Iraque: Os senhores da guerra esperam sua vez

Washington, 22/11/2007 – A violência sectária no Iraque diminuiu consideravelmente desde que os Estados Unidos aumentaram sua presença militar no país em fevereiro, segundo a maioria dos analistas. Mas ninguém pode garantir se a reconciliação nacional está mais próxima ou mais longe do que nunca. Os defensores desse envio de 30 mil soldados adicionais, com a intenção de ajudar a pacificar Bagdá e a província de Al-Anbar, afirmam que a estratégia contra a insurgência supervisionada pelo general David Petraeus superou as expectativas mais otimistas.

Os céticos, porém, acreditam que a tática de “comprar” os rebeldes e grupos tribais com dinheiro e outros tipos de apoio podem ter criado as condições para uma guerra civil ainda mais violenta, particularmente quando as tropas dos Estados Unidos começarem sua retirada em dezembro. Hoje estão no Iraque cerca de 175 mil soldados norte-americanos. Marc Lynch, analista da Universidade George Washington, acredita que a estratégia de Petraeus de reduzir a violência por meio de acordos com os poderes locais dominantes leva à criação de um Estado de “senhores da guerra’ no qual o controle estará nas mãos de “milícias, grupos e tribos’, com um governo central meramente nominal.

Inclusive os partidários da “escalada” (“surge”, como o governo de George W. Bush denomina sua estratégia de aumento de tropas) admitem que o final está pouco claro. Michael O’Hanlon, do Instituto Brookings e ex-funcionário da presidência de Bill Clinton (1993-2001), irritou muitos de seus ex-colegas quando apoiou essa medida e aplaudiu seus resultados em um debate realizado no congresso em setembro. Porém, ele mesmo mantém algumas reservas.

Nesta semana, O’Hablon disse ao jornal The New York Times que “em termos militares” os avanços na redução da violência “são impressionantes”. Mas, admitiu que “ninguém sabe se esta tendência se manterá na ausência de reconciliação nacional” e diante “das reduções de tropas norte-americanas em 2008”. O presidente Bush disse que espera reduzir o número de soldados ao nível anterior à “escalada” (130 mil) até julho próximo, enquanto o secretário de Defesa, Robert Gates, indicou que preferiria chegar a cem mil no final de 2008. A acentuada redução da violência já não constitui motivo de grandes debates.

Segundo informação divulgada no domingo pelo comando militar em Bagdá, a quantidade de ataques com carros-bomba, minas, fogo de morteiro, foguetes e disparos de armas pequenas contra forças norte-americanas e iraquianas e contra civis caiu para menos de 600 por semana durante o último mês, menos da metade dos registrados em junho e o nível mais baixo em quase dois anos. Além de reduzir a violência, as forças de Petraeus conseguiram importantes êxitos contra a Al Qaeda no Iraque, particularmente em Al-Anbar e Bagdá.

Porém, muitos analistas acreditam que isto se deve ao fato de grupos rebeldes sunitas terem rompido com a Al Qaeda vários meses antes da “escalada” e, em conseqüência, alinharam-se com os Estados Unidos para derrotar seu inimigo comum. Mas esta aliança não se traduziu em uma nova relação com o governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, dominado pelos xiitas, que, além do mais, está inquieto pelo cortejo de Petraeus aos insurgentes sunitas e às milícias tribais.

“O governo de Maliki vê as milícias como uma ameaça potencial”, disse Stephen Bidele, especialista em defesa do Conselho de Relações Exteriores em Nova Yorque, que acaba de voltar de sua segunda viagem ao Iraque este ano, onde se reuniu com os chefes militares norte-americanos. “Assim, não há nenhuma pressa” para incorporar às forças de segurança os 72 mil integrantes das milícias que recebem US$ 300 mensais do exército dos Estados Unidos, nem para aprovar no parlamento leis que, segundo Washington, aumentariam as possibilidades de uma reconciliação nacional, fundamentalmente entre sunitas e xiitas.

A reticência do governo para aprovar essa legislação, que contempla entre outras questões uma divisão eqüitativa da renda com petróleo e a convocação de eleições regionais, gerou uma crescente frustração nos funcionários norte-americanos, em Washington e Bagdá. O segundo de Petraeus, general Raymond Odierno, declarou na semana passada ao jornal The Washington Post que a redução da violência dá ao governo uma “janela de oportunidade” para aproximar-se dos sunitas, mas, acrescentou que fica pouco claro quanto tempo permanecerá aberta.

Odierno, que reclamou do governo de Maliki fornecimento de serviços essenciais às comunidades sunitas para ganhar sua confiança, acrescentou que se não se avançar nessa direção “teremos de revisar nossa estratégia” quando diminuir o número de tropas ao nível existente antes da “escalada”. Esta também é a opinião do coronel da reserva Pat Lang, que foi o máximo analista em matéria de Oriente Médio na Agência Central de Inteligência. Embora tenha aplaudido a tática de Petraeus, mostra-se céptico quanto ao seu final.

“Existe agora uma possibilidade de restaurar a unidade nacional, com base em negociações e um poder compartilhado acima das divisões religiosas e regionais”, escreveu Lang em seu blog. “Se Bagdá aproveitar esta oportunidade pode nascer um novo Iraque. Se não o fizer, estão dadas as condições para um longo conflito interno e externo”, acrescentou. Lynch acredita que a “escalada” estava condenada ao fracasso desde o começo e que, inclusive, pode ter piorado as coisas no longo prazo. “A estratégia militar teve sucesso, mas seu defeito fatal é que não esteve vinculada a uma política de reconciliação nacional”, afirmou. “Não há evidência alguma de uma reconciliação entre xiitas e sunitas”, disse Lynch, que também mencionou declarações de líderes de milícias sunitas que anunciaram uma luta contra o governo quando a Al Qaeda for derrotada e as tropas dos Estados Unidos partirem. Igualmente ameaçadora, em sua opinião, é a possibilidade de os chefes das milícias, descritos por Biddle como “brutais e cruéis”, começarem a se manter entre si. Lynch mencionou recentes assassinatos como sintoma de crescentes rivalidades pelo controle do território e dos recursos. A cidade de Basra, predominantemente xiita e rica em petróleo, se converteu em campo de batalha para diversas facções do tipo mafioso. “Vejo mais fragmentação do que consolidação”, acrescentou. Portanto, lhe preocupa a possível constituição de um Estado de “senhores da guerra”.

Bidele é mais otimista, embora admita que os avanços podem vira fumaça facilmente, particularmente se a retirada de tropas for muito rápida ou de grande magnitude. Se não houver no Iraque alguém que faça respeitar os acordos locais – alertou – existirá um alto risco de que a violência derrube tudo. No momento, as forças dos Estados Unidos deveriam se dedicar a conseguir um “cessar-fogo em nível nacional”, segundo Biddle, o que transformaria seu papel, passando do combate ao de uma missão de manutenção da paz. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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