SAÚDE: Dez milhões de mortes silenciosas

Nova Yorque, 05/10/2007 – Uma rede mundial de governos e organizações lançou uma campanha para melhorar os cuidados pré e pós-natal em países como a Índia, que representa, por si só, 25% da mortalidade infantil e 20% da materna. A Aliança para a Saúde da Mãe, do Recém-Nascido e da Criança, fundada em 20005, é formada por Estados, agências da Organização das Nações Unidas, órgãos multilaterais, organizações não-governamentais e outras instituições da sociedade civil. Sua campanha “Deliver Now” (Dar à luz agora), lançado na semana passada, tem a intenção de melhorar a distribuição dos recursos econômicos existentes para a saúde e sua eficácia.

O nome é uma alusão à promessa feita por 189 chefes de Estado e de governo no sentido de reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos até 2015. o compromisso foi selado na Cúpula do Milênio, como é conhecida a inauguração da Assembléia Geral da ONU de setembro de 2000. Além disso, os representantes nacionais concordaram em reduzir pela metade o número de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome, bem como conseguir educação primaria universal e promover a igualdade de gênero até 2015, em relação aos números de 1990. Também consta do acordo combater a expansão do HIV/aids, a malaria e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e gerar uma sociedade global para o desenvolvimento entre Norte e Sul.

Na metade do caminho para a data limite de cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, mais de 10 milhões de mães e crianças morrem por dia, a maioria por causas que podem ser evitadas. Quatro milhões de recém-nascidos morrem nas quatro primeiras semanas de vida e três milhões na primeira. “A causa da saúde de mulheres e crianças ficou muito tempo na sombra e foi descuidada pelas agendas políticas”, afirmou o diretor da Aliança, Francisco Songane, ex-ministro de Saúde de Moçambique. Esta organização pretende intensificar e harmonizar as iniciativas nacionais, regionais e mundiais destinadas a melhorar a saúde da mãe, do recém-nascido e da criança.

A Organização Mundial da Saúde, que é fundamental na atividade da Aliança, diz que 42% das mulheres grávidas do mundo têm complicações durante a gestação, das quais 15 representam risco de vida. Esses problemas ocorrem principalmente em nações em desenvolvimento: 95% das mortes maternas e de recém-nascidos do mundo morrem em 75 países da África, América Latina e Ásia. Pelo menos sete milhões dessas mortes podem ser prevenidas proporcionando acesso generalizado aos sistemas de saúde, segundo uma pesquisa da OMS.

“Necesitamos mais ação e mais vontade política. É um escândalo meio milhão de mães morrerem por ano durante a gravidez ou ao darem à luz”, afirmou Jens Stoltenberg, primeiro-ministro da Noruega. “Milhões de mulheres e crianças podem ser salvas com poucos recursos. Sabemos o que fazer e não é caro”, acrescentou Stoltenberg, cujo governo prevê destinar US$ 1 bilhão nos próximos 10 anos a programas de saúde manterna e infantil em todo o mundo. As medidas a serem tomadas em nível individual são muito simples e incluem vacinação regular, amamentação, acesso a antibiogicos e assistência de um técnico capacitado durante o parto.

Os primeiros programas específicos começarão em 2008 na Índia e Tanzânia, países com grave escassez de pessoal capacitado para trabalharem nos partos. Nesse países, 54% das grávidas não recebem cuidados, por isso morre uma mulher por hora todos os dias devido a complicações durante a gestação. Por sua vez, a coordenadora nacional da Aliança Cinta Branca para uma Maternidade Sem Riscos, Aparajita Gogoi, disse que “as vítimas que morrem por complicações durante a gravidez são pobres e carecem de poder político. As organizações não-governamentais devem se aproximar dessas pessoas e lhes dar informação”.

Alemanha, Canadá, França, Grã-Bretanha e Noruega apóiam a campanha. Stoltenberg tem esperanças de que outros países doadores se somem à iniciativa. São necessários, pelo menos, US$ 9 bilhões ao ano, segundo especialistas, para cobrir as necessidades básicas de mulheres, meninas e meninos em matéria de saúde. Em 2004, somente se dispunha deUS$ 2 bilhões, menos de um quarto do necessário para apoiar os sistemas de cuidados médicos das nações em desenvolvimento. A diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), Thoraya Ahmed Obaid, concorda que é muito importante ter forte liderança e compromisso para priorizar a saúde das mulheres. “O mais importante é trabalharmos todos juntos para alcançar o objetivo”, ressaltou.

Uma boa saúde também requer um compromisso em ambiente sólidos para defender os direitos fundamentais das mulheres. “Temos de fazer algo a respeito do status inferior que têm as mulheres em muitas sociedades”, disse a diretora-geral da OMS, Margaret Chan. “É preciso dar-lhes ferramentas para que possam lutar por seus direitos”. O ar, a água e o alimento, afetados pela mudança climática, são determinantes fundamentais no estado de saúde, disse Chan. “Acredito que os políticos pensem em reconhecer não apenas o impacto da mudança climática no meio ambiente e na economia, mas também na saúde”, acrescentou.

A jornalista Rosangela Berman Bieler, diretora do Instituto Interamericano para a Deficiência e o Desenvolvimento Inclusivo, reclamou que os esforços para ampliar o acesso aos sistemas de saúde levem em conta as necessidades especiais dos deficientes. “Não haverá resultados se os deficientes forem excluídos. Espero que construam uma sociedade que inclua a todos”, disse Bieler, de 49 anos, que também é mãe e ficou tetraplégica aos 19 anos por causa de um acidente de carro sofrido em 1976. Deliver Now foi lançada no dia 26 de setembro por meio de vários atos em Nova Yorque para garantir um apoio popular à iniciativa e prosseguirá com vários acontecimentos mais, como a conferência Women Deliver, que acontecerá entre 18 e 20 deste mês em Londres. (IPS / Envolverde)

Alexandra Stahl

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