IRAQUE: Cinco anos de inferno

Washington, 19/03/2008 – A se completar cinco anos da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, a tétrica realidade e a opinião pública iraquiana desmentem o governo do país ocupante, segundo o qual a situação melhorou. O vice-presidente norte-americano, Dick Cheney, declarou na segunda-feira, em visita-surpresa ao Iraque, que a invasão lançada no dia 20 de março de 2003 foi um “esforço de sucesso”. Mas os números evidenciam que um em cada três iraquianos abandonou sua casa, depende da assistência de emergência para sobreviver ou morreu por causa da invasão e da ocupação. É isso o que Cheney considera um “esforço de sucesso”.

A organização humanitária Just Foreign Policy calculou que mais de um milhão de iraquianos morreram após a invasão e ocupação de seu país, que amanhã completará cinco anos. O instituto de pesquisa britânico ORB aumentou esse número para mais de 1,2 milhão. O alto custo da invasão e ocupação levou o prêmio Nobel de Economia e ex-economista-chefe do Banco Mundial Joseph Stiglitz a publicar, junto com Linda Bilmes, da Universidade de Harvard, o livro “The Three Trillion Dollar War” (A guerra dos três bilhões de dólares). E a estimativa do título é considerada “conservadora”.

Os autores afirmam que o governo de George W. Bush minimizou o custo da guerra e escondeu alguns dados da opinião pública norte-americana. Cerca de quatro mil soldados norte-americanos e 175 britânicos morreram no Iraque, segundo estatísticas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. “A guerra do Iraque foi uma das mais desastrosas já travada pela Grã-Bretanha”, escreveu o jornalista Patrick Cockburn no jornal londrino Independente Newspaper. “Junto com a guerra da Criméia e as dos bôer, a do Iraque irá figurar entre os conflitos que poderiam ser evitados e que foram uma demonstração de incompetência do principio ao fim”, afirmou.

Mais de quatro milhões de iraquianos tiveram que abandonar suas casas e cerca de metade deles se viram obrigados a fugir para outros países, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Um em cada quatro moradores de Bagdá, com seis milhões de habitantes, precisou fugir de casa, informou a Meia Lua Vermelha iraquiana. Milhões de pessoas continuam sem água potável e sem cuidados médicos, informou na segunda-feira o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

A infra-estrutura piorou desde o regime de Saddam Hussein (1979-2003), que em seus últimos 12 anos esteve marcado por duras sanções econômicas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas a instâncias dos Estados Unidos. Nessa época morreram mais de um milhão de iraquianos devido à desnutrição e falta de tratamento medico. Cerca de quatro milhões de crianças iraquianas necessitavam em julho passado de ajuda de emergência, segundo um informe divulgado nessa data pela organização humanitária Oxfam Internacional. Além disso, a desnutrição infantil recrudesceu e 70% da população carece de acesso à água potável.

Os lares iraquianos têm, em média, menos de cinco horas de eletricidade por dia, inclusive no Curdistão, região setentrional do país que goza de ampla autonomia e que é apresentada pelo governo Bush como um exemplo de sucesso. As exportações de petróleo, das quais o Iraque obtinha mais de 80% de sua renda, não chegaram em nenhum dia à quantidade registrada antes da guerra. O desemprego, que já estava em 32% da população economicamente ativa, oscilou durante a ocupação entre 40% e 70%, segundo o governo iraquiano.

Pouco depois das declarações de Cheney sobre o “sucesso” norte-americano no Iraque, um atentado suicida deixou pelo menos 32 mortos e 51 feridos perto de uma mesquita em Kerbala, cidade sagrada para os muçulmanos da majoritária comunidade xiita localizada 100 quilometros a sudoeste de Bagdá. Outras quatro pessoas morreram e 13 ficaram feridas em um bombardeio pouco depois da chegada de Cheney ao Iraque, próximo da bastante fortificada zona verde da capital, onde têm sua sede o governo nacional e as embaixadas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Bagdá se converteu na cidade mais perigosa do mundo, em grande parte devido à política norte-americana de colocar facções políticas e grupos étnicos e religiosos em enfrentamento entre si. A capital do Iraque é hoje uma cidade cercada por guetos xiitas e sunitas, divididos por muros de concreto erguidos pelo exercito norte-americano. Essas zonas têm suas próprias bandeiras. Nas sunitas flameja ao vento o velho pavilhão iraquiano, e nas xiitas no novo. Os curdos têm sua própria bandeira. As estratégias de limpeza étnica e religiosa, apoiadas pelas forças de ocupação, eliminaram virtualmente todas as áreas mistas da capital.

O candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano (no poder), John McCain, também no Iraque, se reuniu com líderes locais no contexto de uma missão de investigação da Comissão de Serviços Armados do Senado. Como Cheney, McCain prometeu apoiar o governo do iraquiano e manter uma prolongada presença militar no país. A estratégia de aumentar a quantidade de tropas implementada por Washington no começo do ano passado “funciona”, afirmou o senador republicano. Com as “eternas” bases militares dos Estados Unidos no Iraque e uma embaixada em Bagdá do tamanho do Vaticano, não se vislumbra no horizonte o fim da ocupação. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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