Washington, 12/11/2007 – O governo dos Estados Unidos considera que o pior já passou no Iraque, a principal frente de sua “guerra contra o terrorismo”, mas agora procura desesperadamente conter novas crises na “periferia”: Paquistão, Turquia e Chifre da África. O autogolpe de Estado do presidente paquistanês, Pervez Musharraf, combinado com a ameaça da Turquia de invadir o norte do Iraque e a possibilidade de uma guerra entre Etiópia e Eritréia, alimentam a impressão de que Washington se tornou refém de forças e personalidades que vão além de seu controle.
Um fato ressalta a aparente impotência da única superpotência mundial: a secretária de Estado, Condoleezza Rice, viu-se limitada a dar telefonemas de último momento aos chefes de Estado do Paquistão para que não declarasse o estado de emergência e da Turquia para que não invadisse o Curdistoa iraquiano. Se estas crises se agravarem podem representar um duro golpe nas esperanças de Washington em fortalecer “moderados” que façam frente aos seus inimigos declarados, os insurgentes do Islã sunita e o suposto “eixo” do Islã xiita liderado pelo Irã, que inclui a Síria, a milícia libanesa Hezbolá e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas).
Isto ocorre em um contexto da ausência de avanços no processo de paz entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina, o ponto morto na situação política do Líbano e as crescentes tensões entre Washington e Teerã. Alguns veteranos observadores sugerem que esta situação recorda as crises do final dos anos 70 e início da década seguinte. Então aconteceram a execução do ex-primeiro-ministro e ex-presidente paquistanês Zulfikar Ali Bhutto pelas mãos da ditadura militar desse país; a Revolução islâmica no Irã; a invasão da União Soviética no Afeganistão, e a sangrenta guerra (alimentada pelas superpotências) entre Etiópia e Somália.
Esse “arco de crise” levou o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981) a incrementar fortemente a presença militar de Washington desde o mar Vermelho até o golfo Pérsico. Mas o panorama atual é “muito mais complicado”, disse à IPS um ex-alto funcionário do Departamento de Estado norte-americano. “Nessa época não tínhamos 200 mil soldados lutando no Afeganistão e Iraque, nem existia o antiamericanismo que agora é dominante nessa região. E, falando com franqueza, não temos funcionários com um conhecimento da região comparável aos que tínhamos em 1979”, acrescentou.
Das três novas crises, a que se desenvolve ao longo da fronteira entre Turquia e o Curdistão iraquiano ameaça diretamente as tentativas do presidente George W. Bush para estabilizar o Iraque. Altos funcionários norte-americanos têm a esperanaç de que a visita a Washington, no último dia 5, do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, lhe tenha dado suficiente capital político para neutralizar a oposição e os chefes militares de linha dura que o pressionam para invadir o norte do Iraque a fim de sufocar as guerrilhas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
Bush comprometeu-se a entregar informação de inteligência à Turquia que lhe permita combater os insurgentes com maior êxito e sem enviar o exército em uma incursão dentro do território iraquiano. É muito o que está em jogo. A maioria dos analistas acredita que uma invasão provocará um enfrentamento entre as tropas turcas e as milícias curdas iraquianas (PEshmerga) das quais Washington depende para manter estabilizado o norte do Iraque e, ao mesmo tempo, fornecem os recrutas mais confiáveis ao novo exército desse país.
Ao mesmo tempo, a Turquia é uma nação predominantemente muçulmana mas “moderada’. Sobretudo, é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), contribui com tropas para operações de paz no Afeganistão e permite aos Estados Unidos acesso à base aérea de Incirlik, vital para o apoio logístico às forças que lutam no Iraque. Em suma, Washington não está em condições de fazer frente a um conflito entre Turquia e curdos, pelo risco de perder um aliado considerado indispensável para a estabilização do Iraque. Erdogan e os funcionários turcos que o acompanharam ficaram satisfeitos com as promessas de Bush. Um novo ataque do Protocolo de Kyoto, com o que custou a vida de 20 soldados turcos no mês passado, poderia forçar a invasão.
