Brasil-Europa: Comércio em carne viva

Rio de Janeiro, 11/02/2008 – Pecuaristas brasileiros acusaram o governo de se mostrar fraco diante da decisão européia de suspender a importação de carne bovina desse país, que consideram ser por simples razões de protecionismo e não sanitárias como se pretende fazer crer. A União Européia anunciou em 30 de janeiro o embargo, por tempo indeterminado, das compras de carne bovina in natura do Brasil, por discrepâncias quanto à certificação sanitária. O bloco pretendia limitar apenas 300 fazendas autorizadas a exportar o produto, quando Brasília havia apresentado uma lista de 2.681 estabelecimentos.

O Ministério da Agricultura então voltou atrás, reconheceu erros por questões burocráticas na listagem e se dispôs a reduzi-la a 600 produtores, após um acordo obtido quarta-feira com responsáveis pelo setor nos principais Estados produtores. “Ficou pior, é um desastre e uma bobagem incrível” aceitar essas imposições e não se contrapor ao “protecionismo europeu”, disse à IPS José Vicente Ferraz, diretor técnico do Instituto FNP, de consultoria e analise em negócios agropecuários.

É uma evidente confissão de protecionismo fixar uma quantidade aceitável de fazendas, previamente, sem estabelecer os critérios de seleção dos produtores que podem exportar carne bovina para a UE, disse o especialista. O próprio chanceler do Brasil, Celso Amorim, considerou “sem fundamento e sem lógica” o embargo com essa restrição é a priori a apenas 300 fazendas exportadoras. É protecionismo, concordou.

A medida responde a uma posição dos produtores da Irlanda, que pressionam há tempos a Comissão Européia, o órgão executivo da UE, para que bloqueie as compras de carne brasileira, assinalando que não cumprem as exigências sanitárias e, portanto, ameaçaria a saúde dos consumidores do bloco. Foi “uma decisão política”, sem bases técnicas e adotada devido às pressões irlandesas, acusou Gilman Viana Rodrigues, secretário de Agricultura do Estado de Minas Gerais e representante do setor produtivo nacional nas negociações comerciais internacionais.

O Ministério da Agricultura divulgou, em resposta ao anúncio do embargo europeu, um comunicado no qual assegura que não há nenhuma razão sanitária grave nos rebanhos brasileiros e que há mais de 70 anos este País exporta carne bovina in natura a países europeus, “sem o registro de qualquer problema de saúde pública ou animal associado a tal produto”. As áreas do país habilitadas a exportar a UE estão livres de febre aftosa há seis anos e o controle de vacinação responde às exigências européias, segundo a carteira do setor do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

A discrepância, reconhece, se relaciona com o rastreamento do gado brasileiro, para cuidar do trânsito entre as diferentes regiões nacionais e com os vizinhos Paraguai e Bolívia, onde se teme que haja um menor controle de doenças como a própria febre aftosa. O Brasil avançou nessa área com mecanismos eletrônicos de controle desse trânsito. Mas a atitude ambígua e vacilante do governo brasileiro complicou a situação, segundo Ferraz. A lista de 600 fazendas habilitadas feita por Brasília, além da possibilidade de ser novamente rejeitada pela UE, enfrentará fortes resistências de pecuaristas e governantes estaduais.

Quem cuidará de excluir os 2.081 estabelecimentos incluídos na primeira lista do governo Lula? O secretário de Agricultura de Goiás, Leonardo Veloso, descartou assumir essa responsabilidade, garantindo que as auditorias feitas para elaborar a lista original de seu Estado, com 1.065 fazendas, foram corretas. Veloso foi porta-voz de uma atitude geral de seus colegas. Não há um critério definido para julgar quais fazendas devem ser privilegiadas, concentrando as futuras exportações para a UE. As demais poderão questionar sua exclusão perante a justiça, advertiu Ferraz, prevendo que a seleção “não será viável”.

A União Européia é o principal mercado externo da carne bovina in natura do Brasil. Comprou no ano passado 31,6% do total vendido ao exterior, equivalente a US$ 1,087 bilhão. As conseqüências da dura medida européia já se manifestaram em uma forte alta de preços da carne na Europa e a correspondente queda no Brasil, diante da perspectiva de maior disponibilidade do produto para a venda no mercado interno.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, graças às dificuldades que enfrentam seus principais competidores, como a Austrália, que sofre uma prolongada seca, e a Argentina, cujo governo restringiu as vendas externas para conter os preços internamente. Uma possibilidade de a UE afrouxar suas posições e manter negociações mais flexíveis com o Brasil é a pressão de seus consumidores, diante do aumento dos preços por um período prolongado.

As restrições à carne brasileira podem atenuar o desmatamento da Amazônia, já que a expansão da pecuária, junto com a da soja, são apontadas como os principais fatores do avanço da chamada fronteira agrícola sobre a floresta amazônica. Mas, “duvido que isso ocorra”, porque a UE limitou suas exigências a questões sanitárias, disse à IPS Mario Menezes, diretor-adjunto da Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, a ONG que divulgou em janeiro divulgou seu informe intitulado “O reino do gado”, desnudando a maneira como a pecuária promove o desmatamento.

Esse conflito comercial entre Brasil e União Européia oferece “uma oportunidade para abrir a discussão”, incluindo condições ambientais no comércio internacional, concluiu Menezes. Outros aspectos, como o trabalho escravo na pecuária e o excesso de consumo de energia na produção de carne, também poderiam ser tratados, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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