ESPANHA: Lidera envio de dinheiro por imigrantes

Madri, 19/03/2008 – No ano passado os estrangeiros que vivem em território espanhol, mais de 36% deles latino-americanos, enviaram aos seus países de origem quase US$ 13 bilhões, 19,5% mais do que em 2006, segundo um informe do Banco da Espanha. Em termos absolutos, as cifras dessa instituição colocam o país como terceiro no mundo em quantidade de remessas por trabalhadores imigrantes, atrás apenas dos Estados Unidos e da Arábia Saudita.

Em termos relativos, a Espanha é a primeira nação emissora deste tipo de remessa. Segundo o portal da Internet especializado Remesas.org, os imigrantes que enviam mais quantidade de dinheiro aos seus países e familiares são, em primeiro lugar, os colombianos, com 23%, seguidos dos equatorianos com 20,2%, bolivianos 11%, marroquinos 6,9% e romenos 6,34%. Estes números coincidem com dados das áreas e regiões das quais, segundo o último censo do Instituto Nacional de Estatística (INE), procedem as coletividades mais numerosas.

A Iberoamérica aparece com 36,32% dos estrangeiros da Espanha, seguida da Europa ocidental, que chega a 21%, Europa oriental com 17,7% e África do Norte com quase 15%. As principais nacionalidades das quais procedem as coletividades de trabalhadores imigrantes são Marrocos, Equador, Romênia, Colômbia, Argentina, Bolívia, Bulgária, Peru, Portugal e Brasil.

O mercado de remessas movimenta cifras tão elevadas que os bancos, nacionais e internacionais, procuram entrar nele associando-se ou competindo com as entidades que tradicionalmente o monopolizam: na Espanha, ate pouco tempo, Western Union e Money Gram controlavam três quartos destas transferências eletrônicas de dinheiro. Entraram de cabeça na atividade o Banco Santander, que adquiriu a empresa especializada Latinoenvios, e o BBVA, que criou a marca dinheiro Express.

Os estabelecimentos de poupança, que dependem das comunidades autônomas e de outras instituições regionais, também pretendem entrar em um negocio que, alem das comissões por remessa, movimenta o dinheiro para outras ofertas bancárias. As comissões recebidas pelas transferências eram tão elevadas que as associações de imigrantes, apoiadas por organizações de consumidores e sindicatos, ergueram sua voz perante as autoridades espanholas, de seus países e da União Européia.

Para evitar abusos, o governo espanhol legislou sobre o assunto e as comissões, embora lentamente, diminuíram. As associações de imigrantes continuam considerando-as excessivas, bem como os impostos de alguns países receptores que obrigam a pagar quase 6% para cada 150 euros (US$ 236) enviados. A sensibilidade sobre isto é grande em um país como a Espanha, que no inicio da década de 90 deixou de ser um emissor de trabalhadores, como foi durante meio século, para se transformar em um dos principais receptores de imigrantes. Em 1991, o INE recenseou pouco mais de 360 mil estrangeiros, e no ano passado quase 4,5 milhões.

Sociólogos e analistas econômicos coincidem quanto aos imigrantes estarem em uma situação igual a dos trabalhadores espanhóis que emigraram para o resto da Europa e a América em três diferentes etapas: antes da guerra civil (1936-1939), durante esse conflito (princplamente exilados) e depois de 1960. “A situação em que se encontram os imigrantes em nosso país é semelhante à que viveram nossos compatriotas nos anos 60 e 70”, escreve Elena Izquierdo, socióloga e comentarista econômica da filial espanhola da organização Consumers International.

“Emigraram para a Europa e a América com o objetivo de melhorar suas condições de vida e de suas famílias. O dinheiro que economizaram e enviaram à Espanha sem dúvida impulsionou o desenvolvimento do país. Até há apenas três anos, a quantidade que os espanhóis residentes o estrangeiro enviavam à Espanha eram superiores as que mandavam os imigrantes para seus países”, acrescentou. Essa mudança acelerada se reflete em outro informe do Banco da Espanha, segundo o qual a entrada de remessas no Estado espanhol se multiplicaram por três desde 1990 e os pagamentos por envios ao estrangeiros se multiplicaram por sessenta no mesmo período. Esta transformação leva a analisar os benefícios ou prejuízos que produz na Espanha e nos países receptores das remessas.

“A migração opera como um mecanismo de equilíbrio. Na presença de desigualdades salariais, a imigração permite maior igualdade de salários entre as regiões que enviam e recebem imigrantes”, disse Enrique Alberola, responsável pela Divisa de Economia Internacional do Banco da Espanha. Na recém-concluída campanha eleitoral, o governo admitiu que o “boom” econômico se deveu em grande parte ao trabalho dos imigrantes. Sua lentidão atual, provocada pela alta de preços de produtos básicos como o petróleo, anima grupos ultradireitistas a jogar a responsabilidade sobre os ombros dos imigrantes. (IPS/Envolverde)

José Antonio Gurriarán

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