Embora esta crise seja grave, os especialistas consideram que a aposta maior é o Paquistão, depois do autogolpe de Musharraf. Esse país do sudeste da Ásia é considerado “a frente principal da guerra contra o terrorismo” de Bush desde que os membros da Al Qaeda e do Talibã foram expulsos do Afeganistão e buscaram abrigo nas áreas tribais da fronteira entre as duas nações. Os Estados Unidos destinaram ao Paquistão US$ 15 bilhões em ajuda oficial ou encoberta nos últimos seis anos, para incentivar sua cooperação no Afeganistão e na “guerra contra o terrorismo”.
Mas o governo Bush se desiludiu com os resultados do último ano. Musharraf resistiu aos pedidos de Washington para que compartilhasse o poder com seus opositores civis moderados, principalmente a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto. Este processo, no melhor dos casos, foi adiado pela declaração do estado de emergência. Além disso, o presidente e os altos chefes militares permitiram – e, talvez, incentivaram – maior controle por parte dos grupos islâmicos radicais das zonas fronteiriças com o Afeganistão. Ali, segundo a inteligência dos Estados Unidos, os máximos líderes da Al Qaeda reconstituíram seu comando central e as milícias do movimento islâmico Talibã controlam não só “um paraíso seguro”, mas uma fonte inesgotável de novos recrutas. “Agora estamos no pior dos mundos possíveis”, disse na quarta-feira o representante Gary Ackerman, presidente da comissão de Relações Exteriores do Congresso norte-americano.
Sobre Musharraf, disse: “Nosso aliado é um líder isolado e ressentido, menos popular com seu povo do que Osama bin Laden. Em lugar de prender os terroristas que se considera uma ameaça existencial para seu regime, e provavelmente para o país, está enviando à prisão as pessoas com as quais teria de trabalhar para gerar o apoio político necessário com o objetivo de acabar com o extremismo”. O governo Bush, incapaz de evitar esse autogolpe, agora pressiona Musharraf para que cumpra sua promessa de renunciar ao cargo de chefe das forças armadas e permita a realização de eleições livres, nas quais se supõe que Buttho seria eleita novamente primeira-ministra.
Mas, mesmo se o fizer – tal como prometeu na terça-feira – não fica claro se o dano já causado pode ser reparado. A relativa confiança que o presidente gozava em Washington evaporou. Fala-se, inclusive, que há discretos contatos com outros generais para explorar a possibilidade de derrubá-lo. Isto poderia gerar maior instabilidade e permitir o avanço de islâmicos radicais no único país muçulmano que possui armas nucleares.
Frente às ameaças existentes o Curdistão e Paquistão, a situação no chifre da África parece remota. Mas, a organização de estudos independentes Grupo Internacional de Crise (ICG) alertou na semana passada que essa frente da “guerra contra o terrorismo” – onde Etiópia é o aliado dos Estados Unidos – se encontra em um perigoso processo de desestabilização. Etiópia e Eritreia, a quem Washington ameaçou declarar patrocinadora do terrorismo internacional, embarcaram em uma corrida armamentista de “proporções alarmantes”, segundo o ICG, ao longo da mesma fronteira onde lutaram a sangrenta guerra que durou de 1998 até 2000. O governo Bush e a Etiópia acusam a Eritreia de terem apoiado a União de Cortes Islâmicas da Somália, retirada no ano passado do poder em Mogadíscio e outras partes desse país por uma invasão do exército etíope com apoio de Washington. As tropas ocupantes estão em uma situação que alguns analistas equiparam com a das forças dos Estados Unidos no Iraque.
Segundo o presidente do ICG, Gareth Evans, uma guerra pode eclodir “em semanas” entre Eritreia e Etiópia se a comunidade internacional não agir rápido, especialmente os Estados Unidos. “Não há uma solução militar fácil para o que está ocorrendo. Enfrentamos um prolongado conflito na Eritreia, a desestabilização na Etiópia e uma nova, horrível, crise humanitária”, alertou Evans. (IPS/Envolverde)

