Melbourne, 24/04/2008 – Enquanto grande parte da comunidade chinesa na Austrália exorta para que não se misture esporte com política, nada parece deter os protestos contra o regime chinês na medida em que a tocha olímpica se aproxima de Canberra, próxima escala rumo a Pequim. “Cremos que os Jogos Olímpicos devem ser apolíticos. Não cabe utilizá-los com propósitos políticos”, disse Sai-Chung Chiang, presidente do Clube de Estudantes Chineses da Austrália (ACSC) na Universidade de Tecnologia em Sidney.
Mas, a cada hora que passa ficam menores as possibilidades de se baixar o tom político com que o público australiano vê os Jogos. Desde a cerimônia para acender a tocha olímpica, na Grécia, há um mês, em sua passagem aconteceram protestos contra a repressão no Tibet e outras regiões da China, contra a pena de morte e outras violações de direitos humanos e civis nesse país asiático e contra seu apoio a regimes como os do Sudão e da Birmânia. Essas manifestações foram particularmente intensas, e até violentas, em Londres, Paris e Nova Délhi.
As autoridades australianas não deixam nada ao acaso. A segurança é sua prioridade. O trajeto da tocha diminuiu quatro quilômetros e será, no total, de 16 quilômetros. Foram instaladas barreiras metálicas para impedir que o público avance para a estrada. Foram dadas faculdades extraordinárias à polícia, que poderá deter e fichar pessoas, bem como apreender “elementos proibidos”, como ovos e bombas de tinta. Estão de serviço metade dos policiais que atuam em Canberra e arredores e outros foram convocados de outras regiões do país.
Além disso, os organizadores se reservaram o direito de alterar o trajeto da tocha no último momento, caso os protestos fujam do controle. O chanceler australiano, Stephen Smith, expressou sua preocupação diante de possíveis atos de violência. Se alguém quiser protestar, disse, deverá “fazê-lo de modo pacifico”. O embaixador da china, Zhang Junsai, recordou ao público australiano que o lema dos Jogos é “eliminar a paixão, compartilhar o sonho”.
Por sua vez, a Associação de Estudantes e Academicos Chineses disse, segundo a imprensa, que colocará “homens fortes” no percurso da tocha para protegê-la de ataques. Outras organizações da comunidade chinesa, com ao ACSC, tomaram distância desses anúncios. “As organizações chinesas são independentes umas das outras”, disse à IPS Chiang, da ACSC. De todo modo, acrescentou, “consideramos negativo que a passagem da tocha seja politizada em qualquer sentido”.
Porém, o presidente do Conselho Tibetano da Austrália (ATC), George Farley, acredita que a “política e o esporte estão intrinsecamente vinculados e quem não entende isso não vive no mundo real”. Nesse sentido, Farley recordou que os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim foram concebidos por Adolf Hitler como uma plataforma para o regime nazista na Alemanha, e que em 2007 o então primeiro-ministro australiano, John Howard, proibiu uma viagem da seleção nacional de cricket ao Zimbábue.
A comunidade tibetana de Canberra convocou seus simpatizantes para que protestem na cidade durante a passagem da tocha olímpica. Farley acredita que a manifestação será pácífica. “Não quer a suspensão dos Jogos. Nada tenho contra os atletas nem contra o esporte, mas, vivemos em um mundo muito interdependente” e os Jogos Olímpicos “são 100% políticos”, afirmou o ativista pró-Tibet à IPS. “É sua maneira de dizer: chegamos, somos um país politicamente poderoso”, acrescentou.
No entanto, Farley recordou que a China assumiu uma série de compromissos em matéria de direitos humanos junto ao Comitê Olímpico Internacional, ao designar Pequim como organizadora dos Jogos deste ano. O próprio presidente do COI, Jacques Rogge, reclamou da China avançar em sua “agenda social, incluídos os direitos humanos. Pedimos que respeite seu compromisso moral”, acrescentou. Farley disse que o regime chinês “quebrou todos os compromissos de direitos humanos que assumiu. Por sua vez, Chiang disse que a ACSC valoriza os direitos humanos como assunto de “importância suprema”, mas advertiu que a China é soberana sobre o Tibet. “Os alertas pelos direitos humanos deveriam distinguir os movimentos separatistas”, ressaltou. IPS/Envolverde

