Nações Unidas, 04/01/2008 – Em meio a apelos para uma investigação internacional das eleições presidências no Quênia, os contínuos distúrbios e a violência nesse país do leste da África ameaçam desestabilizar um aliado dos Estados Unidos na “guerra contra o terrorismo”. “O que ocorre no Quênia hoje é uma burla à democracia”, afirmou o reverendo Gabriel Odima, presidente do Centro pela África para a Paz e a Democracia, com sede nos Estados Unidos.
“A comunidade internacional, especialmente dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e da União Européia (UE), deveriam tomar uma posição firme e obrigar o presidente Mwai Kibaki a renunciar e deixar o caminho livre para uma auditoria independente que resolva a atual crise do país”, disse Odima. O referendo afirmou que foram vulneradas a causa da democracia e o gozo das liberdades e dos direitos humanos, e que essa situação continuará assim “enquanto a comunidade internacional continuar dando apoio e credibilidade aos regimes opressores e repressivos da África”.
Cerca de 300 pessoas morreram queimadas ontem, na maioria mulheres e crianças, depois que uma multidão incendiou a igreja onde haviam se refugiado fugindo dos enfrentamentos tribais desatados pelas denúncias de fraude nas eleições. A Comissão de Direitos Humanos do Quênia e a Federação Internacional para os Direitos Humanos condenaram os assassinatos e pediram a criação de uma comissão internacional para investigar as acusações de fraude. O pedido foi dirigido à União Africana, à UE e à secretaria da Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth), blocos que estão a favor de pressionar o presidente Kibaki.
Apresentado como um modelo de democracia multipartidária na África, o Quênia é um dos principais receptores de ajuda militar e para o desenvolvimento dada por Washington nesse continente. “O Quênia é o eixo da estabilidade da África oriental e é a vanguarda na luta contra o terrorismo”, diz o documento Justificativa do Orçamento do Congresso para Operações Exteriores de 2008, divulgado pelo Departamento de Estado norte-americano.
Para o ano fiscal de 2008, que termina em outubro, os Estados Unidos destinaram US$ 540,4 milhões ao Quênia, a maior parte para apoiar programas de paz e segurança, governabilidade, treinamento militar, cuidados com a infância e ajuda humanitária, quando em 2006 destinou US$ 269,5 milhões. Em seu informe, o Departamento de Estado diz que o Quênia “tem o potencial para converter-se em um país de transformações e conseguir melhores padrões de vida e um governo democrático mais transparente, menos corrupto e mais participativo”.
Mas, para um progresso desse tipo – prossegue o informe – é necessária uma taxa de crescimento econômico anual entre 7% e 8% de maneira sustentada. Porém, de acordo com os últimos dados disponíveis, o crescimento em 2005 foi de apenas 5,8%. Se a atual crise continuar se agravando afetará negativamente a crescente economia, em particular o turismo, que gera uma renda superior a US$ 1 bilhão por ano.
Odima disse que a agonia do povo e a perda de vidas e de propriedade no Quênia e em outros paises africanos, como Uganda, não são casos isolados. “Os tristes fatos no Quênia têm algumas semelhanças com os de Uganda e Ruanda. O Quênia caminha para se converter em outro Estado fracassado na região”, alertou o sacerdote. Odima também disse que a utilização da policía ou dos militares para reprimir o povo e proclamar uma vitória nas eleições que muitos quenianos acreditam ter sido ganha pelo líder opositor Amolo Raila Odinga “é uma receita para o genocídio”.
Por sua vez, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, deplorou a violência no Quênia. “A Secretaria Geral (da ONU) exorta os partidos políticos e seus líderes a resolverem suas diferenças pacificamente através do diálogo e a fazerem pleno uso dos mecanismos e procedimentos legais existentes”, acrescentou. A alta comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, Louise Arbour, também expressou sua preocupação e pediu ao governo que cumpra suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos. Isto inclui responsabilizar a polícia por suas ações. Embora reconheça a importância de manter a ordem, a polícia deve usar a força na proporção da real ameaça que enfrenta, acrescentou.
A declaração de Kibaki como vencedor das eleições foi seguida de acusações de fraude. Odinga liderava as pesquisas eleitorais. Nas eleições parlamentares, que aconteceram de forma paralela, o partido de Kibaki foi derrotado. (IPS/Envolverde)

