Ambiente-Sudão: Construções no podem afetar o meio ambiente

Cartum, 08/01/2008 – Um auge da construção, alimentado pelo petróleo, dá à capital do Sudão um aspecto mais brilhante do que nunca. Mas, alguns temem que isto tenha um custo ambiental. “A indústria da construção está mudando o uso da terra. Estão cortando as áreas verdes em Cartum e criando zonas residenciais. Não há muito planejamento, e já está havendo um impacto negativo na qualidade da água e do solo. O perigo a longo prazo é que isto leve a uma escassez hídrica e a outros impactos sócio-econômicos e sanitários”, disse Mohamad Elmuntasir Ahmed, professor na Faculdade de Engenharia e Arquitetura na Universidade de Cartum. Na falta de parâmetros que regulem quais produtos da construção podem ser importados, alguns construtores utilizam materiais perigosos, acrescentou.

“Estes materiais introduzirão substâncias químicas que podem prejudicar o meio ambiente e a saúde dos moradores. Descobrimos que os retardadores de chama usados na construção são fonte de toxinas que podem ser transmitidas às crianças através do leite materno. Também podem causar câncer. A atmosfera também é afetada por estes produtos químicos”, continuou Ahmed. Além disso, “as tendências da construção atualmente permitem que haja muito espaço entre os edifícios. Se estes fossem construídos a menor distância entre um e outro poderiam conservar melhor o ar fresco. Mas isso não acontece, o que significa que precisamos de mais eletricidade para manter em funcionamento o ar-condicionado. Isso também cria mais contaminação”, disse o professor.

Ahmed também é conselheiro da organização de vigilância ambiental da universidade e trabalhou em estudos de vários projetos da construção no Sudão, desde fábricas até embaixadas. Com estes pontos de vista concorda Sharaf Bannaga, proprietário da Bannag Consulting que também trabalhou no departamento de empresas públicas do Estado de Cartum entre 1989 e 2001. “Os construtores têm a liberdade de fazer o que querem. O governo administra tudo. Uma vez que se tem sua aprovação, ninguém mais se importa, e ninguém está supervisionando o governo”, ressaltou Bannaga.

Ahmed concorda que é preciso melhorar o controle do governo sobre a construção. “Há um abismo entre a legislação e o monitoramento dos projetos. Também temos uma legislação antiquada. Necessitamos de uma nova que possa ser aplicada e se fazer cumprir”. Mas, disse que é preciso lembrar que o manejo ambiental ainda está em sua fase inicial neste país. “O Ministério de Meio Ambiente do Sudão foi criado apenas em 1995. Não teve muito tempo, mas trabalha duramente. Precisa de mais tempo para estabelecer e fazer cumprir um sistema completo”, acrescentou.

Bannaga destacou que a falta de consideração da indústria da construção é parte de uma tendência mais ampla com relação ao meio ambiente em um país que lida com uma extensa pobreza, como atestam as favelas de Cartum. “Temos dificuldades para tratar a água e os resíduos líquidos. A maioria dos lares têm seus próprios meios para verter dejetos líquidos no solo e na água subterrânea. Não há redes de resíduos líquidos”, explicou. “Tampouco temos sistemas para coleta em muitas áreas. A maioria de nossos dejetos líquidos é queimada no lugar. Dependemos do ar-condicionado mecânico e não há eco-construção”, acrescentou. Muitos pobres dependem do entorno natural para seu sustento, “mas também agravam os problemas ambientais. Alguém que é pobre corta árvores para vender madeira, mas ninguém volta a plantar árvores”, disse Banaga.

Em meio a uma guerra com o Movimento de Libertação do Povo do Sudão, no sul, até 2005, o governo nacional agora combate rebeldes na ocidental região de Darfur. E também enfrenta a condenação internacional pelos crimes de guerra cometidos no curso desse conflito, dos quais é acusado. Mas, isto teve pouco efeito nos investimentos no Sudão. Além da sustentabilidade ambiental, a questão dos direitos da terra também demonstrou ser algo com o que lidar no desenvolvimento de Cartum.

Isto inclui os esforços para construir pontes até a Ilha de Tuti. Este projeto pretende ligar a ilha, que fica no rio Nilo, com a capital que a rodeia. Também será construída uma estrada que atravesse a ilha para ligar as duas pontes e permitir outra rota para aliviar o congestionamento na metrópole em crescimento. A iniciativa de US$ 14 milhões começou em 2003 e esteve e marcha até que houve um atraso de 134 meses nas obras da estrada da ilha.

“Tivemos que suspender o projeto quando os moradores reclamaram que a estrada passaria por suas terras. Queriam muito dinheiro por isso e passamos todo esse tempo negociando com eles. Fizemos um acordo”, disse Abdul-Wahid Abdul-Moniem Abdul-Aziz, que dirige o Departamento de Estradas e pontes no Ministério De Planejamento Fisico e Empresas Públicas do Estado de Cartum e está encarregado de completar o ambicioso processo.

Sua divisão – afirmou – conscientiza todos os construtores sobre as leis ambientais sudanesas. “Temos um departamento relativo ao meio ambiente e tem seu próprio tribunal para julgar se os construtores não obedecerem a lei”, acrescentou Abdul-Aziz. Mas, para Bannaga, claramente há uma necessidade de maior controle. “Pode haver legislação, mas não há regras”, afirmou. (IPS/Envolverde)

* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (sigla em inglês da Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

Yazeed Kamaldien

Yazeed Kamaldien is a freelance journalist and photographer based in Cape Town, South Africa. He has worked with print, online, radio and television media in various countries. His website features some of his published stories and photos as well as news about his photographic exhibitions.

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