FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL: Direitos humanos não têm lugar no Fórum

Davos, Suíça, 28/01/2008 – Os líderes políticos e empresariais no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, se concentraram no terrorismo como uma das maiores ameaças à paz, mas não abordaram o risco que seu combate representa para os direitos humanos. O presidente do FEM, Klaus Schwab, disse que, além da luta contra o terrorismo internacional, os debates da edição deste ano passavam pela mudança climática, como colocar em marcha um processo de paz factível para o Oriente Médio e a maneira como a tecnologia pode marcar o início de uma nova era de redes sociais para além das fronteiras.

Mas, em nenhuma instância deste encontro de governantes do Norte industrializado, executivos de multinacionais e especialistas em finanças, que começou na quarta-feira e terminou ontem no centro turístico suíço de Davos, se tratou da ameaça aos direitos humanos que implica o modo como os Estados Unidos e seus aliados encararam sua luta contra o terrorismo.

“Estudou-se o assunto com um painel de destacados especialistas legais de 30 países e é um problema grave que leva ao desgaste das instituições responsáveis por garantir o direito”, disse à IPS a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Mary Robindon. “Não formos efetivos na hora de garantir que as medidas antiterroristas salvaguardassem os direitos humanos básicos em vários países”, admitiu. Em Davos não houve um debate específico a respeito.

Por outro lado, a luta contra o terrorismo propriamente dita foi tema central em várias reuniões realizadas na quinta-feira. “o “fogo” do terrorismo no Afeganistão dizima as leis e a ordem, disse o presidente afegão, Hamid Karzai, que pediu à comunidade mundial ajuda para derrotá-lo. Também se referiu aos últimos atentados, incluindo o assassinato da ex-primeira-ministra paquistansa Benazir Bhutto e as explosões de bombas no Afeganistão e Paquistão que causaram centenas de mortes, inclusive de muitas crianças. “Ao que parece, o extremismo desata perigosamente na região. É um pressagio muito ruim para todo o mundo”, disse.

O terrorismo é como uma “serpente venenosa que alguns de nós alimentamos e fazemos de amiga à custa de outros. Espero que agora esses se dêem conta de seu erro”, disse o presidente afegão. Karzai compartilhou a mesa de discussão “Em busca de paz e estabilidade” com o presidente paquistanês, Pervez Musharraf. As tensões entre Karzai e Musharraf não afloraram, mas foi evidente que o mandatário afegão se referia ao seu vizinho. Musharraf é considerado responsável por não liquidar os santuários que os combatentes do movimento islâmico Talibã têm na região tribal do Paquistão, ao longo da fronteira com o Afeganistão.

“Não se deve tolerar mais a complacência”, enfatizou Karzai. “É vital um esforço mundial para combater o terrorismo. A guerra só pode ser ganha se as populações locais têm poder para lutar”. Por sua vez, Musharraf, que chegou a Davos após uma passagem por Bruxelas e Paris para melhorar sua imagem, disse ter a situação sob controle após meses de instabilidade política. O terrorismo não pode ser combatido com “meios militares”, disse, mas, sem explicar quais métodos políticos ou sociais adotaria para enfrentar o problema.

A intervenção dos Estados Unidos na região é chave. A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, mencionou em seu discurso vários aspectos da “agenda democrática” que o presidente George W. Bush promove no Oriente Médio. “O principal problema da democracia no Oriente Médio não é que a população não esteja preparada. O problema é que não se deve permitir que as violentas forças de reação (terroristas) triunfem”, enfatizou.

“A chamada guerra contra o terrorismo levou à degradação dos direitos humanos”, afirma um informe da organização Anistia Internacional, com sede em Londres. “Os países recorrem a práticas proibidas há tempo pelo direito internacional e procuram justificá-las em nome da segurança nacional”, prosseguiu Rice. O governo de Bangladesh não “disparou um só tiro” em sua luta contra o terrorismo, disse o chanceler desse país, Iftekar Ahmed Chowdhury”. Combatemos o problema por meio da transformação social e com a adoção de políticas que minimizem o terrorismo”, disse Chowdhury à IPS. (IPS/Envolverde)

D. Ravi Kanth

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