Mudança Climática: Acordos globais e diferenças parciais

Madri, 16/11/2007 – O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) obteve consensos gerais a respeito do informe apresentado na reunião plenária que acontece na Espanha, mas ainda deve resolver discrepâncias com relação a alguns países. Esses acordos globais levaram o secretário-executivo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, Yvo de Boer, a afirmar que “já não há lugar para o ceticismo. As dúvidas foram desfeitas. O aquecimento do planeta é um fato, e causado pelos seres humanos. Agora, cabe agir para impedir ou amenizar seus efeitos”.

Diante do que se demonstra no informe, se os governos de todo o mundo e em especial os do Norte industrial não tomarem medidas e as cumprirem, acrescentou, se estará diante de “um ato de irresponsabilidade criminosa que ameaça a vida de milhares de pessoas e seria um ataque direto aos mais pobres”. A responsabilidade das ações humanas no aumento da temperatura do planeta, a mudança climática, registrada nos últimos 50 anos, é o consenso mais transcendente alcançado nesta reunião de aproximadamente 500 especialistas de 130 países que terminará amanha na cidade espanhola de Valencia, no Mediterrâneo.

A este respeito é que surge a maior divergência, pois a China propôs que se diga que se deve as ações no último século, pois dessa forma fica claro que a maior responsabilidade cabe aos países industrializados. Segundo o Informe que está em análise, as concentrações globais de dióxido de carbono, metano e oxido nitroso na atmosfera “aumentaram consideravelmente devido às atividades humanas desde 1750 e excedem em muito os valores pré-industriais determinados por testemunhos de gelo que incluem vários milhares de anos”.

A principal causa do aquecimento global é o aumento das concentrações de dióxido de carbono e isso se deve – diz o informe – “ao uso de combustíveis fósseis e à mudança de uso do solo” algo indubitavelmente produzido pelo processo de industrialização dos países do Norte, iniciado na segunda metade do século XVIII na Inglaterra. Os representantes dos Estados Unidos, ao contrário dos chineses, querem que se mantenha que o aquecimento se deu nos últimos 50 anos, que ocorre pelo aumento do uso do carvão nos países em desenvolvimento e propõem que para evitá-lo seja utilização a reação atômica como fonte de energia.

Entretanto, o informe não esclarece que a energia nuclear não terá um grande peso na redução de emissões no mundo e que, além disso, apresenta riscos que devem limitar seu uso. Por isso o texto aconselha que, ao mesmo tempo em que se faz mais limpa a produção de eletricidade os governos atuem para também melhorar os processos para a construção e a eficiência dos veículos, reduzam o desmatamento e, em resumo, promovam mudanças nos hábitos de vida que levem à economia de energia.

Os especialistas que redigiram e os que estão discutindo o informe do IPCC não dão opiniões terminantes, utilizando termos como “provavelmente”, “muito provavelmente” ou “nível de alta probabilidade”. Assim, afirmam que “é muito provável” que o aquecimento registrado desde 1750 tenha sido o maior desde 10 mil anos antes e que o aumento do dióxido de carbono entre 1995 e 2005 foi maior do que pelo menos nos dois últimos séculos.

No texto sujeito à discussão e até agora apoiado pela maioria se diz que o aquecimento da Terra e o aumento do nível mar produzido pela atividade humana continuarão por séculos, devido ao ocorrido até agora, “inclusive se as concentrações de gases causadores do efeito estufa se estabilizarem”. Porém, as discussões baixam de nível a ponto de discutir palavras que dizem, mais ou menos, a mesma coisa. Por isso, na terça-feira se gastou mais de uma hora debatendo sobre a proposta de substituir no texto a expressão “mudanças no gelo e na chuva” por “reduções no gelo e na chuva”. Por fim, decidiu-se manter a palavra “mudanças”.

Isto dá uma idéia de que o informe está aprovado e que a maioria das modificações que ocorrerem irão se referir mais a questões de redação do que de conteúdo profundo. O documento destaca que entre 1995 e 2006 foram os anos mais quentes nas estatísticas de temperatura desde 1850 e que no último século a temperatura aumentou 0,74 graus, em média, em todo o planeta. Além disso, afirma que “a maior parte do aumento de temperatura observada mundialmente desde meados do século XX é, muito provavelmente, devido ao incremento registrado da concentração de gases causadores do efeito estufa antropogênico”.

A delegação espanhola está sugerindo que se deve deixar claro no Informe que a alta do nível do mar e as atividades humanas contribuem para a perda de terras úmidas costeiras e mangues, e que aumentam os danos por inundações nas costas em muitos lugares do mundo. Esta iniciativa, em princípio, é aceita pelos demais participantes. Essa é uma das 40 observações feitas pela Espanha, entre as quais também se destaca sua proposta de deixar explícito que o sul da Europa e o norte da África correm grandes riscos devido à mudança climática, especialmente pelo aumento das secas e pelo perigo de incêndios descontrolados. As delegações de Índia e Grã-Bretanha sugeriram que não se enfraqueça o conteúdo do Informe e que sejam considerados os resultados das últimas pesquisas científicas que demonstram de maneira contundente – afirmam – que diminuiu a capacidade do planeta para absorver maiores emissões de dióxido de carbono.

O documento, que será aprovado amanha, será a base da reunião que realizarão os ministros de Meio Ambiente dos países membros da Organização das Nações Unidas em dezembro, em Bali, para estabelecer um programa de ação contra o aquecimento global, em continuação ao Protocolo de Kyoto. Nessa reunião se deverá avançar concretamente, já que “a mudança climática também tem implicações na paz mundial, porque aumenta o risco de fome e secas que obrigarão milhares de pessoas a se deslocarem”.

Os riscos ambientais, naturalmente, se estendem aos humanos e a responsabilidade de acontecerem ou não corresponde, essencialmente, aos políticos, afirmaram vários especialistas em Valencia. Nessa linha, o representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Janos Pazstor, além de anunciar que este organismo impulsionará trabalhos pedagógicos a respeito em todo o mundo, reclamou na reunião que os governos dediquem desde já 1% do produto interno bruto de seus países para a preservação do meio ambiente. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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