MALAUÍ: Procura Excessiva e Manutenção Insuficiente no Abastecimento de Água

BLANTYRE, 15/04/2008 – Há muito conhecida como uma cidade pacífica e sossegada, particularmente à noite, Blantyre está pouco a pouco a perder a sua fama de tranquilidade. Os habitantes passaram agora a acordar com a grande actividade das mulheres que transportam baldes de metal e de plástico quando se deslocam pela cidade à noitinha e de manhã cedo à procura de água. Os cortes de água que por vezes duram três dias tornaram-se uma realidade no centro comercial do Malauí. E a entidade gestora de abastecimento de água de Blantyre (Water Board ou BWB) — o único fornecedor de água da cidade — já avisou que estes cortes vão provavelmente continuar até 2013 à medida que vai substituindo as delapidadas bombas de água por novos equipamentos.

As empresas em Blantyre recorrem agora à instalação de tanques de água nos locais de trabalho numa tentativa para lidar com o abastecimento de água irregular.

O 'Relatório do Malauí para 2007 acerca dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio' indica que o país está no bom caminho para alcançar o objectivo que exige a redução, para metade, da proporção da população sem acesso sustentável a água potável segura. (Este objectivo encontra-se sob o sétimo objectivo, que trata da sustentabilidade ambiental. No total, os líderes mundiais na Cimeira do Milénio das Nações Unidas realizada em Nova Iorque em 2000 chegaram a acordo quanto a oito MDGs; o prazo para se atingirem estes objectivos é o ano de 2015.)

O relatório indica que o acesso à água melhorou de forma significativa, aumentando de um pouco mais de 47 por cento em 1992 para 75 por cento em 2006. Mas a situação em Blantyre pode ensombrar este sucesso.

Durante uma recente visita pelos meios de comunicação social à principal estação de captação de água do BWB em Walker's Ferry no Rio Shire no distrito de Mwanza, a sul, o superintendente Clive Bismarck explicou que os transformadores se têm avariado na zona onde a água é bombeada do rio para as canalizações.

Os transformadores que actualmente se estão a utilizar foram instalados em 1963: “O principal problema que temos é a sua idade. Os nossos transformadores ultrapassaram o seu ciclo de vida útil e precisamos de substituir todos os transformadores para podermos resolver permanentemente as faltas de água.”

Bismarck acrescentou que a empresa pública de abastecimento de água iniciou as operações de reparação e a instalação de maquinaria nova e actualizada que proporcionará um abastecimento de água mais fiável à cidade de Blantyre.

Afirmou que a capacidade do BWB em satisfazer a procura também está a ser ultrapassada pelo crescimento de Blantyre. O BWB consegue bombear 75.000 metros cúbicos de água diariamente, comparativamente com a procura de 95.000 metros cúbicos.

O Malauí é um dos países com uma das mais rápidas taxas de urbananização do mundo, com um crescimento populacional de 6.3 por cento, contra 0.5 por cento nas zonas rurais, segundo o Centro das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.

As constantes faltas de água forçam os habitantes da cidade a utilizarem o autoclismo com menos frequência e a comprometerem outros elementos básicos de higiene doméstica como a lavagem de pratos. Em consequência, as casas emitem cheiros desagradáveis e o risco de doenças transmitidas pela água tornou-se um problema constante.

A cólera costumava aparecer principalmente na estação chuvosa, altura em que águas contaminadas entravam no sistema de distribuição devido às cheias. Agora, há ocorrências da doença durante todo o ano, uma vez que a falta de condições de higiene é propícia à propagação da bactéria da cólera Vibrio Cholerae.

Se não for tratada, a cólera causa diarreia, a qual pode levar ao colapso dos rins e à morte por desidratação em 24 horas. Desde o princípio deste ano, pelo menos oito pessoas morreram num surto de cólera nas zonas em redor de Blantyre, cidade situada no sul do Malauí. Foram participados 291 casos de cólera na região num período de três semanas.

Durante um grave surto de cólera em 2002, mais de mil pessoas morreram devido à doença no Malauí.

As faltas de água em Blantyre levaram à suspensão do Director Executivo do BWB, Owen Kankhulungo, em Novembro do ano passado. Um comunicado à imprensa assinado pelo Presidente do Conselho de Administração daquela entidade, Tarsizius Nampota, apontava que Kankhulungo tinha sido suspenso antes de se inciciar um inquérito às causas dessas faltas de água.

Antes da sua suspensão, Kankhulungo afirmara que as faltas de água eram consequência directa do facto de o sistema de abastecimento de água estar a ser mantido de forma inadequada e também utilizado excessivamente. Desde essa altura, retomou discretamente o seu posto.

Durante uma consulta prévia sobre o orçamento no início do mês passado, Kankhulungo informou o Ministro das Finanças, Goodall Gondwe, que a capacidade do BWB para modernizar o sistema de abastecimento de água estava comprometida pelos impostos que a entidade era obrigada a pagar.

Propôs ao Ministro que este isentasse de imposto as importações de equipamentos por parte do BWB destinadas à manutenção e expansão, apontando que a empresa não podia voltar a reclamar milhares de dólares em direitos pagos sobre estes bens.

No entanto, o Ministro não se mostrou muito aberto às reivindicações do BWB. Reconhecendo que o sistema fiscal actual afecta aquela empresa, Gondwe disse que tinha pouco respeito pelas entidades gestoras de abastecimento de água devido à sua ineficácia.

“Nos últimos 40 anos, o BWB não reparou os seus equipamentos, causando um problema nacional. Este ano, o meu orçamento tentará responder a alguns problemas que temos no BWB…mas estou muito relutante em oferecer reduções fiscais.”

No meio desta disputa, muitos habitantes passaram agora a utilizar água da chuva retida nas valas.

As pessoas que têm carros deslocam-se até à sede do BWB, onde retiram água das torneiras nos escritórios daquela entidade.

Pilirani Semu-Banda

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