Nairóbi, 29/02/2008 – Elizabeth Mutai está preocupada com a forte queda nas vendas de maracujá, fruta que cultiva em sua propriedade do vale do Rift, desde que estourou a violência no Quênia depois das eleições de 27 de dezembro. “Plantei pouco mais de um hectare e tive que dar a fruta às vacas”, lamentou. A redução da demanda interna está beneficiando os comerciantes dos países vizinhos, segundo Mutai. “Pagam sete centavos de dólar por quilo e depois o vendem a US$ 2,2”, afirmou. Assim, ela e sua família encontram problemas para comprar comida. A educação de seus filhos também está afetada. Dois deles são universitários e agora Mutai não tem dinheiro para custear seus estudos.
Francis Kmosop, que tem uma plantação de milho, queixa-se do custo dos insumos. “No ano passado o litro de óleo combustível custava US$ 0,9, agora custa US$ 1,2. o preço dos fertilizantes também disparou. “Se permanecer tão alto os produtores terão de voltar a usar esterco, o que reduz o rendimento da colheita”, acrescentou. Raymond Sande, que também é produtor de milho, enfrenta problemas semelhantes. “Os agricultores irão à bancarrota se não ocorrer algo rapidamente”, alertou.
Sande usa fosfato como fertilizante. “No ano passado gastei US$ 20 e este ano o dobro. Assim, não há lucro. O ministro da Agricultura tem de tomar medidas urgentes”, afirmou. “Queremos um ministro que resolva nossos problemas”, disse, por sua vez, Francis Rono, que planta trigo em Kitgali, zona norte do vale do Rift, o “celeiro” do Quênia e uma das regiões mais afetadas pela violência política. O problema dos produtores se complica porque não há atualmente um ministro da Agricultura. Depois das eleições, o presidente Mwai Kibaki, acusado de fraude pela oposição, apenas preencheu 10% de seu gabinete e a pasta da Agricultura não figura entre eles.
As estatísticas indicam que, normalmente, os produtores preparam mais de 30% de suas terras para a semeadura em janeiro. Mas, apenas 10% estão prontos agora. Os despejos e a falta de fertilizantes e implementos levaram a esta situação. A escassez de alimentos é uma possibilidade real devido à queda na produção de milho e trigo. Alguns agricultores não haviam terminado a colheita quando estourou a violência. A destruição também atingiu os grãos que já estavam armazenados. As reservas de milho são inadequadas: há 430 mil toneladas, suficientes apenas para um trimestre.
Atherine Wanjiru vive em Nairóbi e está escandalizada com a rapidez com que aumentaram os preços dos alimentos. Embora os supermercados estejam bem abastecidos, há rumores de que os comerciantes estão escondendo produtos à espera de uma onda inflacionária. Mama Mon’gina, uma vendedora do mercado Kawangware, um dos maiores da capital queniana, afirmou que pode se abastecer de mercadorais normalmente. Ela tem seis filhos e vende verduras que compra de produtores da periferia da cidade.
“Vou bem cedido a Wangige, onde compro as verduras. São frescas. Os produtores não podem guardá-los por serem perecíveis. Têm sorte de estarmos comprando, porque suas verduras estavam apodrecendo no campo. Quase ninguém compra porque devido à violência muita gente restringiu seus movimentos”, afirmou Mon’gina. Um informe do Programa Mundial de alimentos, da Agência para o Desenvolvimento Internacional, dos Estados Unidos, e o governo queniano adverte que não choveu o suficiente, por isso a escassez de alimentos se agravará. (IPS/Envolverde)

