de consumo não sustentáveis e a expansão urbana afetam os esforços para proteger o planeta de novos danos ambientais. “A resposta da comunidade internacional à Comissão Brundtland (há 20 anos) em alguns casos foi valente, mas não conseguiu responder à magnitude dos desafios”, disse o diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner. Segundo esta agência da ONU, há muitos problemas que permanecem “sem solução e não tratados”, enquanto surgem outros novos, desde o aumento das “zonas mortas” de oxigênio nos oceanos até a propagação de novas e antigas enfermidades.

O tratado diz que a ameaça da mudança climática é “real” e exorta a realizar drásticas reduções nas emissões dos gases causadores do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta, segundo a maioria dos cientistas. O estudo prevê que, até o final deste século, as temperaturas mundiais sofrerão aumento médio entre 1,8 e quatro graus. Alguns cientistas afirmam que uma alta de dois graus é a “fronteira” além da qual haveria “grandes e irreversíveis” danos na Terra. Alguns desses gases podem persistir na atmosfera por mais de 50 mil anos, segundo o GEO 4, que critica severamente os países do Norte industrializado pela degradação ambiental.

“Estamos vivendo muito mais além de nossos meios”, disse um pesquisador do Pnuma. Quanto à diversidade biológica, o informe diz que as espécies se extinguem cem vezes mais rápido do que o ritmo registrado nos fósseis. Sessenta por cento dos ecossistemas avaliados o GEO 4 se degradaram. A perda de diversidade genética pode ameaçar a segurança alimentar, segundo os pesquisadores do Pnuma, os quais calcularam que há 14 espécies animais que constituem 90% de todo o gado e cerca de 30 tipos de colheitas que fornecem 90% das calorias da população mundial.

O informe assinala que a degradação da terra é uma ameaça tão grave quanto a mudança climática e a perda da biodiversidade, porque afeta um terço da humanidade através da contaminação, erosão dos solos, do esgotamento dos nutrientes, da escassez de água e a salinização. Em nível mundial, a contaminação da água continua sendo a maior causa de doenças e morte entre as pessoas, segundo o estudo, onde se alerta que uma redução ainda mais acentuada na qualidade dos recursos hídricos pode levar à propagação de doenças como malária e diarréia em muitas partes do mundo. Conforme demonstram muitos outros estudos, o GEO 4 conclui que todos esses problemas ambientais afetarão especialmente a população mais pobre, que vive no Sul em desenvolvimento. “Há mudanças sem precedentes, que ocorrem no contexto da mudança climática da degradação da terra e da biodiversidade”, disse à IPS o cientista Munyarabzi Chenje, um dos autores do informe. Chenje afirmou que o tema mais importante no GEO 4 é “o desenvolvimento e o bem-estar da humanidade”, e acrescentou que milhões de pessoas no mundo “não estão bem devido à pobreza e à desigualdade” e, portanto, são os mais vulneráveis aos impactos da mudança climática e à perda da biodiversidade.

O cientista afirmou que o Norte industrializado está em melhor posição para enfrentar os problemas climáticos, já que possuem os recursos necessários. O informe critica as nações ricas por não mostrarem suficiente vontade política para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, exigir padrões sustentáveis de consumo dos recursos naturais e por não reduzirem drasticamente a emissão de gases causadores do efeito estufa. “É a verdadeira geopolítica de nossa era”, disse o diretor do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia, ao se referir à fraca resposta dos países industrializados à ameaça do aquecimento do planeta, especialmente por parte dos Estados Unidos, responsáveis por 25% das emissões dos gases que provocam o efeito estufa. “Já sabíamos do problema há mais de 30 anos. Esperamos muito tempo para fazer alguma coisa, e agora o enfoque é principalmente militar. Washington gasta US$ 700 bilhões em ações militares. Não tem sentido”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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