Colômbia: Entre ingerências e beligerâncias

Bogotá, 18/01/2008 – O governo da Colômbia “não está comprometido com a paz”, mas se encontra “obcecado com a guerra”, afirmou ontem em um comunicado a chancelaria da Venezuela. O texto aprofundava duras críticas feitas na quarta-feira pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao seu colega colombiano, Álvaro Uribe. Chávez, tenente-coronel da reserva, disse que a guerra interna da Colômbia de quase meio século “não tem solução militar”. Após suas declarações de quarta-feira, Bogotá o acusou de ingerência em “assuntos internos’. Mas, a do mandatário venezuelano parecer ser apenas a mais recente dessas ingerências.

O vice-chanceler e representante da Venezuela na Organização dos Estados Americanos, Jorge Valero, mencionou um aspecto notável: “Se algo ameaça a soberania colombiana é a ostensiva presença militar dos Estados Unidos no conflito interno da Colômbia’. No dia 17 de junho de 2004 o então chefe do Comando sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, James. T. Hill, resumia no jornal equatoriano Hoy o coração do Plano Colômbia, iniciado em 2000 e financiado por Washington, para combater o narcotráfico e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farc).

“Vamos quebrar-lhes a espinha no campo militar e econômico e vamos acrescentar governabilidade”, uma estratégia para encarar o fato de que o conflito colombiano “não teria uma solução militar, mas política”, dizia Hill. Washington mantém a linha de combinar todas as opções para obter a liberdade de três norte-americanos contratados do Plano Colômbia, Marc Gonsalves, Thomas Howes e Keith Stansell, capturados pelas Farc em fevereiro de 2003. As Farc buscam trocar um grupo de mais de 40 reféns civis e prisioneiros de guerra que tem em seu poder por várias centenas de seus guerrilheiros presos na Colômbia.

Talvez o mais valioso de Washington seja que dois guerrilheiros das Farc estão em poder dos Estados Unidos, após terem sido extraditados por Uribe em resposta à captura dos três norte-americanos. Mas sem eles não haverá troca humanitária, alerta a guerrilha, o que fez a decisão sobre libertação de guerrilheiros deixar de ser apenas da Colômbia. A guerrilheira “Sonia”, seu nome de guerra, cumpre pena de 16 anos e meio em uma prisão do Texas, enquanto “Simon Trinidad” aguarda sentença para o final deste mês. Em todo caso, faltando um ano para acabar o mandato de George W. Bush, a filigrana norte-americana parece mais complexa do que uma simples linha de confrontação.

Pouco antes da visita à Colômbia, na semana passada, da secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, seu embaixador nesse país, William Brownfiel, foi claro sobre a mediação política: “Vemos com bons olhos a participação de qualquer líder, funcionário oficial, político ou pessoa de importância de qualquer país do mundo em um esforço para produzir a liberdade rápida e segura dos muitos reféns colombianos das Farc e do ELN” (Exercio de Libertação Nacional), afirmou, sem mencionar Chávez nem os norte-americanos presos.

Ao mesmo tempo, o porta-voz do Departamento de Estado, Sean Mccormack, descartou que Washington possa atender o pedido do presidente venezuelano e retirar as Farc da lista de organizações terroristas estrangeiras, da qual figuram desde que esta foi confeccionada em 1997 pelo governo de Bill Clinton (1993-2001). Após visita de quatro dias, na segunda-feira deixou a Colômbia o representante Jim Mcgovern, membro do bloco do opositor Partido Democrata na câmara baixa norte-americana.

O parlamentar foi comissionado pela presidência da Câmara de Representantes e ex-chefe do bloco democrata, Nancy Pelosi, a prosseguir na busca de um acordo humanitário que ponha fim à tragédia dos reféns e prisioneiros de guerra em mãos das Farc. O legislador, vice-presidente do Comitê de Regras da Câmara, viajou a Bogotá em companhia de outros dois parlamentares democratas, George Miller e bill Delahunt, que cobriram assuntos relacionados com as violações dos direitos humanos na Colômbia e a ainda pendente aprovação do Tratado de Livre Comércio entre os dois países.

Os três fazem parte do subcomitê parlamentar que investiga o financiamento de corporações norte-americanas aos ultradireitistas paramilitares, exércitos do narcotráfico colombiano que trabalhavam com a força pública e cometeram cruéis matanças até sua dissolução formal, há pouco mais de um ano. Durante a vertiginosa gestão pela troca humanitária conduzida pelo presidente Chávez e pela senadora colombiana Piedad Córdoba entre agosto e novembro, McGovern e outros legisladores se manifestaram dispostos a se reunirem oficialmente com um emissário das Farc, se a guerrilha desse provas de vida dos três norte-americanos capturados.

Essas provas foram interceptadas pelo governo colombiano no dia 29 de novembro em Bogotá. As mensageiras foram detidas e correm risco de serem extraditadas para os Estados Unidos por Uribe, o que complicaria ainda mais a solução da tragédia dos reféns, segundo observadores. Em todo caso, Mcgorvern cumpriu sua palavra e “a mensagem já foi enviada” à guerrilha para realização de um encontro, disse à IPS Ângela de Pérez, mulher do ex-parlamentar Luis Eladio Pérez, refém das Farc.

Durante sua visita à Colômbia, Mcgovern se reuniu com funcionários governamentais, membros do corpo diplomático, famílias dos presos, facilitadores que têm ou buscam contatos com as Farc, analistas e membros de ONGs. Segundo o especialista norte-americano Adam Isaacson, do não-governamental Center for International Policy, que acompanhou McGovern, “a proposta dos membros do Congresso dos Estados Unidos de se reunirem com as Farc foi, em geral, bem recebida’.

“Estamos interessados em resultados, e qualquer entidade ou pessoa que nos ajudar a consegui-los e reunir os seqüestrados com seus entes queridos consideramos positiva”, disse McGovern. As Farc “deve, primeiro, indicar que querem se reunir” para que o encontro ocorra. “Estaríamos dispostos a nos reunir com eles sob a condição de que algo de concreto surgisse do encontro. Não estamos interessados em sermos usados para fins de propagada e nem de fotografias. O que realmente nos interessa é que haja um acordo humanitário”, ressaltou.

Em um encontro com jornalista, os legisladores reconheceram o papel de Chávez na libertação, no último dia 10, das políticas colombianas Clara Rojas e Consuelo González, que integram o grupo de reféns sujeitos a troca pelas Farc. Mas, rejeitaram a proposta do governo venezuelano de conceder status de beligerância à guerrilha: “Quando as Farc deixarem de atuar como terroristas então poderão solicitar que esse título seja retirado”. Durante sua gestão pelo acordo humanitário, a senadora Córdoba viajou várias vezes aos Estados Unidos e conseguiu se encontrar oficialmente com “Sonia” e “Trinidad”, com o aval dos departamentos de Estado e de Justiça.

Em seu informe ao parlamento colombiano, após o fechamento por Uribe da gestão que realizava com Chávez, Córdoba afirmou que obtivera nos Estados Unidos “apoio e aceitação” para um processo de paz na Colômbia. Também informou ter conseguido apoio de Washington para a mediação de Chávez e aceitação da “possibilidade de negociar as condenações” dos dois guerrilheiros, “se houver avanços na libertação dos norte-americanos” presos pelas Farc. Ontem, uma emissora de rádio da Colômbia anunciou que a guerrilha poderia libertar mais reféns, incluindo um dos três norte-americanos. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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