Mulheres: Iraquianas mortas por radicais do Islã

Bagdá, 19/12/2007 – Diversas organizações rebeldes ativas no sul do Iraque assassinam mulheres por entenderem que sua conduta não condiz com os ditames do Islã, segundo a polícia. O recrudescimento das ameaças faz muitas delas fugirem de casa. Pelo menos 40 mulheres foram assassinadas nos últimos cinco meses, informou à imprensa o chefe de polícia da cidade de Basra, general Khalil Hannoon. “Estamos certos de que há muito mais vítimas cujas famílias não denunciam por medo do escândalo”, acrescentou.

As milícias xiitas da Organização Badr, que respondem ao Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, e o Exército Mehdi, liderado pelo clérigo Muqtada Sadr, contrário à ocupação, lideram essas ações para a imposição de rígidas normas islâmicas. A pressão religiosa coincide com a partida do contingente britânico de Basra, a maior cidade do sul do país, cuja segurança deixa nas mãos do governo iraquiano. Este, de maioria xiita, é acusado de apoio tácito, e às vezes direto, às milícias. O Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque faz parte do governo.

As mulheres que não usam o véu são o principal objetivo das milícias, segundo os moradores. Muitas delas se queixam de receber ameaças se não obedecem. “As milícias nos abordam e dizem que devemos usar o véu e não usar maquiagem”, contou a universitária Zahra Alwan, que fugiu há pouco de Basra para Bagdá. “Imitam os Guardiãs da Revolução da República Islâmica do Irã (onde rege um regime islâmico desde 1979) e cremos que recebem ordens deles”, acrescentou.

Pode-se ver lemas pintados em vermelho nas paredes de Basra ordenando as mulheres a não usarem maquiagem nem sair na rua sem terem seus corpos cobertos dos pés à cabeça, contou Alwan. “A situação na capital não é tão diferente”, disse à IPS Mazin Abdul Jabbar, pesquisador da Universidade de Bagdá. “Todas as universidades estão controladas por rebeldes islâmicos que acossam todo o tempo as estudantes com normas religiosas”. Essa é uma das razões pelas quais “muitas famílias deixaram de mandar suas filhas para a universidade”, acrescentou.

O Ministério da Educação disse que no início deste ano mais de 70% das meninas e moças deixaram de ir à escola. Grande quantidade das vítimas foram acusadas de serem “más” antes de serem seqüestradas, contaram vários moradores que não quiseram se identificar. Muitas das seqüestradas acabaram assassinadas. Seus corpos depois aparecem em lixões com sinais de violação e tortura e com um bilhete onde está escrito “má”. Um clérigo xiita que falou com a IPS em Bagdá, e pediu para na ser identificado, defendeu os assassinatos. “Somos um país islâmico e devemos nos comprometermos com as restrições de nossa religião. Não devemos permitir que a corrupção entre em nossas famílias sob a bandeira da liberdade e bobagens desse tipo”, acrescentou.

Os clérigos sunitas têm uma visão diferente. “Vai contra as normas islâmicas as mulheres mostrarem seu cabelo e seu corpo”, disse à IPS o xeque Tariq al-Abdaly. “Mas, este não é um Estado islâmico, assim, só o que podemos fazer é aconselhar as mulheres, como fazemos com os homens, para que sigam esses ditames. Em todo caso, o castigo por tais erros deve ser, naturalmente, muito menor do que a execução”, afirmou.

Os liberais iraquianos se sentem profundamente frustrados pela falta de liberdades pessoais. “Estamos muito desiludidos com a perda do que foram as conquistas das mulheres iraquianas sob o regime do ex-presidente Saddam Hussein (1979-2003), o qual considerávamos retrógrado”, disse à IPS Salim Mahmood, do Partido Comunista Iraquiano. “Os norte-americanos prometeram converter o Iraque em um símbolo de liberdade e prosperidade. Até agora nada disso aconteceu”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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