Estados Unidos- Irã: Bush teve a notícia bomba, mas preferiu se calar

Washington, 20/12/2007 – Funcionários do governo dos Estados Unidos agora admitem que o presidente George W. Bush soube, já em agosto, que a mais recente avaliação Nacional de Inteligência diria que o Irã havia abandonado em 2003 seu programa de armas nucleares. Mas, esses mesmos funcionários evitam responder quando Bush foi informado sobre os dados que levariam à revisão da política tradicional de Washington para com Teerã. Esse silêncio é necessário, ao que parece, para ocultar o fato de que o presidente muito provavelmente teve essa informação em fevereiro ou março deste ano.

A Avaliação foi divulgada no último dia 3. Nesse dia, quando um jornalista perguntou ao conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Stepehn Hadley: “Esta informaçaoi foi obtida nas últimas semanas?”. Hadley respondeu: “A comunidade de inteligência disse que nos últimos meses”. Outro jornalista perguntou: “Quando foi a primeira vez que o presidente recebeu algum indício? Foi há alguns meses, quando a nova informação começou a estar disponível para as agências de inteligência?”. O conselheiro respondeu: “Você deveria perguntar isso à comunidade de inteligência”. A evidência agora disponível sugere que evitou a resposta não por ignorância, mas para não revelar que Bush tinha sido informado a respeito meses antes de uma reunião que manteve em agosto com o Diretor Nacional de Inteligência, Mike McConnell. O elemento-chave que alterou a avaliação sobre o programa nuclear de Teerã foi a deserção em fevereiro de ali Reza Asgari, funcionário do Ministério da Defesa iraniano, durante uma visita à Turquia.

O jornal The Washington Post citou no dia 8 de março um funcionário norte-americano não identificado segundo o qual Asgari, vice-ministro da Defesa entre 1997 e 2005, durante a presidência do reformista Mohammad Khatami, passava informação às agências de inteligência em Washington. Porém, o funcionário disse ao jornal que Asgari não foi interrogado sobre o programa nuclear do Irã, apesar de que contava, certamente, com um conhecimento importante sobre as decisões políticas, embora, talvez, não dos detalhes técnicos. Esta incongruente negativa sugere que a informação fornecida pelo desertor iraniano era considerada extremamente delicada.

Funcionários da inteligência mantiveram o nome de Asgari à margem das discussões sobre a avaliação do programa nuclear do Irã. Mas, um ex-membro da Agência Central de Inteligência, Philip Giraldi, disse à IPS que a informação do ex-ministro iraniano foi “chave” para concluir que Teerã abandonou seu programa de desenvolvimento de armas atômicas em 2003. Giraldi disse que Asgari foi recrutado pela inteligência turca em 2003 e que desertou ao receber indícios de que as autoridades de seu país suspeitavam de suas atividades. O ex-funcionário da CIA acrescentou que, segundo suas fontes, Asgari levou consigo grande quantidade de documentos secretos.

Igualmente importante para a Avaliação Nacional de Inteligência foi a informação que Asgari forneceu sobre os sistemas de comunicação militar iranianos, o que permitiu aos Estados Unidos interceptar mensagens vitais das forças armadas do regime xiita. Os dados fornecidos pelo desertor também poderiam ter permitido à inteligência dos Estados Unidos identificar as comunicações mais importantes entre todas as interceptadas, disse Gary Sick, principal assessor sobre o Irã na presidência de Jimmy Carter (1977-1981). “Há milhões de peças de evidência e o que se busca está determinado pelo que um já conhece. O que Asgari facilitou é uma nova forma de olhar essa evidência”, afirmou.

Existem outros indícios sugerindo que a inteligência norte-americana avaliava já em abril a nova informação dada por Asgari. Thomas Fingar, membro do Conselho Nacional de Inteligência, deixou escapar em 27 de abril, entrevistado pela estatal National Public Radio, alguns detalhes sobre a revisão da estimativa sobre o programa nuclear do Irã. Fingar se referiu à “nova informação” em poder dos Estados Unidos. “Estamos reexaminando antiga evidência”, acrescentou. Quanto ao tempo que levaria para Teerã obter uma arma atômica, Fingar disse que isto “poderia mudar. Temos a mente aberta e estamos vendo a questão sob novo enfoque”, afirmou.

Porém, Fingar enganou os ouvintes da emissora ao sugerir que os avanços do programa iraniano de enriquecimento de urânio poderiam acelerar o prazo necessário para contar com suficiente quantidade desse material com o objetivo de fabricar uma arma nucelar. Além disso, se referiu a informes da Agência Internacional de Energia Atômica sobre o programa, induzindo os ouvintes a pensarem que a demora na conclusão da Avaliação Nacional de Inteligência se devia à nova evidência que produziria uma estimativa mais alarmante.

A entrevista de Finger sugere que o processo de confirmação da mudança da política nuclear do Irã em 2003 já estava em estado avançado em abril. Mas, dados obtidos durante os interrogatórios de Asgari poderiam ter sido entregues a Bush no momento em que foram considerados importantes pelos funcionários de inteligência. Este tipo de informação se inclui no Resumo Diário Presidencial, que contem as novidades mais relevantes que a CIA elabora todas as noites e entrega na Casa Branca logo cedo.

“Seria impensável não incluir no Resumo qualquer informação que Asgari tivesse dado sobre o programa nuclear”, disse Ray McGovern, veterano com 26 anos dentro da CIA. Quanto aos comentários de Hadley de que sua ignorância sobre quando Bush teve acesso à nova informação de inteligência, McGovern indicou que o conselheiro de Segurança Nacional recebeu o mesmo Resumo Diário que o presidente durante décadas. Hadley deve ter sabido com toda certeza em que momento Bush tomou conhecimento da nova evidência a respeito do programa nuclear iraniano, disse McGovern à IPS.

* Garet Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

(Envolverde/ IPS)

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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