São Francisco, 05/03/2008 – Veteranos de guerra norte-americanos darão seu testemunho em Washington, entre os dias 13 e 16 deste mês, sobre os crimes contra a população civil que cometeram ou presenciaram no Iraque e no Afeganistão. “Os jornalistas não usam todo seu potencial para cobrir a guerra no Iraque porque é muito perigoso. Assim, o público fica com muitas concepções errôneas sobre a verdadeira natureza da ocupação”, disse o ex-fuzileiro naval Liam Madden. Os atos brutais de forças norte-americanas no Iraque hoje conhecidos pelo público não são fatos isolados cometidos por “umas poucas maçãs podres”, como afirmam políticos e militares, segundo Veteranos do Iraque contra a Guerra, a organização que Madden integra.
Incidentes como as torturas na prisão de Abu Gharib, em Bagdá, e o massacre de uma família de iraquianos na localidade de Haditha se enquadram em um padrão de “ocupação cada vez mais sangrenta”, segundo a organização. “Nosso problema no Iraque é o caso criado por políticos, onde não vigoram o direito nacional nem os tratados internacionais. Esse ambiente se presta para a atividade criminosa”, afirmou o ex-sargento do exército norte-americano Logan Laituri, que lutou no Iraque entre 2004 e 2005 antes de ser dispensado por objeção de consciência.
Laituri disse à IPS que isso se faz sentir nas “regras de combate” entregues pelos comandos aos soldados na frente de batalha. Por exemplo, o sargento contou que um de seus camaradas disparou contra um homem desarmado que caminhava pela rua em Samarra, 125 quilômetros ao norte de Bagdá. “O problema é que esse soldado não estava cometendo um ato que se possa chamar de crime, porque as regras de combate são muito claras: ninguém devia – no momento em que o fato ocorreu – estar caminhando pela rua”, disse. “Mas ninguém deveria dizer a uma família para abandonar sua casa ou sua cidade para poder bombardeá-las. As normas protegem essas ações violentas, não as legitimam”, continuou.
Veteranos do Iraque contra a Guerra convoca a manifestação “Soldado de Inverno”, cuja denominação se refere a uma frase do revolucionário da independência dos Estados Unidos Thomas Paine. “Estes são tempos de prova para a alma dos homens. O soldado de verão, o patriota ao brilho do sol que recusa a servir o país nesta crise também merece o amor e a gratidão de homens e mulheres”, escreveu Paine em 1776, ano inaugural da revolução. Os organizadores dizem que também serão apresentadas evidências filmadas e fotografadas de abusos e que os testemunhos serão transmitidos ao vivo por televisão via satélite e através do site da organização (http://www.ivaw.org).
Soldado de Inverno segue o modelo de uma atividade semelhante realizada por veteranos do Vietnã em 1971, há 37 anos. Cerca de cem membros da Veteranos do Vietnã contra a Guerra se reuniram nessa oportunidade em Detroit, no Estado de Michigan, em um ato aberto aos cidadãos. Atrocidades como o massacre de My Lai, em que centenas de civis vietnamitas foram assassinados por soldados norte-americanos em março de 1968, acenderam a oposição popular à guerra, mas políticos e militares insistiram em afirmar que esses crimes eram exceções isoladas.
“No começo, até o massacre de My Lai foi negado”, lembrou Gerald Nicosia, cujo livro “Home to War”, que narra as vicissitudes do movimento de veteranos do Vietnã. “Os militares norte-americanos tradicionalmente desprezam as acusações assegurando que o denunciante “é um soldado louco” ou “um inconformado” no qual não se pode confiar. Por isso Veteranos do Vietnã contra a Guerra fez esse ato em Detroit”, recordou. “Usaram suas medalhas e demonstraram, assim, que eram mais do que um, dois ou três inconformados. Eram soldados condecorados, cada um deles validando o que o outro havia dito”, acrescentou.
Nicosia recordou que a campanha Soldado de Inverno de 1971 foi ignorada pelos meios de comunicação dominantes, mas deixou uma marca indelével na audiência. Entre os veteranos presentes estava o tenente da marinha John Kerry, na época com 27 anos, hoje senador pelo Partido Democrata e candidato à Presidência nas eleições passadas. Três meses depois dos atos em Detroit, Kerry apresentou seu caso ao Comitê de Relações Exteriores do Senado, testemunhado por câmeras de televisão e veteranos de guerra.
Em um dos discursos mais famosos dessa época, Kerry concluiu: “Alguém deve morrer para que o presidente (Richard) Nixon não seja – e estas são suas palavras – o primeiro presidente a perder uma guerra. Pedimos aos norte-americanos que pensem sobre isso. Como se pede a um homem que seja o último homem a morrer no Vietnã? Como se pede a um homem que seja o último a morrer por um erro?”.
A sociedade civil e os veteranos dos Estados Unidos se vêem hoje em uma situação semelhante, segundo Nicosia. “A maioria dos norte-americanos está muito insatisfeita com a guerra do Iraque agora e ficariam felizes de saírem dela. Mas, têm arraigada a idéia de que os Estados Unidos são um bom país. Muito mais difícil do que retirar as tropas do Iraque será os norte-americanos se darem conta das coisas terríveis feitas em nome de seu país”, afirmou. (IPS/Envolverde)

