Teerã, 18/12/2007 – A admissão pela inteligência dos Estados Unidos de que o Irã não procura fabricar armas nucleares desde 2003 está longe do grande triunfo reivindicado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, e não afasta a ameaça de sanções econômicas. A Avaliação Nacional de Inteligência norte-americana foi o “golpe final a todo os que desejam o mal da nação iraniana’, disse mandatário no último dia 5 na cidade de Ilam, dois dias depois de divulgado o informe. Muitos representantes da ala mais dura do regime islâmico iraniano se somaram desde então ao regozijo presidencial.
“O estudo tinha o objetivo de ajudar o governo norte-americano, mas, em última instância, anunciou a vitória da nação iraniana em assuntos nucleares contra todas as potências”, disse o presidente. Simpatizantes de Ahmadinejad afirmam que a publicação do informe foi uma derrota para os neoconservadores de Washington e uma prova da retidão de Teerã. Entretanto, outros dirigentes iranianos, tanto conservadores quanto reformistas, se mostram cépticos. Embora considerem positiva a avaliação da inteligência dos Estados Unidos, também criticam Ahmadinejad por cantar vitória de maneira apressada.
O informe faz uma distinção entre as atividades nucleares iranianas anteriores e posteriores a 2003, algo que é perigoso, alertou o jornal de linha dura Jomhuri Eslami em seu editorial, dizendo que o objetivo da Avaliação Nacional de Inteligência é convencer a opinião pública de que se necessita de “uma contínua pressão sobre o Irã’, porque, caso contrário, o regime islâmico “avançará novamente para a construção de armas nucleares”.
O governo norte-americano continuará com sua política de hostilidade e pressionará o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para impor uma terceira rodada de sanções contra o Irã, acrescentou o jornal. Além disso, reivindicar com muita ênfase os argumentos do informe implica aceitar a informação de inteligência dos Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano dos últimos sete anos, ou menos. É o que diz o site Tabnak, próximo de Mohsen Reza’ei, secretário do poderoso Conselho de Discernimento.
O próprio Ahmadinejad baixou o tom. Em uma entrevista coletiva no último dia 11 apenas descreveu o informe como um “passo positivo”. Se Washington “der um ou dois passos à frente a mais, a situação poderá ser significativamente diferente. O passo seguinte deveria ser deixar de lado as acusações sem fundamento sobre o programa nuclear”, afirmou. A Avaliação Nacional de Inteligência garante que o Irã tentou construir armas nucleares até 2003, mas a partir dessa data abandonou esse propósito.
O chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki, ressaltou que os planos de desenvolvimento atômico sempre tiveram intenções pacificas e que o informe somente revelou 70% da verdade. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse em uma reunião com seu colega italiano, Giorgio Napolitano, no dia 11 deste mês: “Cremos que o Irã tem um programa secreto de armas atômicas e que deverá explicar ao mundo o motivo”. Segundo Bush, também deve informar à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
A idéia de Ahmadinejad a respeito de o informe ser um sinal de normalização das relações com Washington também foi recebida com cepticismo. “Nossas diferenças se referem a uma série de questões estratégicas e não serão resolvidas enviando sinais e com movimentos táticos”, disse o ex-negociador nuclear iraniano Ali Larijani. Atualmente, Larijani integra o Conselho Supremo de Segurança Nacional como representante do líder supremo religioso iraniano, Ali Khamenei.
Um analista de Teerã disse à IPS que a estimativa de inteligência “deixa aberta a especulação sobre os objetivos futuros do plano nuclear. E esta é uma armadilha para o Irã’. A fonte acrescentou que pediu o anonimato, “admitir que não existe neste movimento um plano de construção de armas ajuda muito o governo norte-americano, aliviando a pressão do lobby israelense e dos representantes da linha dura que reclamavam ações militares”.
Não se deve esquecer – prosseguiu – que outro informe, elaborado pelo diretor da AIEA, Mohammed El Baradei, “Tampouco é categórico sobre o caráter pacifico do plano nuclear, por isso não evitará realmente a adoção de novas sanções”. Estima-se que se estas chegarem a ser aplicadas afetarão fundamentalmente pessoas ligadas com o programa atômico, alguns bancos e as forças armadas. “Existem poucas possibilidades de China e Rússia, que mantêm estreitos laços com o Irã, terem um grande trabalho de persuasão para seguir com as sanções”, afirmou o analista. (IPS/Envolverde)

