Ambiente: Minas ativas até depois de 2009 na Nicarágua

Manágua, 19/02/2008 – Fontes militares da Nicarágua e funcionários da Organização dos Estados Americanos advertiram que dezenas de campos minados ainda estão ativos neste país, herança da guerra civil que sacudiu o país entre 1979 e 1990. Carlos Orozco, coordenador regional do Programa de Assitência à Retirada de Minas na América Central da OEA, informou à IPS que foram descobertos 51 campos minados na fronteira com Honduras, uma área onde vivem cerca de 24 mil camponeses.

Essa região foi cenário de combates entre “contras’, as forças regulares de direita financiadas e organizadas pelos Estados Unidos, e o Exército Popular Sandinista, o aparelho militar do Estado reorganizado ao ser instaurada a democracia após a queda pela guerrilha esquerdista da longa ditadura da família Somoza. Segundo dados oficiais, nessa guerra civil morreram 50 mil pessoas, 500 mil tiveram que abandonar suas casas e aproximadamente 50 mil ficaram mutiladas.

Orozco disse que o exército colocou 135 mil minas terrestres. Se desconhece a quantidade colocada pelos contra-revolucionários, principalmente nas áreas de fronteira com Costa Rica e Honduras. Os registros do programa da OEA indicam que o exército nicaragüense tinha armazenadas milhares de toneladas de explosivos e 133.435 minas, que foram destruídas em um processo que terminou em 2003. “Em 1990, havia na Nicarágua 500 mil civis vivendo a menos de 10 quilômetros dos campos minados”, garantiu Orozco.

Nos últimos cinco anos, denúncias de camponeses dos departamentos Jinotega e Nueva Segovia, na fronteira com Honduras, bem como de Matagalpa, alertaram as autoridades militares sobre explosões nessas zonas montanhosas. Uma investigação do exército descobriu os campos minados nos arredores de antigos acampamentos dos contras. Os responsáveis pelo programa da OEA identificaram oito municípios, com uma população superior a 24 mil pessoas em risco, em um raio de cinco quilômetros das zonas onde os explosivos foram colocados.

O inspetor-geral do Exército da Nicarágua, major-general Roberto Calderón Vindell, disse à IPS que, através do Programa Nacional de Retira de Minas, as forças Armadas pretendem destruir a partir deste ano os 51 mil campos minados remanescentes da guerra civil. Os militares calculam que há cerca de 17 mil minas. A intenção é destruir 7.600 este ano e as demais em 2009, sempre e quando houver dinheiro para essa missão. O comandante-em-chefe do Exército da Nicarágua, general Omar Halleslevens, disse que desde o começo das operações de limpeza foram destruídas 157.972 minas terrestres. As autoridades militares afirmaram que cerca de 1,1 milhão de pessoas foram beneficiadas direta ou indiretamente com a limpeza de 397 campos.

“Em meu povoado havia mais de 15 mil. Muita gente morreu e outras emigraram fugindo da pobreza, já que ninguém plantava nesses campos da morte. Agora há caminhos e escolas onde antes só havia bombas enterradas’, disse Agresio Osejo Sacasa, prefeito do município de Somotilllo, no departamento de Chinandega. Segundo o exército nicaragüense, desde 1990 foram limpas terras minadas, alem de 145 quilômetros de caminhos na fronteira norte e 96 na fronteira meridional.

Apesar dos progressos, o coronel da reserva William McDonugh, diretor para Ação Humanitária contra Minas da OEA, acredita que a Nicarágua não poderá ser declarada país livre de minas em 2009, como se especulou em 2005, quando se acreditava ter eliminado 90% desses explosivos. “Esses 51 campos remanescentes são ao mais inacessíveis. O exército não poderá destruí-los em dois anos”, alertou à IPS Mcdough, que esteve supervisionando as tarefas de retirada de minas na América Latina desde o final dos anos 80.

A preocupação do funcionário da OEA tem por base o fim da cooperação econômica que proporcionavam à Nicarágua tanto a Dinamarca quanto a Suécia. Estes paises concluíram seus planos de ajuda em dezembro. Canadá, Estados Unidos, Japão e nações da União Européia continuam apoiando os trabalhos de limpeza, disse Orozco. Mas, estimou que serão necessários maiores recursos para acabar com os campos minados descobertos, já que própria OEA enfrenta problemas orçamentários.

“Temos cerca de US$ 1,5 milhão para garantir o cumprimento dos planos de retirada de minas deste ano, mas necessitamos de US$ 3,7 milhões a mais para 2009 e manter os programas de assistência às vitimas ate 2010”, disse Orozco.

Desde 1990, quando começou o programa, 1.187 pessoas sobreviveram às explosões das minas. Outras 50 morreram. A Comissão Nacional de Retirada de Minas do Ministério da Defesa informou que apenas em 2007 atendeu 425 sobreviventes. “Houve 1.250 consultas para cuidados permaentnes, que requeriam mudanças de próteses, operações de olhos e ouvidos, bem como ajuda psicológica, entre outras’, informou esse organismo. Oswaldo Danilo Mairena, ex-soldado de 45 anos, está na lista de pessoas atendidas pelas autoridades responsáveis desativação das minas.

Mirena perdeu a perna esquerda e o olho esquerdo em 1991, quando tentava desativar algumas minas. Embora já tenham se passado quase 17 anos, o ex-militar ainda continua recebendo cuidados médicos devido às suas lesões. “quando alguém cai em uma mina fica sangrando para sempre”, afirmou. (IPS/ Envolverde)

José Adán Silva

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