Miami, 18/12/2007 – A detenção nos Estados Unidos de três venezuelanos e um uruguaio acusados de espionagem se integra, segundo a promotoria, na pesquisa de um suposto plano tramado no Estado da Flórida pela Venezuela para financiar ilegalmente a campanha que levou à presidência da Argentina Cristina Fernández Kirchner. O caso de suposta espionagem está relacionado com o escândalo que eclodiu na Argentina em agosto, quando foi apreendida uma pasta com US$ 800 mil em notas sem ter sido declarada por seu portador, Guido Antonini, de nacionalidade venezuelano-norte-americana e com residência em Miami.
A ação da polícia aduaneira aconteceu no aeroporto internacional de Buenos Aires, quando se controlava a entrada no país dos passageiros de um vôo privado contratado pela Enarsa, companhia energética pública da Argentina, procedentes de Caracas e no qual viajavam funcionários dessa companhia e da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). Diante da partida de Antonini três dias depois da Argentina sem reclamar o dinheiro, que até então era apenas passível de uma elevada multa, houve intervenção da justiça desse país, que abriu um processo por contrabando e dias depois pediu a extradição do condenado aos Estados Unidos.
Por isso chamou a atenção o fato de a justiça deste país ainda não ter respondido favoravelmente o pedido e, em troca, coordenasse com Antonini para investigar os agora detidos. Desde Buenos Aires e Caracas também se notou que a coincidência desta ação judicial norte-americana, um dia depois da posse de Cristina como presidente da Argentina e dias depois do referendo na Venezuela que rejeitou a proposta de reforma constitucional do presidente Hugo Chávez, em um contexto de tensões entre Washington e Caracas.
Funcionários do Escritório Federal de Investigação (FBI) afirmaram em seu informe à promotoria que no Estado da Flórida se preparou um plano do governo venezuelano para colaborar com centenas de milhares de dólares na campanha de um candidato às eleições presidenciais de outubro último na Argentina. Uma porta-voz do FBI que pediu para não ser identificada assegurou em Miami que escutas telefônicas feitas por esta agência indicam que essa trama para levar de forma clandestina dinheiro vivo à Buenos Aires, para ajudar a campanha de Cristina, que sucedeu seu marido, Néstor Kirchner, à frente do governo argentino.
Os venezuelanos Franklin Duran, Moisés Maiónica e Carlos Kauffman, mais o uruguaio residente nos Estados Unidos Rodolfo Wenseele Paciello, foram detidos quarta-feira em Miami sob suspeita de atuar e conspirar como agentes do governo de Chávez sem permissão das autoridades dos Estados Unidos. “O fato aconteceu aqui, as reuniões se realizaram aqui”, o que constitui um crime grave nesta jurisdição, disse à IPS a porta-voz do FBI, embora acrescentando que ainda não se sabe de onde saiu o dinheiro.
O promotor federal adjunto Thomas Mulvihill disse que nas gravações ouve-se os quatro homens conspirando para levar US$ 800 mil para a campanha de Cristina Kirchner em representação do governo de Chávez. Mulvihill assegura, também, que os acusados tentaram esconder o destino final do dinheiro e especula-se que intimidaram Antonini Wilson para que não revelasse a suposta ligação de Caracas no caso. Também Kenneth Wainstein, assistente do promotor para segurança nacional, afirmou que “o processo atual descreve um suposto complô de agentes do governo venezuelano para manipular um cidadão norte-americano em Miami a fim de manter em segredo um crescente escândalo internacional”.
Um funcionário do Depatamento de Justiça em Washington negou-se a comentar a investigaçao, mas explicou que os envolvidos são acusados de serem “agentes estrangeiros de uma potência estrangeira”, outra acusação semelhante ou espionagem. Não é a primeira vez que o governo de Chávez é acusado por funcionários norte-americanos de tentar influir em um resultado eleitoral na América Latina. Nesse contexto, Cristina saiu em resposta às declarações que a envolveram qualificando o assunto de “lixo da política internacional”.
Esse “lixo indica de maneira tragicômica a involução da seriedade e do desenvolvimento das relações” entre países, disse a mandatária ao falar esta semana em uma reunião sobre resíduos urbanos e outros assuntos ambientais. “Mais que países amigos, querem países empregados e subordinados”, acrescentou, se referindo a uma suposta ingerência de Washington sobre os vínculos estreitos entre Buenos Aires e Caracas.
‘Continuarei afirmando a necessidade de aprofundar e a ampliar o Mercosul”, integrado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e no caminho de fazê-lo e Venezuela, e também “trabalharei duramente na construção do Banco do Sul que nos dê ferramentas financeiras alternativas às que somente causaram dor e tragédia social na América Latina”, ressaltou. “A Argentina nunca precisou que alguém lhe dissesse quais os que devem ser nossos amigos, pois temos uma profunda convicção na autodeterminação dos povos”.
Mas, também o advogado Ricardo Monner Sans se interessou em Buenos Aires pelo caso e apresentou um documento anexo ao informe do FBI de Miami e do comunicado do Departamento de Justiça norte-americano perante a promotoria sobre contrabando, que continua seu trâmite sem que até agora alguém tenha sido detido, segundo informou esta agência à IPS. Até agora, a justiça da Argentina está à espera da extradição de Antonini, o que, segundo as novidades surgidas em Miami, não parece em vias de ser concedida. Por outro lado, na Venezuela, cuja justiça não interveio no caso, nem mesmo existem as investigações administrativas anunciadas. (IPS/Envolverde)
* Com colaboração de Carmen Gentile, em Miami, e Marcela Valente, em Buenos Aires

