Jerusalém, 04/12/2007 – O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, advertiu seu povo de que o fracasso em chegar a um acordo para reconhecer a soberania da Autoridade Nacional Palestina significará o desaparecimento do Estado de Israel. “Se a solução baseada na existência de dois Estados não ser concretizar, e nos encontrarmos diante de uma luta pela igualdade do voto (inclusive para os palestinos em seus territórios), nesse dia o Estado de Israel estará morto”, disse em entrevista publicada pelo jornal Haareetz. Olmert e o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, acordaram na reunião de cúpula que mantiveram na semana passada em Annapolis, nos Estados Unidos, que procurariam chegar a um acordo de paz até o final de 2008.
O primeiro-ministro se referiu à “ameaça demográfica”. A taxa de natalidade nos países árabes é mais alta do que em Israel e, se não se chegar a uma solução baseada no principio dos dois Estados, os judeus se converterão em uma minoria na área que vai do rio Jordão até o mar Mediterrâneo, que inclui a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Se isso acontecer – advertiu – Israel terá que se defender contra acusações de que deixou de ser uma democracia. Não é a primeira vez que Olmert se expressa nestes termos, mas nunca o fizera como chefe de governo. É provável que esteja preparando a opinião pública quanto às concessões que deverá fazer aos palestinos para alcançar um acordo de paz definitivo.
Na reunião em Annapolis, organizada pelo presidente norte-americano, George W. Bush, ficou acertado começar este mês a discussão de temas-chave como as fronteiras de um futuro Estado palestino, a situação dos refugiados dessa nacionalidade, o status de Jerusalém e os assentamentos judeus na Cisjordânia. Embora seja auspicioso o fato de após dois anos de derramamento de sangue as duas partes em conflito retornarem à mesa de negociações, os três líderes que devem delinear o acordo (Abbas, Olmert e Bush) se encontram em uma posição de debilidade interna e é difícil ver como se poderia chegar a uma solução antes da mudança presidencial nos Estados Unidos no ano que vem.
Olmert já começou a reduzir as expectativas. “Faremos um esforço para manter rápidas negociações que esperamos concluir até o final de 2008, mas não existe um cronograma estabelecido”, afirmou. O primeiro-ministro enfrenta um dilema: se avança rumo a um acordo de paz a coalizão política que o sustenta pode se quebrar. Para avançar nas negociações, Olmert terá de realizar concessões territoriais aos palestinos que poderiam forçá-lo a convocar eleições antecipadas. Os partidos direitistas da coalizão oficial ameaçaram abandoná-la no momento em que Israel ceder território aos palestinos.
A popularidade de Olmert caiu em queda livre porque os israelenses consideram que dirigiu de maneira errada a guerra de 2006 contra a milícia libanesa Hezbolá. Parece difícil que consiga assegurar a vontade política necessária para levar adiante um complicado acordo de paz. Mas, essa debilidade, dizem alguns analistas, poderia empurrá-lo e garantir o êxito das negociações, que proporcionaria um eixo para a campanha eleitoral se tiver de convocar eleições antecipadas.
Abbas também enfrenta problemas internos em sua tentativa de chegar a um acordo de paz com Israel. Suas forças de segurança mataram um palestino ao dispersar uma manifestação de protesto contra a reunião de Annapolis, na cidade de hebrón, na Cisjordânia. Em junho passado, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) assumiu o controle na Faixa de Gaza após enfrentar o moderado e secular partido Fatah de Abbas, o que enfraqueceu ainda mais o presidente palestino e criou dúvidas entre os israelenses sobre sua capacidade de levar adiante o processo de paz.
Bush prometeu que os Estados Unidos se comprometeriam “ativamente” nas negociações, mas suas ações durante os últimos sete anos levam ao cepticismo em relação à sua vontade em apoiar com firmeza o processo de paz. Nunca se envolveu decisivamente no tema e alguns analistas consideram improvável que o faça agora, no final de seu mandato. Embora Bush tenha decidido usar seu poder para chegar a um acordo de paz, pode ser muito tarde, devido à sua debilitada posição política nos Estados Unidos. (IPS/Envolverde)

