América do Sul: Caça a nazistas impunes

Buenos Aires, 29/11/2007 – O internacional Centro Simon Wiesenthal lançou esta semana na capital argentina a “Operação Última Oportunidade”, uma iniciativa que procura encontrar ex-criminosos de guerra nazistas escondidos na Argentina, no Brasil, Chile ou Uruguai, para levá-los à justiça. “A passagem do tempo não reduzi a responsabilidade nem a culpa. Se fixarmos um limite de idade se poderá chegar a crer que alguém muito rico ou muito esperto a ponto de enganar a justiça fique impune, por mais que tenha cometido crimes atrozes”, explicou no lançamento da campanha o especialista Efrain Zuroff.

Desde a nova sede da Associação Mútua Israelita Argentina (AMia), Zurrof explicou em que consiste a operação, que promete recompensa de US$ 10 mil para cada ex-hierarca levado a um tribunal e US$ 520 mil por um dos mais procurados, o médico austríaco Aribert Heim, que se estiver vivo tem 94 anos. Heim, o segundo mais procurado pelo Centro Wiesenthal, trabalhou como médico nos campos de concentração de Sachsenhausen, Buchenwald e Mauthausen, e é acusado de assassinar centenas de prisioneiros judeus por meio de injeções tóxicas aplicadas no coração das vítimas.

Este médico não foi condenado e acredita-se que pode estar “no Chile ou na Argentina”, disse Zuroff. “Sabemos que uma filha sua vive no Chile e outros parentes na Argentina”, e em 2004 soubemos que possui conta em um banco de Berlim com mais de um milhão de euros que ninguém reclama, acrescentou. “Todas as linhas de investigação levam à América do Sul”, garantiu o especialista. “Somente sua captura teria valido este esforço, porque estaríamos levando à justiça o caso mais importante dos últimos 30 anos”, destacou Zurrof, professor na Universidade Hebréia de Jerusalém e diretor do Centro Wiesenthal em Israel.

Para este caso, os governos da Alemanha e da Áustria, junto com o Centro, formaram um fundo de 310 mil euros (US$ 410 mil) de recompensa. A IPS consultou Zuroff sobre o perfil de informante que se procura e ele disse que não se descarta o médico ser entregue por gente de sua própria família, como já ocorreu em outros casos. “A recompensa poderia ser cobrada por um filho, e esse seria o maior castigo moral para um criminoso como este, que algum filho ou neto o denuncie”, ressaltou. Depois, ao terminar a entrevista coletiva na qual foi divulgado o número de telefone para informações sobre o foragido, revelou que já havia chegado o primeiro dado sobre um suspeito.

“A melhor informação, a de maior qualidade, costuma vir de gente que não quer a recompensa”, disse o professor. O primeiro da lista, antes de Heim, é Alois Brunner, um militar austríaco assistente direto do hierarca Adolf Eichmann e responsável por enviar para a câmara de gás 128 mil judeus. Seu último paradeiro conhecido é a Síria. A Operação Última Oportunidade começou com a idéia de acelerar a busca de responsáveis pela execução de milhares de judeus durante a segunda guerra mundial, sobretudo pela avançada idade dos acusados e também das eventuais testemunhas de seus crimes. O programa é dirigido pelo historiador Zurov, especialista em chefes do nazismo, e teve início em 2002 na Lituânia, Letônia e Estonia, onde se estima que foram assassinados milhares de judeus de comunidades locais, ou que foram deportados para ali desde a Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Hungria e França. Em 2003, a operação se ampliou para Polônia, Romênia e Áustria; em 2004 para Croácia e Hungria e em 2005 para a Alemanha, onde a campanha foi lançada no parlamento. Ali se decidiu que Heim, agora também procurado na América do Sul, seria o objetivo número um da operação.

Na terça-feira foi lançada em Buenos Aires o que se considera que seja a última fase do programa, nesta região. Zuroff, que se reuniu com o ministro do Interior da Argentina, Aníbal Fernández, disse acreditar que os governos, apesar de não colaborarem ativamente na busca de nazistas, cooperarão na hora de sua eventual extradição. Em concorrida entrevista coletiva, o representante do Centro para a América do sul, Sergio Widder, explicou que para evitar perda de tempo com tentativas de venda de informação que depois se mostra falsa, a recompensa será paga após a efetiva condenação do criminoso.

Segundo informe do Centro Wiesenthal, a campanha esta sendo muito efetiva. No último ano foram pronunciadas no mundo 21 sentenças contra criminosos de guerra nazistas, cinco vezes mais do que no ano anterior, e 63 investigações novas, que se somam a mais de um milhar de pesquisas em andamento contra ex-chefes nazistas em 14 países. Na última segunda-feira foi lançada a busca em Buenos Aires como parte de uma campanha que também inclui Uruguai, Chile e Brasil e, em seguida, Bolívia e Paraguai.

Embora se desconheça a quantidade exata de criminosos que viveriam nesta parte do mundo, sabe-se por investigações históricas que a Argentina foi refugio de muitos que entraram com identidade falsa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se ocultaram nesse país. Nos últimos 20 anos, uns poucos foram extraditados.

Um deles foi o do alemão Erich Priebke, culpado do massacre de 335 pessoas na Itália e condenado em 1995 em Roma. Outro caso anterior, muito lembrado, é o de Josef Schwammberger, extraditado para a Alemanha em 1987. antes, em 1960, o Mossad, serviço de inteligência israelense, sequestrara Eichmann para condená-lo pela deportação de milhões de judeus aos campos de extermínio. Também há dados de sua passagem pela Argentina do médico Joseph Mengele e do secretário de Adolf Hitler, Martin Bormann. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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