Desafio-2008-Palestina: Dois territórios, nenhuma nação

Jerusalém, 04/01/2008 – O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, acertaram fazer um esforço maior para concretizar neste ano um acordo de paz que garanta a existência de um Estado palestino independente, mas esse objetivo parece mais distante do que nunca. A razão que alimenta as previsões pessimistas devem ser buscadas nos episódios de violência entre facções palestinas ocorridos em junho de 2007, que deixaram a Faixa de Gaza e a Cisjordânia – as áreas que compreenderiam um futuro Estado independente – não apenas separadas geograficamente, mas com dois governos diferentes e que se enfrentam entre si.

O Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) expulsou de Gaza os membros do partido Fatah, moderado e secular, com o qual tinha um acordo para compartilhar o governo em vigor desde a vitória dos islâmicos nas eleições parlamentares de janeiro de 2006. Os lideres do Fatah acusaram o Hamas de traição e Abbas afirmou que os islâmicos haviam concretizado um golpe de Estado. “Cavaram sua cova com as próprias mãos como resultado dos crimes que cometeram em Gaza”, ressaltou. Abbas dissolveu o governo controlado pelo Hamas e designou um novo primeiro-ministro surgido das fileiras do Fatah. “Eles são os responsáveis por sua perda de legitimidade”, assegurou. Por sua vez, os lideres do Hamas, que se negaram a reconhecer a decisão de Abbas, acusaram o Fatah de agir em conjunto com Israel e as nações ocidentais.

Estados Unidos, Israel e União Européia aplicaram sanções econômicas que quebraram a já cambaleante economia da Faixa de Gaza controlada pelo Hamas. Se o movimento islâmico se negar a reconhecer a existência do Estado de Israel e não renunciara à violência – advertiram – continuará isolados política e economicamente. Os paises ocidentais se aproximaram de Abbas e Israel libertou alguns prisioneiros, na sua quase totalidade membros do Fatah, em uma tentativa de fortalecê-lo politicamente. Ao mesmo tempo, Olmert disse a Abbas que se tentasse dialogar com o Hamas enfrentaria um isolamento semelhante.

Ficou evidente que o Hamas não tinha intenção de renunciar ao seu controle sobre Gaza, limitando a autoridade de Abbas e do Fatah ao território da Cisjordânia. O presidente do Egito, Hosni Mubarak, foi o anfitrião, no final de junho passado, de uma conferência em Sharm el-Sheikh da qual participaram Abbas e Olmert, cujo objetivo era fortalecer os rivais do Hamas. Depois em novembro, houve a cúpula de Annapolis, patrocinada pelo presidente norte-americano, George W. Bush, onde Abbas e Olmert acordaram reiniciar as negociações de paz. A duvida é como chegar a um acordo sem a inclusão do Hamas. Como Abbas agirá para impô-lo em Gaza, onde não exerce nenhum controle?

Entretanto, muito mais preocupante para os palestinos é a contínua deterioração de suas condições de vida. Um informe do Banco Mundial, divulgado em dezembro, dizia que o desemprego e a pobreza se agravaram sistematicamente desde 2000, quando, devido à segunda Intifada (levante popular), Israel colocou em prática um bloqueio que sacudiu a economia palestina. O produto interno bruto por pessoa caiu 40% entre 1999 e 2006 e é de US$ 1.130, o que faz os palestinos dependerem cada vez mais da ajuda econômica.

Segundo o Banco Mundial, “o motor do produto bruto é o gasto governamental e o consumo privado que se financia com remessas do exterior e contribuições de doadores. O investimento caiu a níveis extremamente baixos, por isso praticamente não existe a base produtiva necessária para uma economia auto-sustentada”. A situação é mais grave em Gaza, onde Israel deteve quase completamente o fluxo de bens, para ou desde o território, em uma tentativa de enfraquecer o Hamas e por fim aos ataques com foguetes disparados desde essa zona.

A economia entrou em colapso completo e as famílias dependem de doações. O informe do Banco Mundial acrescenta que dois terços dos 1,5 milhão de palestinos de Gaza estão abaixo da linha de pobreza. Em dezembro, em uma conferencia realizada em Paris, as nações doadoras se comprometeram a entregar US$ 7,4 bilhões nos próximos três anos para reavivar a quebrada economia. Mas, se o bloqueio israelense for mantido, o crescimento será negativo mesmo com esses fundos, alertou o Banco: o produto interno bruto se contrairá em cerca de 2% ao ano.

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, enviado especial ao Oriente Médio do “quarteto” (integrado por Estados Unidos, Grã-Bretanha, Organização das Nações Unidas e União Européia) mostrou aos israelenses a necessidade de levantar em parte as severas restrições aos movimentos. “Entendo as razoes de suas preocupações em questões de segurança. Mas nos casos em que os palestinos demonstram contar com um esquema de segurança, deve ter a possibilidade o fazerem funcionar”, afirmou.

Blair também teve uma mensagem para os palestinos. “Ter um Estado não é apenas uma questão de território. Também se trata do que ocorre dentro desse Estado. E a verdade é que não haverá um Estado palestino a menos que fique claro qual será sua natureza”, afirmou. Em última instância, esse Estado independente necessitará de um território. No momento existem duas entidades palestinas – na Cisjordânia e em Gaza – e não há muitas pessoas que possam dizer como irão unir-se novamente. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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