América do Sul: O jogo da vida no futebol de rua

Assunção, 27/11/2007 – O futebol pode trazer alegria e, às vezes, levara ao êxtase ou, então, mal-estar e até violência, mas há uma versão de rua solidária que valoriza comportamentos e se volta à inserção social. É o caso do II Encontro Sul-americano iniciado ontem na capital paraguaia. Seleções de nove países sul-americanos, mais um convidado europeu e outro africano, participam em Assunção de um torneio em que, segundo os organizadores, a bola é apenas uma desculpa para promover valores mais importantes do que um simples resultado esportivo.

No futebol de rua não há árbitros e os cartões amarelo e vermelho não existem. Isso porque os jogadores devem resolver as ocorrências da partida através do diálogo, um processo facilitado pelos “monitores esportivos”, que têm como missão recordar aos participantes o espírito do jogo e mediar na resolução de jogadas complicadas. Ao contrário do futebol profissional, onde as mulheres não têm lugar nas tribunas dos estádios, no de rua as equipes são mistas. No mínimo, deve haver uma jogadora por equipe.

O futebol de rua também difere em um aspecto central: quem faz mais gol nem sempre é o ganhador do jogo, pois são consideradas outras coisas além de um bom rendimento esportivo. As equipes acertam previamente acordos de convivência e são obtidos pontos ao longo da partida por boa conduta, jogo limpo e respeito mútuo. Por exemplo, uma seleção que perde um jogo não fica de mãos vazias, pois soma pontos se jogou bem, respeitou as regras e teve boa conduta. Existe um terceiro tempo, onde se discute e pontua a equipe mais solidária e a que menos faltas cometeu.

“Pretendemos usar o esporte para entender a vida, e que esse seja um espaço para ir construindo uma qualidade de vida melhor nos jovens”, explicou à IPS Luis Ramírez, diretor-geral da organização não-governamental Centro para o Desenvolvimento da Inteligência (CDI), que faz parte da Rede Sul-americana de Futebol de Rua. A rede é composta por mais de 350 organizações que reúnem mais de 18 mil jovens do Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Paraguai, Uruguai, Equador e Peru. Deste torneio sul-americano também participarão uma delegação da África do Sul e outra da Alemanha, como convidadas especiais.

O encontro tem apoio do movimento Futebol pela Esperança, promovido pela Fifa e faz parte da rede global Streetfootballworld, que reúne mais de 250 mil jovens em todo o mundo. A versão Paraguai do futebol de rua se chama “partidí”, diminutivo da palavra “partidito”, que designa o encontro esportivo com poucas regras que surge de maneira espontânea nos bairros e é jogado entre amigos, geralmente nos fins de semana.

O CDI implementou o projeto Partidí pela primeira vez em 2005 em uma comunidade de Assunção chamada Bañado Sur, na margem do rio Paraguai, onde a maioria da população vive na pobreza e violência e marginalidade são moeda corrente. Gerardo Niela, um dos coordenadores do projeto, explicou à IPS que nestes anos de trabalho houve uma mudança notável nas meninas, nos meninos e adolescentes da comunidade. “Diminui a violência no jogo, aumenta o interesse pela escola e o respeito pela mulher”, disse. “A incorporação da mulher na vida é importante. Adquiri-se uma relação de igualdade com os valores masculinos. Esses são indicadores fundamentais quanto à essência do que queremos conseguir”, disse Niela.

O inexplicável imã que a bola de futebol, o esporte mais popular do mundo, gera em todas as idades é a ferramenta especial para promover entre crianças e jovens participantes do projeto outro tipo de valores, como afastamento das drogas e do álcool, incentivo para voltar a estudar, cuidados com o corpo e interesse pela comunidade. “Gosto muito de futebol e via que havia muita agressividade. Depois apareceu este futebol de rua e aderi”, contou à IPS Luis Enrique Giménez, de 18 anos, que se envolveu no projeto em 2004 junto com outros amigos do bairro Santa Ana, na periferia de Assunção.

Gimenez é o atual técnico da seleção paraguaia, integrada por sete homens e duas mulheres, e tem como missão defender o título de campeão sul-americano que conquistou no primeiro torneio realizado em novembro de 2005, em Buenos Aires. E tem experiência. Além de ter integrado a seleção vencedora nessa ocasião, este jovem também participou do I Mundial de Futebol de Rua, organizado no ano passado na Alemanha, junto com a Copa do Mundo. “Estamos treinando todos os sábados há um mês”, disse Gimenez, embora explicando que o importante deste torneio não é ganhar, “e sim aprender. Não importa se perdemos, mas que aprendamos a nos autocontrolar e respeitar o companheiro. O bonito é a experiência, conhecer as pessoas e outras culturas”, acrescentou. Cada certame nacional ou internacional tem um lema, e o deste Sul-americano é “Todos jogam. Todos ganham”.

Além do esporte, estão programadas atividades artísticas, em seminário denominado “Futebol e Transformação Social”, uma feira de projetos e um festival de folclore como encerramento. Quem levantou a bandeira do futebol de rua na região e em nível mundial é a Fundação Defensores Del Chaco, que nasceu há 12 anos no distrito de Moreno, a 35 quilômetros de Buenos Aires. “Começamos em uma esquina, com 12 jovens que não estavam nem aí, deixando a vida passar. Assim surgiu a possibilidade de o bairro começar a acompanhá-los e se organizar”, disse à IPS Fernando Leguiza, coordenador nacional de Futebol de Rua da Argentina e membro da Fundação. “Ali havia a pior das drogas, a apatia”, recorda. Através da organização e da iniciativa, estes jovens conseguiram transformar um terreno baldio utilizado como lixão clandestino em um centro cultural, com três salas para oficinas e um teatro para 250 pessoas, com espaço esportivo com campo de medidas oficiais e um centro de apoio legal comunitário.

Os promotores do futebol de rua entendem o esporte como um processo educativo. “Queremos formar atores sociais, que sejam bons no esporte, mas que, sobretudo, queiram influir na sociedade. O que dizemos é: tudo bem competir, mas do ponto de vista de um intercâmbio com outro. Não jogamos contra outro, mas com o outro. É ir quebrando modelos e criando uma nova cultura”, acrescentou Leguiza. O futebol de rua tem múltiplas aplicações. Enquanto na América Latina são trabalhados temas como pobreza e exclusão, na Europa a metodologia se aplica para promover, por exemplo, a inserção dos imigrantes.

Na Alemanha, o projeto Kickfair, iniciado em 2001, busca através do futebol a integração das comunidades de imigrantes à sociedade. “Se busca através do jogo que os participantes trabalhem em equipe, com espírito fraterno, desenvolvendo suas capacidades individuais e tendo em conta, acima de tudo, valores como respeito, amizade e cooperação”, disse à IPS Steffi Biester, coordenadora do projeto. A seleção alemã está composta por apenas três jogadores, mas sua sorte já está lançada, porque apenas o fato de participar já é uma vitória. (IPS/Envolverde)

David Vargas

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