EUA-IRAQUE: Campanha de veteranos contra a guerra

Silver Spring, Estados Unidos, 24/03/2008 – Veteranos de guerra norte-americanos que participaram de um encontro para compartilhar experiências em combate voltam às suas comunidades com a missão de avivar a oposição ao conflito no Iraque a partir das fileiras castrenses. A organização Veteranos do Iraque contra a Guerra convocou a reunião “Winter Soldier” (Soldado de Inverno), cuja denominação se refere a uma frase escrita em 1776 por Thomas Painbe, herói da independência norte-americana. O termo foi usado pela primeira vez em um sentido pacifista em 1971 por veteranos da guerra do Vietnã (1964-1975) para denunciar publicamente e perante as autoridades os abusos e crimes cometidos pelas tropas dos Estados Unidos nesse país asiático.

O propósito do encontro foi demonstrar que conhecidas violações dos direitos humanos cometidas pelo exercito norte-amnericano, como o escândalo da prisão de Abu Ghraib e o massacre de uma família inteira na cidade iraquiana de Haditha, não são fatos isolados cometidos por “umas poucas maçãs podres”, como alegam muitos políticos e militares. Pelo contrário, esses episódios fazem parte de um padrão que mostra a “cada vez mais sangrenta ocupação. Temos o poder de trazer para casa os soldados quanto largam as armas e se negam a combater”, disse Phil Aliff, um veterano que deu baixa há pouco tempo que ajudou na organização da primeira seção de ativos na base de Fort Drum, no Estado de Nova York.

Aliff fundou essa seção após servir um ano no Iraque, de agosto de 2005 a julho de 2006. a missão incluiu um período em Abu Ghraib e na cidade de Faluja, uma das zonas mais perigosas do Iraque para os soldados norte-americanos. Participou de cerca de 300 patrulhas durante as quais foram atingidas por numerosas bombas que desmoralizaram completamente a unidade e a levou a buscar estratégias para evitar o combate. Em abril de 2007, após regressar do Iraque, Aliff começou a manter conversações com outros soldados de Fort Drum contrários à guerra. Negou-se a servir uma segunda vez nesse país alegando transtornos de extresse pós-traumático de sua primeira missão e começou a organizar os companheiros da base.

“Em lugar de procurar a imprensa para conseguir membros, começamos a fazer reuniões semanais cara a cara como fora de agir com transparência a respeito da cadeia de comando”, explicou. “Tínhamos duas tarefas essenciais: educar os soldados e obter vitórias para eles. E conseguimos”. Um de seus membros, Eugene Cherry, deu baixa sem corte marcial apesar de ter ficado 16 meses ausente sem autorização depois de se negar a receber tratamento por transtornos de estresse pós-traumático. Outros veteranos disseram que os soldados que querem se opor à guerra a partir das fileiras do exército não têm porque quebrar normas do Pentágono, sede do Departamento de Defesa.

Garret Rappenhagen, ex-franco-atirador do exército em Baquba, perto da fronteira com o Irã, entre 2004 e 2005, ajudou a criar o blog Fight to Survive (Lutar para sobreviver), que ele e outros soldados com idéias semelhantes colocaram na Internet para difundir suas experiências. “Quando se está o exército somos um cidadão-soldado”, disse Rappenhagen, “Mantemos nossos direitos como cidadão e podemos fazer uso deles. Seria uma vergonha se o gozo da Primeira Emenda (liberdade de expressão) fosse antipatriótico”, responde o ex-franco-atirador aos seus críticos.

O chamado à resistência de soldados norte-americanos cresce sem a atenção dos grandes meios de comunicação dos Estados Unidos, que mantêm um silêncio total a respeito. Na reunião dos dias 13 a 16 deste mês, poucos dias antes do quinto aniversario da invasão do Iraque, em 20 de março de 2003, em Silver Spring, no Estado de Maryland, e a menos de 16 quilômetros da Casa Branca, as experiências de centenas de veteranos de guerras do Afeganistão e Iraque quase não apareceram na imprensa. Saiu apenas um pequeno artigo publicado na seção para o metrô do The Washington Post. Mas o New York Times e os canais de televisão CNN, ABC, NBC e CBS ignoraram completamente o encontro.

Cinco anos depois do começo da guerra do Iraque, os Estados Unidos estão de volta ao ponto de partida em termos de cobertura jornalística. Um estudo do Centro de Investigações Pew divulgado na semana passada mostra que apenas 28% dos entrevistados responderam corretamente à pergunta de quantos soldados norte-americanos morreram no Iraque, quatro mil. A maioria pensava que as mortes ficavam entre duas mil e três mil. A cobertura geral da guerra diminuiu de uma média de 15% em julho de 2997 para apenas 3% em fevereiro deste ano, segundo a mesma pesquisa.

Mas outro estudo divulgado na semana passada pelo The Wall Street Jornal e o canal de notícias NBC mostra que 53% dos entrevistados acreditam que o objetivo dos Estados Unidos de vencer no Iraque é impossível de ser alcançado. Muitos membros da Veteranos do Iraque contra a Guerra vêem um paralelo entre o resultado dessas pesquisas e a historia da resistência dos soldados norte-americanos durante a guerra do Vietnã. Quando os veteranos desta guerra começaram com a iniciativa foram ignorados pelos principais meios de comunicação. Mas isso não os desanimou, pois se espalhou boca a boca e acabou criano uma resistência à guerra dentro do exército.

Para os veteranos do Iraque, esse canal de propagação é muito mais importante do que uma grande cobertura da mídia e a pressão sobre o Capitol Hill, sede do Congresso. “Talvez sejamos menos que os veteranos do Vietnã”, disse Rappenhagen, “Mas quando eles organizaram seu Soldado de Inverno em 1971 o fizeram três anos depois da Ofensiva do Tet. Com sorte, com este encontro poderemos acabar com a guerra antes de uma batalha semelhante no Iraque”. A Ofensiva do Tet foi um ataque lançado pelo Vietnã do Norte em 1968 que resultou em um triunfo militar enorme para os Estados Unidos e o Vietnã do Sul, mas com conseqüências políticas nefastas para seus interesses. A opinião pública se conscientizou de que Washington mentia ao afirmar que o Vietcong não podia lançar um ataque desse tipo. O fato mudou o curso posterior da guerra. (IPS/Envolverde)

* O correspondente da IPS Aaron Glantz participou da cobertura do Winter Soldier 2008 da emissora Pacifica Radio. O áudio e as imagens do encontro estão no site http://www.warcomeshome.org.

(Envolverde/IPS)

Aaron Glantz

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