Lisboa, 15/11/2007 – Cada dia que passa o intercâmbio entre Brasil e Angola aumenta num ritmo rápido. Separados pelo oceano Atlântico, mas unidos por um idioma e uma história de séculos de colonialismo português, os dois países decidiram tomar o caminho da cooperação econômica. O Brasil, com 188 milhões de habitantes e 8,5 milhões de quilômetros quadrados de superfície por si só representa pouco mais da metade da América do Sul, parece decidido a ocupar o lugar do pequeno Portugal no grupo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) no tocante a investimentos.
Em pouco menos de cinco anos de governo, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou sete vezes à África, superando de longe seus antecessores democráticos, José Sarney (1985-1990), Fernando Collor de Mello (1990-1992), Itamar Franco (1992-1995) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). África do Sul e Nigéria são parte das metas do Brasil na África, mas os Palop, grupo formado por Angola, Cabo Verde, Guiné-bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, se apresenta como uma das grandes prioridades da diplomacia política e econômica brasileira.
Angola, com 1,25 milhão de quilômetros quadrados e mais de 13 milhões de habitantes é o segundo produtor de petróleo da África, depois da Nigéria. A destruição de quase todos os centros urbanos na luta para ficar independente de Portugal (196101974) e na posterior guerra civil (1975-2002), converte esse país em um vasto campo de oportunidades de negócios. O incremento das relações desse país da África ocidental com o Brasil já começaram a registrar um volumoso crescimento em 2000, durante o governo do FHC, mas foi a partir de 1º de janeiro de 2003, quando o Presidente Lula assumiu o poder, que os investimentos dispararam como uma flecha.
A Associação Brasileira de Empresários e Executivos em Angola (Aebran) indica que as relações comerciais entre os dois países cresceram seis vezes desde 2002, em uma dinâmica que não pára de crescer. Atualmente, de acordo com informação da Aebran corroborada pelo Banco do Brasil, Angola é o país que recebe o maior financiamento de exportação por parte do Brasil. Em um seminário realizado em setembro, por ocasião das celebrações em Luanda dos 185 anos de independência brasileira de Portugal, o ministro angolano das Finanças, José Pedro de Morais, informou que o volume de financiamento do Brasil para Angola em 2005 foi de US$ 475 milhões e que no ano seguinte aumentou para US$ 750 milhões.
Em declarações ao semanário luso-africano África 21, o jornalista brasileiro Raimundo Lima, porta-voz da Aebran, disse que “Angola é quem mais recebe financiamento do Brasil, já que mais da metade dos recursos do Programa de Financiamento às Exportações (Proex), administrado pelo BB, foi destinado no ano passado à economia angolana”. De fato, as exportações brasileiras para Angola passaram de US$ 520 milhões em 2005 para US$ 836 milhões no ano passado, enquanto nos nove primeiros meses desta ano apresentaram crescimento de 14%. Angola é o quarto mercado do Brasil na África, segundo dados da chancelaria, atrás de África do Sul, Nigéria e Egito.
O Brasil exporta para Angola principalmente maquinas, eletrodomésticos, autopeças, tratores, aparelhos de telecomunicações, elementos destinados à indústria do petróleo e até gasolina refinada, devido à falta destas produtoras de combustível. Por sua vez Angola vendeu ao Brasil no ano passado um total de US$ 460 milhões, em sua quase totalidade correspondentes ao pagamento da fatura por petróleo bruto. A presença empresarial brasileira no país também registrou um crescimento porcentual semelhante ao do incremento no comércio entre os dois países, o que, segundo a Aebran, vaticina um futuro promissor.
Nos últimos cinco anos, o estabelecimento de empresas brasileiras em Angola cresceu 70%, na maior parte dedicadas às obras públicas, venda de materiais de construção, desenhos, projetos, imobilizarias e alimentos. Os brasileiros começaram a aparecer com força em um país, que, apesar de todos os laços históricos e lingüísticos, lhes era praticamente desconhecido até há pouco mais de uma década. Os cinco mil brasileiros registrados em Angola trabalham em várias atividades, especialmente em empresas de construção, mineração e indústrias agropecuárias, não apenas na capital Luanda, mas nas províncias de Cabinda, Lunda do Norte e Malanje.
Após anos de uma presença muito limitada de técnicos e profissionais brasileiros nos países Palop, campo ocupado majoritariamente por portugueses, os brasileiros não chegam a substituir os ex-colonizadores, mas os reforça, “uma atitude muito bem vista” por Lisboa, segundo o vice-chanceler português, João Gomes Cravinho. “Portugal vê com enorme satisfação o entusiasmo do Brasil pela África, demonstrado várias vezes por Lula, que há algumas semanas fez sua sétima visita como chefe de Estado a esse continente”, disse à IPS Cravinho, que na condição de número dois da diplomacia de Portugal ocupa o cargo de secretário de Estado para a Cooperação.
Esta atitude do presidente brasileiro “é extraordinária, se considerar-se que assumiu há apenas cinco anos”, acrescentou. Para Portugal, esta escola de pensamento impulsionada pelo Presidente Lula em relação à África, um continente freqüentemente ignorado e deixado de lado pela comunidade internacional, “é motivo de satisfação, porque vemos o Brasil, que nos é especialmente próximo e querido, aproximar-se de um continente que está no centro de nossas preocupações em matéria de política externa”.
Outro fato destacado por Cravinho na conversa com a IPS é “o grande entusiasmo da política externa brasileira a respeito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa”. A CPLP, uma iniciativa do ex-ministro da Cultura do Brasil José Aparecido de Oliveira, é formada por Brasil, os Falop e Timor Leste, e tem como observadores as ex-colônias portuguesas de Guiné Equatorial, depois administrada pela Espanha, e Maurício (1505-1638), posteriormente de respectivo domínio holandês, francês e inglês.
A IPS perguntou a Cravinho se Portugal não sente que seus interesses e sua influência na África estão sendo ameaçados pelo Brasil. “Não há nenhuma sensação de competição com o Brasil, muito pelo contrário, o que vemos é precisamente o oposto: oportunidades que estão surgindo nos países de língua portuguesa e em particular acreditamos que é necessário explorar essas oportunidades através da CPLP”, concluiu o vice-chanceler. (IPS/Envolverde)

