CHINA: Descontentamento de proporções olímpicas

Pequim, 08/04/2008 – Na medida em que se estende na China a explosão de descontentamento entre as minorias, o problema constitui uma séria ameaça para os líderes comunistas, muito mais grave que as penúrias em matéria de relações públicas às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim, segundo analistas locais. Os distúrbios aconteceram no dia 23 de março, coincidindo com uma grande operação militar para reprimir distúrbios protagonizados pelos habitantes tibetanos das províncias limítrofes com Xinjiang a leste e sul. “Um pequeno número de elementos trataram de incitar o separatismo, criar distúrbios no mercado e inclusive incitar as massas à rebelião com o engano”, segundo uma declaração do governo regional de Hotan. comenta-se que mais de cem mil pessoas estavam no lotado mercado quando aconteceu a sublevação.

Hotan, que fica no lado austral do deserto de Taklamakan, é uma cidade onde os uighurs freqüentemente realizam protestos, com especial virulência em 1954, no final dos anos 60 e em 2001. Muitas de suas queixas são um espelho das apresentadas pelos habitantes do Tibet, região do Himalaia ocupada militarmente pela China na década de 50, e que protagonizaram em meados de março uma série de demonstrações na capital, Lhasa, e em outras partes do território. Estima-se que a repressão chinesa deixou cerca de 140 mortos.

Tanto os tibetanos quanto os uighurs afirmam que a autonomia da qual supostamente gozam é apenas simbólica, já que todas as decisões políticas importantes são tomadas pelo Partido Comunista Chinês e todos os postos de direção importantes em sua estrutura regional estão nas mãos de dirigentes de origem chinesa. Embora os uighurs representassem 90% da população da região em 1949, quando os comunistas tomaram o poder, agora são menos da metade. A zona é rica em recursos, particularmente petróleo, o que a converteu no centro da campanha de Pequim para desenvolver suas atrasadas províncias ocidentais.

O governo procurou acalmar Xinjiang com sua clássica receita que combina crescimento econômico com um férreo controle político. Mas o constante fluxo de migrantes de outras partes da China, somado às táticas de mão dura da Pequim para controlar as práticas religiosas, forjaram o ressentimento dos uighurs. Os líderes comunistas chineses argumentaram por muito tempo que a região é um “ninho” de separatistas que reclamam a independência e um alvo para atividades terroristas por parte de grupos islâmicos radicalizados.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, Pequim apresentou sua luta contra os separatistas da etnia uighur como parte da “guerra contra o terrorismo”. O governo argumentou que várias centenas de uighurs receberam treinamento da milícia islâmica Talibã no Afeganistão. O chefe do Partido Comunista de Xinjiang, Wang Lequan, utilizou uma entrevista televisiva, dia 10 de março, para enviar uma dura ameaça aos que tentarem utilizar as tensões étnicas com a finalidade de “sabotar” os Jogos Olímpicos que começarão dia 8 de agosto em Pequim. “Sem importar a nacionalidade, sem considerar de quem se trata, os agitadores, separatistas e terroristas serão sufocados. Não existe a menor dúvida sobre isto”, afirmou.

As notícias sobre a repressão dos protestos em Xinjiang ficaram conhecidas quando a tocha olímpica chegava à Turquia em seu trajeto. Em uma incomum aliança, grupos de direitos humanos uighurs, com sede fora da China, uniram-se em seus protestos contra Pequim. Manifestantes que gritavam lemas antichineses se fizeram notar na cerimônia de recepção da chama olímpica em Ancara. Pelo menos seis ativistas foram presos pela policia turca.

“A intenção dos sabotadores é muito clara. Alterar o trajeto da tocha olímpica, que pertence aos povos de todo o mundo, é uma flagrante provocação ao espírito olímpico e um descarado desafio aos povos do mundo”, disse a porta-voz da Chancelaria chinesa, Jiang Yu. Analistas independentes acreditam que o desafio para as autoridades de Pequim não se limita a responder às críticas ao seu histórico em matéria de direitos humanos, descritos como uma tentativa de manchar a imagem internacional da China às vésperas dos Jogos Olímpicos.

O que está em jogo, advertem, é o controle do governo central sobre as rebeldes regiões ocidentais do país. “Os protestos que agora vemos são o resultado da negativa do PC em reconhecer a falácia de suas campanhas anti-separatistas”, disse Qang Lixiong, escritor e acadêmico radicado em Pequim que viajou intensamente por Xinjiang e Tibet. “Houve protestos no passado e haverá outros no futuro se o governo não assumir a realidade e modificar seu enfoque”, acrescentou. Outro analista, que pediu para não ser identificado, disse à IPS que não se registrava um movimento tão forte em favor da autodeterminação desde o final dos anos 80.

Nessa ocasião, dirigentes de orientação liberal com Hu Yaobang (secretário-geral do PC chinês desde 1980 até 1987) e Zhao Ziyang (que ocupou o mesmo cargo entre 1987 e 1989, quando caiu vítima de um expurgo político), promoveram a democratização e um enfoque mais amigável com as minorias étnicas. Embora a maioria dos chineses desfrutem um nível de liberdade pessoal sem precedentes desde que os comunistas tomaram o poder há 59 anos, o partido é impiedoso com os que se atrevem a desafiar seu férreo controle político.

Pequim rejeitou os pedidos de órgãos internacionais de direitos humanos para conceder uma autonomia real às minorias étnicas. “Xinjiang pratica uma política de autonomia étnica regional. As minorias étnicas não só desfrutam dos mesmos direitos que a maioria, mas também de alguns direitos especiais segundo a lei”, disse Jiang Yu. Diante do aumento dos protestos, as autoridades chinesas elevaram o tom de sua retórica, denunciando os manifestantes como traidores. “Aqueles que não amam a mãe pátria não estão qualificados para serem considerados seres humanos”, disse o chefe do Partido Comunista no Tibet.

Os responsáveis pelas agências de segurança interna chinesas acusaram o Dalai Lama, líder espiritual do Tibet e prêmio Nobel da Paz de 1989, e seus seguidores de adotarem métodos “terroristas” e planejar “ataques suicidas”, segundo o porta-voz do Ministério da Segurança Pública, Wu Heping. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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