Tóquio, 20/03/2008 – No Japão, Pema Gyalpo foi representante oficial do Dalai Lama, máxima autoridade espiritual do Tibet. Fundador do Centro Internacional de Cultura Tibetana, é conhecido por seus livros e artigos sobre a situação nesse território ocupado pela China. Gyalpo disse à IPS que o Dala Lama está contra os atuais protestos no Tibet porque acredita que representam um convite à repressão por parte das forças de segurança chinesas.
IPS – O Dalai Lama diz que se os tibetanos escolhessem o caminho da violência, ele renunciaria. O senhor acredita que deve renunciar?
Pema Gyalpo – Não pode renunciar porque sempre será o Dalai Lama. Está tentando salvar mais tibetanos de se transformarem em vítimas da repressão chinesa. Os soldados chineses querem prender qualquer suspeito, e estão dispostos a recorrer a assassinatos em massa. Por isso, essa é a única forma que Sua Santidade tem para poder salvá-los. Também os exorta a deixarem de usar métodos violentos para resistir ao domínio chinês, porque não acredita que a violência traga bons resultados sejam para quem for.
Por outro lado, é verdade que muitos jovens tibetanos se sentem cada vez mais frustrados com o enfoque do Dalai Lama de não violência resistência pacífica. Acreditam que as mudanças por vias pacíficas não levam a nada. Muitos anos de autocontrole não produziram mudanças nem resultados. Em minha opinião pessoal também, as negociações com a China não levaram a mudanças visíveis no Tibet, mas os esforços de Sua Santidade são muito reconhecidos pela comunidade internacional. Conseguiu apoio moral mundial para a causa tibetana, que poderia ter os mesmo resultados que na África do Sul. Nelson Mandela (ex-presidente sul-africano e prêmio Nobel da Paz Nelson Mandela e seus aliados puderam defender suas posições sem vingarem-se de seus ex-governantes.
IPS – Alguns pedem que os Jogos Olímpicos de Pequim 2008 sejam boicotados. O que diz sobre isso?
PG – Enquanto forem pacíficos, apoio os Jogos. Mas a China tenta usá-los como ferramenta política para convencer o mundo de que o Tibet é parte de seu território. Estou contra os Jogos como método para legitimar o domínio chinês sobre o Tibet. Porém, sou contra suspender os Jogos porque muitas pessoas trabalham duro por eles, e possivelmente muitos nunca tenham outra oportunidade de competir. Não temos o direito de tirar-lhes essa oportunidade. Mas se os atletas quiserem se retirar voluntariamente, isso também ajudaria aqueles chineses que são privados de seus direitos humanos. Pequim continua prendendo dissidentes.
IPS – Qual é a informação que recebem atualmente do Tibet?
PG – Lamentavelmente, como pode imaginar, a situação ainda é muito tensa. Ainda há pessoas sob prisão domiciliar, ou que são detidas e golpeadas. Fecharam o país para o mundo e isso não ajuda os tibetanos. Os chineses deram autoridade aos seus militares e paramilitares para que disparem e matem.
IPS – Como começou esta situação?
PG – Tudo começou quando os chineses atacaram monges. Um caminhão militar investiu sobre um grupo de monges budistas no segundo dia das manifestações. Embora os protestos fossem pacíficos, els não duvidaram em matar inocentes.
IPS – Quantas pessoas morreram?
PG – Os chineses falam em 13 mortes, mas também dispararam contra mais de 80 pessoas e não falam nada sobre isso. Pensam ter o direito de matar. Estaremos nos enganando se pensarmos que a situação acabou, porque os paramilitares estão prendendo muitas pessoas, todos os suspeitos de participação nas manifestações.
IPS – Por que os tibetanos protestam?
PG – Porque há um forte ressentimento contra o domínio chinês. Em mais de meio século, Pequim não trouxe paz física nem mental aos tibetanos. A população ainda tem seus direitos humanos e liberdades religiosas restringidas. Não podem pendurar nem ter fotos do Dalai Lama. Os chineses investem dinheiro no Tibet, mas é usado para trazer mais chineses. Inclusive, levam antiguidades, chegando a destruir o piso dos templos. Trazer mais chineses é uma forma de explorar a economia. (IPS/Envolverde)

