INDÍGENAS: Mudança Climática é assunto de vida ou morte

Nova York, 25/04/2008 – Líderes dos 370 milhões de indígenas de todo o mundo reclamaram da Organização das Nações Unidas uma participação mais ativa nas futuras conversações sobre mudança climática, fenômeno que para suas comunidades é assunto de “vida ou morte”. “Tanto a mudança climática como suas soluções são uma preocupação para os povos indígenas”, disse a presidente do Fórum Permanente da ONU para as Questões Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz. O fórum, que inclui 16 representantes (oito designados pelos governos e oito pelas comunidades nativas) realiza desde segunda-feira, até 2 de maio sua sétima reunião anual em Nova York. Do encontro participam mais de 3.300 delegados de todo o planeta. “Os povos indígenas contribuem com os efeitos ecológicos menores na Terra, mas sofrem os piores impactos da mudança climática e das medidas para enfrentá-la, como a perda de suas terras para a produção de biocombustíveis”, ressaltou.

Apesar de contar com a representação de quase 500 grupos aborígines de todo o mundo, o fórum não tem poder para adotar acordos vinculantes. Apenas pode aconselhar o Conselho Econômico e Social (Ecosoc), órgão da ONU de 54 membros eleitos a cada três anos pela Assembléia Geral. Em setembro passado, a Assembléia aprovou uma resolução histórica chamando o reconhecimento do direito dos nativos de controlar suas terras e seus recursos. Mas, não declarou legalmente vinculante a Declaração Universal de Direitos dos Povos Indígenas.

Líderes aborígines querem que tanto os governos quanto as empresas privadas incorporem a Declaração em suas políticas econômicas, culturais e ambientais para que suas comunidades possam participar do processo de desenvolvimento de uma forma significativa. “Os povos indígenas observam e sentem o impacto da mudança climática antes de qualquer outro. Estão se convertendo em refugiados ambientais porque os pequenos Estados insulares estão afundando devido à elevação do nível do mar”, disse Tauli Corpuz.

Segundo a diretora-executiva da ambientalista Sociedade Olé Siosiomaga de Samoa, Fiu Elisara, a mudança climática se converteu em uma questão de “vida ou morte” para os países insulares do Pacífico, que formavam o que se conhece como “o continente líquido”. “Um furacão é suficiente para apagar do mapa um Estado insular”, afirmou, acrescentando que 90% da população do Pacífico são formados por aborígines que não têm a quem recorrer por ajuda, já que a maioria de seus governantes não assinou a Declaração.

Líderes indígenas disseram que muitas de suas comunidades em países com uma grande biodiversidade, como Brasil, Indonésia e Malásia, sofrem muito devido ao uso extensivo de suas terras e selvas para produzir biocombustíveis em nome dos esforços para reduzir o uso de carbono. Tauli-Corpuz disse que essas atividades são realizadas pelos governos e pelas corporações privadas sem o “consentimento prévio e informado” dos povos afetados, algo que comunidades aborígines e grupos ambientalistas denunciam insistentemente em vários fóruns.

Elisara e outros líderes indígenas disseram que tentam pressionar os países-membros da ONU para que reconheçam o principio de “consentimento prévio e informado” em seus tratados legalmente vinculantes sobre desenvolvimento sustentável e preservação ambiental. A Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (CBD) promove e protege o direito de propriedade dos aborígines para seu conhecimento tradicional, mas o princípio de “consentimento informado” para o uso de suas terras não está incluído.

Em apoio à demanda indígena, o secretário-executivo da CBD, Ahmed Djoghlaf, disse que gostaria de ver o tratado traduzido em “leis e ações nacionais”. A Convenção “tem um procedimento único que reconhece os povos indígenas como sócios”, disse à IPS. “É a primeira convenção internacional que tem um programa totalmente desenvolvido e uma equipe de tempo integral dedicada às questões indígenas e à proteção do conhecimento acumulado ao longo dos séculos”, acrescentou.

Tauli-Corpuz e outros representantes no fórum disseram que os países-membros da ONU deveriam traduzir a Declaração em um “documento vivo”, mas reconheceram que isso não seria fácil porque algumas nações poderosas ainda são reticentes a assiná-la. Em setembro passado, quando a vasta maioria da Assembléia Geral da ONU apoiou a Declaração, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Nova Zelândia votaram contra. Mas, recentemente, tanto Ottawa quanto Canberra expressaram sua disposição em apoiar o documento.

Países com grandes populações indígenas, como Bolívia e Equador, garantiram na reunião do fórum estarem dispostos a adotar a Declaração em suas leis nacionais, informou Tauli-Corpuz. Em entrevista coletiva na última segunda-feira, o presidente boliviano, Evo Morales, disse que os povos aborígines têm a autoridade moral para desenhar um “novo modelo de vida”, pois “vivem perto da Mãe Natureza e a defendem há séculos”. A “Mãe Natureza é a fonte da vida, que deve ser querida e respeitada, e não tratada como um bem comerciável”, acrescentou em uma declaração, destacando o papel significativo dos povos indígenas na proteção do meio ambiente e da biodiversidade do planeta. IPS/Envolverde

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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