Porto Príncipe, Haiti, 17/04/2008 – Uma sombrinha com faixas verde, vermelha e amarela é tudo o que protege Hernite Joseph do ardente sol enquanto corta um frango congelado e arruma os pequenos pedaços em montes “Há muito tempo, quando as coisas iam bem, trabalhava e tinha comida suficiente para alimentar meus dois filhos pequenos”, disse Joseph, que vende frango importado dos Estados Unidos. Ultimamente, os altos preços internacionais dos alimentos tornaram quase impossível atender as necessidades de seus filhos.
“Meus filhos agora parecem palitos. Não recebem o suficiente para se nutrirem”, disse a mulher no mercado de La Saline. “Antes, se tinha US$ 1,25 podia comprar verdura, um pouco de arroz, 10 centavos de carvão vegetal e um pouco de óleo para cozinhar”, afirmou. “Agora, uma pequena lata de arroz custa 65 centavos, e não é arroz bom. O óleo custa 25 centavos. O carvão outros 25. Com US$ 1,25 nem mesmo se pode fazer um prato de arroz para uma criança”, acrescentou. Os preços dos alimentos aumentam em todo o mundo, mas o Haiti foi especialmente afetado.
Este país pobre importa a maior parte da comida que consome, como resultado de políticas de livre mercado que sufocaram a produção nacional. No sábado, o presidente, René Préval, prometeu reduzir o preço do arroz e o Senado aprovou uma moção para demitir o primeiro-ministro, Jacques-Edouard Alexix por não ter freado o aumento dos preços. Tudo isto ocorre após 10 dias de protestos pelo alto custo de vida, que deixaram pelo menos três mortos. A instabilidade começou em Okay, a terceira maior cidade, e se propagou rapidamente para o resto do país.
Segundo o plano de Préval, o arroz importado será subsidiado pelo governo com dinheiro doado pela comunidade internacional e pelo setor privado. Atualmente, os importadores vendem um saco de quase 50 quilos de arroz por US$ 51. O governo assumirá US$ 5 de cada saca e os principais importadores tirarão US$ 3 de seus lucros por saca. Com este plano, o preço baixaria para US$ 43, redução de quase 16%. Mas, o acordo entre o governo e os importadores durará apenas um mês, e não há garantia de que o preço do arroz subsidiado seja de fato 16% mais barato uma vez que chegue ao mercado.
O plano significou um revés para Préval, que se negara antes a subsidiar arroz importado para não afetar os produtores locais. “O arroz barato importado destruiu o arroz” produzido localmente, disse o presidente. “Hoje, o importado se tornou caro e nossa produção nacional está em ruínas, e ainda há mais miséria”, acrescentou. Um dos conselheiros do presidente disse que o arroz produzido no Haiti não poderia ser facilmente subsidiado devido ao grande número de produtores e distribuidores.
Préval prometeu, entretanto, reduzir pela metade o preço dos fertilizantes com a ajuda da Venezuela. Uma saca de 45 quilos de fertilizante custa US$ 43, obrigando os agricultores pobres escolher entre comprar esse produto ou enviar seus filhos à escola. O governo espera agora se abastecer de fertilizante, antes que comece a temporada de cultivo em junho e julho. Há 30 anos o Haiti produzia quase todo arroz que consumia. Mas no final dos anos 80 o arroz barato importado inundou o país, depois que uma junta militar começou a liberalizar a economia com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A primeira partida de arroz do exterior chegou escoltada por militares ao vale de Artibonite, a principal região produtora de arroz do país. Os produtores locais consideravam que a importação era uma ameaça à sua subsistência. E seus temores eram justificados. Em 1994, o plano auspiciado pelo FMI reduziu as tarifas alfandegárias do arroz importado de 35% para 3%. Em um ano, duplicaram as compras no exterior. Enquanto Washington subsidiava seus próprios produtores, o do Haiti era proibido pelo acordo com o FMI de fazer o mesmo. Durante os últimos 20 anos a produção de arroz haitiana se reduziu pela metade, enquanto as importações dominaram o mercado.
Em La Saline, o cheiro de pescado e frango se espalha no ar, enquanto Joseph continua cortando o frango. Para ela e seus três filhos, o futuro é incerto. Se o custo de vida continuar aumentando, ela só vê uma conseqüência: “vou morrer”. (IPS/Envolverde)

