Pequim, 01/04/2008 – A China invocou a autoridade de um lendário imperador, reverenciado como ancestral comum de todos os chineses, para abençoar os Jogos Olímpicos de Pequim e enfatizar a unidade nacional. Porém, as tensões devido à situação no Tibet e o agitado percurso da chama olímpica lançaram uma sombra sobre os pomposos ritos em honra de Huangdi, o Imperador Amarelo. A tocha olímpica foi recebida ontem em uma cerimônia fortemente custodiada, enquanto o aparelho de propaganda oficial apresentas os protestos que acompanharam seu percurso, para condenar a política de Pequim em relação ao Tibet, como “pequenos episódios” em um “trajeto histórico” de grande significado.
O presidente, Hu Jintao, iniciou a cerimônia acendendo a pira olímpica na praça Tiananmen com o fogo que chegou em um vôo especial desde a Grécia. Hoje começará o trajeto da chama olímpica através de 20 países, antes de retornar a Pequim para o inicio dos Jogos, no dia 8 de agosto. No trajeto passará pelo Tibet e, pela primeira vez na história, pelo cume do monte Everest. “A tocha estará no pico mais alto do mundo como testemunha da grande força do movimento olímpico para assinalar o progresso da civilização humana”, disse o presidente do comitê organizador dos jogos, Liu Qi. Pequim tem a esperança de que tais cerimônias sirvam para reforçar sua menagem de harmonia e unidade, como as realizadas em homenagem a Huangdi na província de Henan, que atraem milhares de chineses que vivem no exterior. No dia 8 próximo acontecerá um rito especial, para abençoar os Jogos Olímpicos, diante de uma gigantesca estátua do Imperador Amarelo. Mas, para desilusão das autoridades chinesas, a contagem regressiva para o início dos Jogos está crescentemente marcada por protestos internacionais contra o histórico de violações dos direitos humanos por parte de Pequim.
O trajeto da chama olímpica, caracterizado pela China como uma “viagem de harmonia”, é uma oportunidade para que ativistas a favor do Tibet ganhassem a atenção para condenar a política de mão-dura de Pequim e sua repressão das demonstrações de rua protagonizadas em meados de março por monges e civis nessa região do Himalaia, ocupada pela China. Manifestantes gritando “salvem o Tibet” e “detenham o genocídio no Tibet” acompanharam o percurso de uma semana da tocha olímpica através da Grécia.
Os ativistas reclamaram dos organizadores do Jogos o cancelamentos dos planos de levar a tocha através do Tibet, onde se informou sobre novos distúrbios na capital, Lhasa, no último fim de semana, apesar da presença de milhares de soldados e policiais antidistúrbios chineses. Pequim argumenta que os seguidores do exilado líder espiritual tibetano, Dalai Lama, organizaram distúrbios e perseguem objetivos separatistas. As autoridades chinesas criticaram duramente a “camarilha do Dalai Lama” por “sabotar” os Jogos Olímpicos e minar o prestíio internacional da China.
Entretanto, o Dalai Lama, que em 1989 recebeu o prêmio Nobel da Paz, censurou a violência. Em repetidas oportunidades disse que não busca a independência do Tibet, mas uma autentica autonomia, tal como prometeu a China em 1951. Nesse ano foi assinado um acordo para a incorporação do território à recém-constituída república comunista. O Tibet foi ocupado pelo Exército Popular de Libertação de Pequim em 1951, mas os reclamos de soberania chineses remontam à dinastia Yuan (106-1368). Enquanto o avião transportando a tocha olímpica aterrissava em Pequim, ontem, a agência estatal de notícias Xinhua lançava seu ataque mais virulento até o momento contra o Dalai Lama.
O líder tibetano era acusado de “abusar” da religião e utilizar os Jogos Olímpicos para fazer campanha pela independência do Tibet. Se o Dalai Lama “realmente quer ser um simples monge budista, já é hora de deixar de atuar em polítca e enganar as pessoas, especialmente os ocidentais, com suas hipócritas cobranças de autonomia”, disse a agência. O governo tibetano no exílio rechaçou as acusações e cobrou uma investigação internacional sobre a repressão desatada por Pequim por ocasião dos protestos, que provocou – acrescentou – 140 mortos. Segundo a China, os manifestantes mataram 18 civis e dois policiais.
Pequim “está esperando para caracterizar os tibetanos como terroristas para legitimar sua repressão diante da comunidade internacional”, disse o presidente do parlamento do Tibet no exílio, Karma Chophel. Embora a violação dos direitos humanos no Tibet seja o mais destacado nos protestos dos ativistas internacionais, está longe de ser o único. As críticas pelo apoio de Pequim ao governo do Sudão e à ditadura militar da Birmânia e a repressão contra a seita religiosa Falun Gng também estarão presentes durante o percurso da tocha olímpica por Londres, Paris e São Francisco.
As autoridades chinesas censuraram as imagens dos protestos nos programas da televisão estatal, entre elas as de ativistas a favor do Tibet que desfraldaramuma bandeira negra com cinco algemas entrelaçadas, imitando os anéis olímpicos. Mas o verdadeiro dilema para Pequim é como responder à crescente ameaça de um boicote internacional na cerimônia inaugural dos Jogos Olímpicos em 8 de agosto. Até o momento, nenhum líder internacional propôs a adoção de sanções por causa da política chinesa no Tibet. Mas, vários chefes de Estado e de governo europeus disseram que poderiam deixar de participar da cerimônia de abertura para colocar mais pressão sobre a China, entre eles o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. (IPS/Envolverde)

