Havana, 20/02/2008 – Ainda parece ser árduo o caminho para construir a igualdade de gênero nas sociedades da América Latina e do Caribe, onde a questão continua majoritariamente reclusa a espaços acadêmicos, longe dos meios de comunicação e raramente compreendida nos debates que atraem a atenção da cidadania. Embora em vários países da região haja legislações com semelhantes direitos e obrigações para mulheres e homens, a discriminação encontra refúgio no espaço doméstico e sobrevive em idéias e tradições ancestrais, que consideram a subordinação do feminino como algo natural.
“O desafio nesta batalha por uma cultura de igualdade está no campo do subjetivo”, disse à IPS a cubana Isabel Moya, diretora da estatal Editorial da Mulher. “As mudanças que dependem das consciência social, dos costumes, não são articuladas automaticamente a partir das mudanças na legislação”, afirmou. Nas últimas cinco décadas, as mulheres cubanas conquistaram notáveis espaços na vida pública, a ponto de serem mais de 43% e 66% da força técnica e profissional. Mas, na maioria das famílias se mantém a ordem patriarcal, que as faz enfrentar uma dupla, ou tripla, jornada de trabalho.
“Apesar de toda essa participação, na vida privada em muitos lares as mulheres continuam sendo responsáveis pela educação dos filhos, das tarefas domésticas e do cuidado com seus parentes mais velhos e com os do seu companheiro”, afirmou Moya, uma das mais tenazes defensoras dos direitos femininos da academia à imprensa cubanas.
Para a argentina Ximena Cabral, jornalista e professora na Universidade Nacional de Córdoba, é fundamental “visibilizar a desigualdade e os estereótipos dos papéis femininos e masculinos’, que podem se expressar diariamente em fatos de violência explícita ou simbólica contra as mulheres. Segundo Ximena, de 31 anos, também é preciso que o movimento de mulheres, muito forte em seu país, ganhe em organização “para trabalhar nestas questões de gênero e, assim, incidir nas políticas públicas”. Já para a advogada uruguaia Graciela Navarro García, deve-se conscientizar sobre a desigualdade predominante em toda a sociedade, em particular nas mulheres, para que uma vez convencidas de sua condição de cidadãs com iguais direitos “possam se mobilizar e realizar ações para chegar a um plano de igualdade”.
Por sua vez, a professora argentina Gabriela Romero considera essencial capacitar os professores para introduzir a perspectiva de gênero em todos os níveis de educação, e dessa maneira evitar “construir e perpetuar os estereótipos” arraigados desde a infância no ambiente escolar. Romero apresentou o enfoque de gênero em seu trabalho docente com jovens e adolescentes sobre a questão da sexualidade responsável, além de questões como prevenção da gravidez. “Eles se encontram nas relações cotidianas, de trabalho, na família”, assegurou.
“Cremos que o papel da mídia é apoiar a educação”, disse Carina Ambrogi, também argentina. “Os meios de comunicação continuam reproduzindo o esquema tradicional de família, mulher e masculinidade”, disse esta jovem jornalista que procura introduzir a perspectiva de gênero em suas reportagens sobre as zonas rurais de Córdoba. “A imprensa tem uma grande responsabilidade neste tema, pois socializam juízos de valor e modelos de sucesso do que de ser o masculino e o feminino”, disse Moya, reconhecendo o paulatino aumento do interesse da mídia cubana em refletir os problemas da desigualdade de gênero.
Moya foi uma das organizadoras da quinta edição do Diplomado Internacional de Gênero e Comunicação, realizado no estatal Instituto Internacional de Jornalismo “José Martí” entre os dias 4 e 14 deste mês, com as presenças de 32 pessoas da América Latina, do Caribe e da Espanha, em sua grande maioria mulheres ligadas ao jornalismo. O curso contou com a presença de importantes representantes das ciências sociais em Cuba, como as psicólogas Patrícia Ares e Consuelo Martín, ambas da Universidade de Havana, bem como a diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), Mariela Castro Espín.
O debate tem de transcender o acadêmico, segundo Navarro, co-fundadora da organização não-governamental Infância e Adolescência Cidadãs. “Devemos levar a discussão à massa social, através dos meios de comunicação que chegam a todos os lares, pois eles afirmam conceitos patriarcais contrários à igualdade”, disse. “Atualmente estamos, sobretudo, em um debate acadêmico, em torno dos termos, da metodologia”, reconheceu o cubano Julio César González Pagés, coordenador da Rede Ibero-americana de Masculinidades e conferencista do Diplomado.
González alertou para a reprodução em alguns painéis de gênero de uma “dinâmica ociosa”, que se contenta em repetir o mesmo entre pessoas já conhecedoras do assunto, em lugar de “optar pela capacidade multiplicadora das idéias” para conseguir sensibilidade em diversos setores sociais e espaços de desenvolvimento local. “Não se trata de ter um trabalho acadêmico, por um lado, que leve em conta esta perspectiva, e depois quando nos encontramos na cotidianidade nos darmos conta de que repetimos o que somos sujeitas de muitos estereótipos”, disse Ximena Cabral. “O desafio é procurar ter o tempo todo uma espécie de vigilância sobre as práticas de um mesmo”, afirmou Cabral, que concentra seu trabalho diário como jornalista em cobrir o movimento de mulheres na cidade argentina de Córdoba. (IPS/Envolverde)

