Kinshasa, 28/04/2008 – A chuva cai abundante sobre a capital da República Democrática do Congo e a enorme quantidade de água que corre para leste através do rio que atravessa este país, aumentando seu caudal. É meio-dia, mas o céu escurece e, em instantes, as ruas esburacadas desta decrépita, mas ainda vibrante metrópole ficam submersas sob charcos que parecem tanques, maiores do que os automóveis que devem vencê-los. Em abri começa a temporada das chuvas nas províncias orientais do país. É uma época em que a cada vez mais água cai sobre uma região já encharcada de antemão.
Porém, apesar das abundantes chuvas e dos caudalosos rios, o acesso à água potável é um persistente problema nesta nação centro-africana. A República Democrática do Congo (RDC), tão extensa quanto a Europa ocidental, ainda tenta se recuperar de uma década de guerra civil, que custou a vida de mais de um milhão de pessoas, segundo o não-governamental Comitê Internacional de Resgate (IRC). O ditador Mobutu Sese Seko, que se aferrou ao poder por mais de 30 anos até 1997, pouco fez para desenvolver a infra-estrutura do país.
Um estudo da Organização das Nações Unidas de 2001, último ano para o qual existem dados estatísticos, destacou que apenas 46% da população têm acesso à água potável. Nas áreas rurais, onde 60% dos habitantes podem contar com água fresca de mananciais, apenas menos de um terço deles estão protegidos da contaminação potencial. Kinshasa, a capital, onde vivem quase oito milhões de pessoas, não possui um sistema central de rede de água. Nas áreas rurais é comum ver mulheres e crianças pegar água em uma bomba comunitária e levar para casa em baldes.
Apesar dos enfrentamentos que atualmente ocorrem na zona oriental do país, um estudo do IRC e do não-governamental Instituto Burne, com sede em Melbourn, concluiu que menos de 1% das mortes na RDC pode ser atribuída diretamente à violência. “A maioria se deveu a doenças infecciosas, desnutrição e complicações neonatais ou relacionadas com a gravidez”, segundo o informe. Muito frequentemente, a causa das doenças infecciosas é o consumo de água contaminada.
Estima-se que dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio adotados em 2000 pela ONU, que buscam, entre outros aspectos, reduzir a pobreza extrema, o analfabetismo e a mortalidade materna e infantil até 2015 em relação aos níveis de 1990, a RDC apenas poderia cumprir o referente à sustentabilidade ambiental, UE inclui com elemento principal o acesso à água potável. Com esse fim, em colaboração com o governo do presidente Joseph Kabila, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) começou a programar o programa Village Assaini (Aldeia Saudável), que não só busca o fornecimento de água potável como, também, a promoção de práticas sanitárias e higiênicas.
“Promove-se a água potável, mas se as pessoas não lavam as mãos corretamente não diminuirão os casos de diarréia. Por isso acreditamos ser importante desenvolver um pacote exaustivo que compreenda os diversos componentes do tema”, disse Rinko Konoshita, funcionário de planejamento do Unicef na RDC. O programa requer que as comunidades peçam para participar dele. Depois, o governo, as agencias internacionais e a comunidade buscarão atingir objetivos como fornecer a 80% dos lares banheiros adequados e garantir a 70% das casas acesso à água potável.
Adicionalmente, o não-governamental Serviço Internacional de População (SI), com sede em Washington, se concentra no fornecimento de dois tipos de tabletes para tratamento da água, pelos quais os receptores pagarão uma taxa nominal. Um deles reduz significativamente o risco de diarréia, removendo da água a sujeira e as bactérias intestinais. A outra limita as possibilidades de contrair doenças como cólera. “Eles redzem o custo da potabilizaçao da água e são muito mais fáceis de transportar do que o cloro”, disse Theresa Gruper-Tapsoba, do PSI. IPS/Envolverde

