Baquba, Iraque, 05/11/2007 – O tão anunciado “aumento” de efetivos norte-americanos nesta cidade iraquiana causou mais problemas do que solucionou os existentes, segundo moradores locais. Baquba, capital da central província de Diyala, 65 quilômetros a nordeste de Bagdá, é há muito tempo uma cidade instável, muito violenta e onde domina o caos administrativo. Em janeiro deste ano, o governo do presidente George W. Bush anunciou o envio de 20 mil soldados adicionais para Bagdá e as províncias de Diyala e al Anbar (oeste da capital) para melhorar a segurança.
Os Estados Unidos agora têm no Iraque 169 mil soldados, o maior número desde a invasão e ocupação deste país no Oriente Médio em março de 2003. há, além disso, cerca de 180 mercenários contratados por Washington e entre 50 mil e 70 mil soldados de países aliados dos Estados Unidos. Mas, apesar da dimensão desse contingentes, Diyala está sob controle de quadrilhas, combatentes da resistência, outros insurgentes e simpatizantes da organização terrorista Al Qaeda, e, somente às vezes, com agora, por forças norte-americanas. Com todos esses grupos armados em atividade resulta impossível levar uma vida normal.
Em um ambiente de medo e violência, as ruas estão vazias, inclusive sem efetivos da polícia e do exército. “No começo, todos meus vizinhos aplaudiram o aumento do número de soldados norte-americanos na cidade”, disse à IPS Jabbar Kadhim, um comerciante local. “Não temos nenhuma esperança no governo iraquiano. Os soldados se apropriaram de toda a cidade e bloquearam as estradas”. Devido à grande presença militar norte-americana, a segurança, no momento, parece ter melhorado. Mas, pelas restrições de movimento e o alto desemprego, os moradores temem que volte a violência indiscriminada quando os soldados se retirarem.
“Nos sentimos mais seguros ao ver o exército dos Estados Unidos, mas sabemos, e os norte-americanos também, que os rebeldes voltarão à cidade quando eles partirem”, disse um morador que não quis se identificar. Outros disseram que o aumento de efetivos trouxe seus próprios problemas. Têm motivos para pensarem assim. A população local desconfia de todos os movimentos. “Para ter um motivo para ficar no Iraque, as forças da coalizão criam um inimigo e o combatem”, afirmou Mudhafer Razq, um comerciante que perdeu seu negócio. “Empurram os insurgentes para destruirem a cidade e depois vêem combatê-los. Desta forma, a população recorre às forças da coalizão em busca de ajuda”, explicou. Esse tipo de desconfiança é recorrente.
Outra pessoa contou que viu um grupo de insurgentes matar um taxista em um falso posto de controle que armaram, “enquanto um helicóptero dos Estados Unidos sobrevoava sobre eles”. O caminhoneiro Mohammed Jabur contou uma história semelhante. “Passei por um falso posto de controle armado por um grupo de rebeldes. Todos tinham o rosto coberto e portavam armas. Vi um helicóptero sobrevoando o local. É difícil o piloto vê-los? Todos sabem que os insurgentes têm algum tipo de apoio das forças da coalizão”, acrescentou. nem mesmo a relativa melhora da segurança é tranqüilizadora.
“Primeiro, as pessoas continuam preocupadas com a volta dos grupos rebeldes. Em segundo lugar, com o aumento de soldados norte-americanos a vida diária fica distorcida”, disse Bashir Mutasher, analista residente em Baquba. “Os moradores podem se deslocar apenas pela rua principal da cidade, cheia de postos de controle. Todos os outros caminhos estão fechados”, disse. “Todos os automóveis são revistados em todos os postos de controle. Não é prático revistar milhares de veículos por dia. Por isso, as pessoas são obrigadas a ir a pé para o trabalho ou para casa”, acrescentou.
“Não podemos nos mover nem ir para nosso trabalho”, disse à IPS o eletricista Tariq Bidaa. “Tivemos de ficar um mês em nossas casas. Minha família precisava de tantas coisas, mas não havia dinheiro”. Por outro lado, há mais dificuldades ainda. “Em Baquba há três pequenas pontes que ligam os dois lados da cidade. Duas delas são usadas apenas pelo exército norte-americano, por isso toda a população local deve utilizar o terceiro. Pode-se chegar a esperar durante uma hora para cruzar a ponte”, disse à IPS Sadeq Hazber, professor de 44 anos. Como se não bastasse, “tem uma grande quantidade de postos de controle. Um a cada 500 metros, ou menos”, acrescentou. A situação já é ruim, mas pode piorar se os insurgentes regressarem. (IPS/Envolverde)

