BOGORO, 29/04/2008 – Avançando com dificuldade com capim até ao peito fora desta aldeia no nordeste da República Democrática do Congo, Mathieu Nyakufa aponta para as ossadas –branqueando ao sol – daqueles que se perderam devido às guerras no país. “Eu vivia mesmo aqui no vale,” conta este agricultor de 52 anos sobre uma manhã terrível em Fevereiro de 2003. “Estavam a matar gente com espingardas, com catanas, com lanças e flechas. Escapei porque vi pessoas a correrem na minha direcção. Três dos meus filhos foram mortos na minha própria casa.”
Cerca de 200 civis foram mortos em Bogoro, situada no centro da região de Ituri, quando combatentes das Forces de Résistance Patriotique d'Ituri (Forças da Resistência Patriótica de Ituri, ou FRPI), milícia dominada pelos grupos étnicos Ngiti e Lendu, atacou este agrupamento disperso de palhotas e habitações de barro. Na altura, Bogoro era um bastião da Union des Patriotes Congolais (União dos Patriotas Congoleses, UPC), um grupo armado leal às tribos Gegere e Hema.
“A UPC disse-me, 'Papá, foge, não esperes, porque os Lendu estão a matar o teu povo',” conta Nyakufa.
O massacre de Bogoro foi uma das muitas carnificinas que ocorreram em Ituri, que contém alguns dos mais valiosos depósitos de ouro e reservas de madeira do mundo. Extensão brutal da guerra civil que assolou esta vasta nação africana entre 1998 e 2003, o conflito em Ituri assistiu ao armamento de milícias por parte do Uganda e do Ruanda, países vizinhos da RDC, numa teia de aliancas em constante mudança, devido aos seus próprios intentos sobre os recursos naturais do Congo mas também a solidariedades políticas com os congoleses.
Inicialmente, o conflito opôs os Lendu, uma tribo composta principalmente de agricultores provenientes do sul do Sudão há centenas de anos, contra os Hema – um grupo nilótico que veio para a região mais recentemente. No entanto, rapidamente se espalhou para depois incluir virtualmente toda a população da região, ceifando pelo menos 60.000 vidas.
No processo, a UPC acrescentou as suas próprias acções ao catálogo dos assassínios em massa, incluindo um cerco à aldeia de Kilo que resultou na morte de mais de 100 civis em Dezembro de 2002.
Muitas vezes retratado exclusivamente como uma rixa étnica, o conflito Hema-Lendu é de facto mais complexo. Em muitos aspectos, resultou de políticas que envenenaram as relações entre duas comunidades que tinham coexistido durante muitos anos, embora com algum constrangimento.
Antes do domínio colonial, os agricultores Lendu alugavam grandes extensões de terra aos pastores Hema; esta situação alterou-se com a chegada dos belgas na década de 1880. Numa cópia da política exercida no Ruanda, onde se promoveu o grupo étnico Tutsi sobre os Hutu nas áreas da administração, educação e sector comercial, os belgas no Congo favoreceram os pastorais Hema sobre os Lendu agricultores – criando ressentimento naqueles que tinham ficado excluídos deste sistema.
Pouco melhorou com a independência.
Depois da partida dos belgas em 1960, o ditador Mobutu Sese Seko – no poder desde 1965 até 1997 – lançou uma campanha para reduzir a influência europeia, o que incluíu dar o novo nome de Zaire ao Congo e a nacionalização de muitas empresas pertencentes a estrangeiros. Significativamente, a assunção do controlo sobre as terras agrícolas de Ituri antigamente pertencentes aos europeus foi supervisionada pelo Ministro da Agricultura de Mobutu, Zbo Kalogi, ele próprio um Hema. Kalogi favoreceu o seu próprio grupo étnico ao redistribuir a terra, aprofundando o sentimento de marginalização entre os Lendu.
Um novo capítulo?
Agora, as armas de Ituri estão na sua maioria silenciosas.
O conflito, que eclodiu num combate total em 1999 e continuou intermitentemente até ao ano passado, está controlado neste momento mediante um processo de desarmamento, desmobilização e reintegração que levou ao recrutamento de antigos membros das milícias para o exército nacional – e ao envolvimento das facções rivais na política eleitoral.
“Queremos reestabelecer a paz em Ituri e trazer uma nova ordem política através da paz, igualdade e união,” afirma Jean-Claude Ndjela Konga, membro da FNI, na modesta sede do grupo na capital regional de Bunia.
Alguns observadores pensam que existem motivos para estarem optimistas.
“Reconhecem que foram manipulados e usados em prol dos interesses de alguns indivíduos, incluindo os seus dirigentes, mas agora vêem que todos perderam nessa situação,” assevera Alfred Buju, um padre católico, sobre os combatentes da região.
“Não estão prontos a começar novamente essa aventura,” acrescenta. Buju também é o director da Commission Justice et Paix (Comissão para a Justiça e Paz) em Bunia, um grupo local formado com o objectivo de sarar as feridas do conflito.
Olamide Adedeji, director do gabinete em Bunia da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo, também transmite uma nota de optimismo.
“Estamos reduzidos a um simples fragmento das milícias milícias, e isso é uma situação bem-vinda,” afirma. “Os intervenientes deixaram de ser membros das milícias, mas são antes motoristas de táxi que outrora foram membros das milícias, e também membros da sociedade civil e grupos de estudantes.”
Conhecida pela sigla francesa MONUC, actualmente a missão representa a maior força de manutenção da paz no mundo, totalizando cerca de 17.000 soldados.
Alguns dos autores dos mais horrorosos excessos do conflito também estão a ser levados à justiça.
Um antigo dirigente do FRPI, Germain Katanga, foi preso em Outubro de 2007 e está agora a ser julgado no Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia pelos assassínios em Bogoro, assim como por outros crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Dois outros importantes dirigentes das milícias — Mathieu Ngudjolo da Front Nationaliste et Intégrationniste (Frente Nacionalista e Integracionista, FNI), orientada pelos Lendu e Thomas Lubanga da UPC – também aguardam julgamento no TPI. Um quarto dirigente das milícias, Floribert Njabu, da FNI, está detido neste momento na capital da RDC, Kinshasa.
Não é para admirar que estas detenções se têm revelado algo controversas.
“É importante que o trabalho da justiça não traga novamente conflitos, ou até mesmo uma revolução, entre a população local,” afirma o coordenador político da FNI, Sylvestre Sombo, referindo-se ao facto de Lubanga, ao contrário de Katanga e Ngudjolo, ter sido acusado apenas de crimes de guerra – e não de crimes contra a humanidade também.
“Se temos paz em Ituri hoje, não se deve à justiça internacional ou local, mas sim porque os filhos de Ituri decidiram criar um caminho para a paz.”
Inquietantemente, as forças da FRPI continuam a envolver-se em escaramuças ocasionais com o exército nacional. Falando a título confidencial, certos oficiais exprimem o seu receio de que elementos entre as autoridades políticas e empresariais do Uganda estejam ainda a armar facções em Ituri a fim de continuarem a explorar os recursos naturais da região.
No entanto, saindo de cerca de uma década de carnificinas, a população neste exaurido canto do país assolado por conflitos parece preocupada, acima de tudo, em evitar um regresso ao conflito armado total.
“Às vezes sinto-me muito triste sobre o que aconteceu aos meus filhos,” diz Mathieu Nyakufa em Bogoro, acendendo um cigarro ao mesmo tempo que olha os campos que contêm os restos dos defuntos. “Mas agora que há reconciliação, o que é que eu posso

