Genebra, 22/11/2007 – Os cálculos de quantidade de pessoas que vivem com o vírus da deficiência imunológica humana (HIV) experimentou uma significativa queda devido ao maior emprego de métodos avançados de estimativa por parte das agências especializadas da Organização das Nações Unidas. O anúncio da redução foi interpretado por um especialista como sinal de que três grandes males – Aaids, tuberculose e malária – podem ser controlados e, dessa forma, se alcançar um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio fixados pela ONU.
De fato, a atualização sobre a epidemia de Aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida, causada pelo HIV) mostra que em 2007 há 33,2 milhões de pessoas contagiadas. Os dados presentes na versão anterior de 2006 desta atualização mostravam 39,5 milhões de infectados, o que significa redução de 6,3 milhões. Os responsáveis do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida) e da Organização Mundial da Saúde reagiram com cautela, pois estes dados apenas alteram a gravidade e as conseqüências da pandemia, afirmaram.
As razões para as estimativas divulgadas na terça-feira serem muito menores do que as do ano passado se depreendem da revisão metodológica feita pelas duas agências, explicou à IPS Paul Delay, um dos diretores da Onusida. A maioria das diferenças (70%) registradas entre as cifras de 2006-2997 provem das mudanças nas estimativas feitas especialmente na Índia, mas também em Angola, Quênia, Moçambique, Nigéria e Zimbábue, afirmou Delay.
As conclusões deduzidas pela Onusida e a OMS destacam que as diferenças entre os dois informes têm origem, em grande parte, mais nos ajustes das metodologias de medição do que nas tendências da própria epidemia. Porém, o diretor-executivo do Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, Michel Kazatchkine, disse à IPS que o informe divulgado pelas duas agências da ONU mostra reduções nas novas infecções entre os jovens. O estudo também evidencia que a queda nas mortes por Aids no mundo pode ser atribuída em grande parte aos crescentes esforços de prevenção e fornecimento de tratamento, disse Kazatchikine.
Desde que o mundo proporcionou um incremento de recursos para combater a Aids, a tuberculose e a malária “percebemos indícios de que estas três enfermidades podem ser controladas”, disse o diretor do Fundo. Se continuarmos investindo quantias substanciais poderemos ser capazes de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e temos grandes chances de oferecermos aos nossos filhos um mundo onde essas doenças já não constituam uma emergência sanitária, afirmou entusiasmado. Uma dessas oito metas, estabelecidas em 2000 por uma cúpula mundial convocada pela ONU, propor deter, até 2015, a propagação do HIV/Aids bem como a incidência da malária e de outras doenças graves, entre elas a tuberculose.
O Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, com sede nesta cidade suíça, é uma associação de governos, sociedade civil, setor privado e comunidades afetadas, dedicadas a coletar e distribuir recursos destinados a prevenir e tratar essas três doenças. As cifras da pandemia de Aids obtidas na atualização de 2007 não tem conseqüências para as políticas que são aplicadas nessa área, disse Delay. Por outro lado, “esse documento aponta para a necessidade de nos concentrarmos nas epidemias locais, porque a doença não é igual em todas as partes”, disse o especialista.
Por exemplo, oito países da África subsaariana atravessam situações muito graves que afetam a totalidade da população, um em cada três adultos, disse Delay. Esse quadro é muito diferente do registrado em um país onde o HIV se restringe praticamente apenas às pessoas que usam drogas injetáveis, acrescentou. É preciso conhecer a epidemiologia local e apontar para a prevenção e os tratamentos adequados a essas características, antes de pensar que a Aids é a mesma em todo o mundo, ressaltou.
O informe de atualização comprova que a cada dia se contagiam com HIV no mundo mais de 6.800 pessoas, e mais de 5.700 morrem no mesmo período vítimas da Aids, na maioria dos casos devido a acesso inadequado a serviços de prevenção e tratamento com anti-retrovirais, que reduzem a mortalidade. Com esse dado de base, o documento conclui que a epidemia se mantém como o desafio mais grave para a saúde pública entre todas as enfermidades infecciosas.
Entretanto, a Onusida e a OMS encontram na pesquisa alguns elementos alentadores, como o fato de a prevalência de HIV, ou seja, a freqüência de novos casos, se manter no mesmo nível apesar de o número de pessoas com o vírus aumentar devido ao acúmulo de contágios e de maiores períodos de sobrevivência em populações de crescimento contínuo. Em determinados países há reduções localizadas da prevalência, que se obtém dividindo o número de casos pelo número da população em um dado momento. E no mundo, também se vê reduções na quantidade anual de novas infecções de HIV.
O exame das tendências mundiais e regionais permitiu aos pesquisadores da Onusida e OMS descrever os padrões surgidos da epidemia. Um dos modelos identifica as epidemias generalizadas expandidas, em geral, em muitos dos países da África subsaariana, especialmente no extremo sul do continente. A segunda visão se refere às epidemias no resto do mundo, concentradas basicamente entre populações de risco, como os homens que praticam sexo com outros homens, os consumidores de drogas injetáveis e trabalhadores e trabalhadoras sexuais e as pessoas com as quais se relacionam.
Mais de dois terços (68%) das pessoas com HIV vivem na África subsaariana, a região onde são registrados mais de três quartos (75%) das mortes por Aids. No total, 1,7 milhão de pessoas serão contagiadas nessa região até o fim do ano, elevando a quantidade total de contagiados a 22,5 milhões. Na Ásia, a epidemia diminuiu no Camboja, na Birmânia e Tailândia, e aumenta na Indonésia, especialmente na província oriental de Papua, e no Vietnã. No total, há na Ásia 4,9 milhões de pessoas contagiados. Na Europa oriental e Ásia central foram registrados 150 mil novos casos de HIV, aumentando o número de infectados para 1,6 milhão. A maioria desses contágios foi verificada na Rússia (66%) e na Ucrânia (21%).
A epidemia se mantém estável na América Latina onde a transmissão do HIV continua entre populações de alto risco. Estima-se que os contágios chegarão este ano a cem mil, num total de 1,6 milhão de infectados. Na América do Norte e Europa ocidental e central são registrados 2,1 milhões de casos, dos quais 78 mil novos. Esta região se caracteriza pelo amplo acesso dos pacientes aos tratamentos com anti-retrovirais. (IPS/Envolverde)

