Toronto, 07/04/2008 – Nossos dedos estão colados no termostato planetário, aumentando a temperatura mais que nunca. A catástrofe climática já começou a dar uma nova forma à civilização humana. Secas, inundações, ondas de calor, tornados e furacões. Tudo isto que antes era produto exclusivo das forças da natureza agora se vê amplificado pelas enormes quantidades de calor adicional preso na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis, conforme alertam os cientistas. Essas calamidades já não estão distantes no tempo ou no espaço.
Dezenas de milhões de pessoas já foram afetadas por fenômenos climáticos não naturais extremos e violentos durante pelo menos as últimas duas décadas. As emissões anuais de dióxido de carbono são três vezes maiores hoje do que os anos 90. Mesmo se houvesse condição de fazer o impossível – parar todas as emissões – a temperatura global continuará aumentando desde os atuais 0,8 grau, em média, até entre 1,5 e 1,8 grau. E a temperatura média mundial permanecerá elevada durante os próximos 500 anos, porque os oceanos retêm o calor por muito tempo.
Para impedir que a Terra esquente mais do que dois graus, o que seria um ponto de inflexão potencialmente catastrófico, as emissões de dióxido de carbono necessitarão ser eliminadas completamente, e logo, afirmam pesquisadores em um novo estudo publicado em março na revista Geophysical Research Letters. Do mesmo modo que uma panela de ferro permanecerá quente e continuará cozinhando após o fogo ser apagado, o calor retido pelos oceanos manterá as temperaturas elevadas, embora diminuam os gases causadores do efeito estufa. Acrescentar mais gases à atmosfera, inclusive em uma proporção menor que a atual, pioraria a situação e os efeitos persistiriam durante séculos.
Apesar destas advertências, o uso de combustíveis fósseis disparou. No outono passado a Agência Internacional de Energia informou que a atual tendência de crescimento, liderada pelas novas centrais elétricas alimentadas a carvão, fará aumentar a temperatura global média até três graus até o ano 2030, e, em última instancia, poderia chegar a seis graus nas décadas seguintes. “O que aconteceria se amanhã descobríssemos que uma catástrofe climática é iminente se nosso planeta esquentar ainda mais. Para evitá-lo teríamos que reduzir já as emissões a aproximadamente zero”, disse Ken Caldeira, pesquisador climático na Instituição Carnegie da Universidade de Stanford (EUA) e co-autor do informe. Mas, não poderíamos chegar a zero em um ano apesar de isso fazer com que a Terra se convertesse em uma gigante bola de fogo.
As reações climáticas fazem as coisas acontecerem muito rápido, observou Tede Scambos, pesquisador do Centro Nacional de Dados sobre Neves e Gelo em Boulder, no Estado norte-americano do Colorado. Há 10 anos, o Ártico era uma vasta área coberta de gelo e neve. Em menos de uma década, será um oceano aberto e obscuro salpicado de fino gelo flutuante durante o verão e outono. Na Antártida, um segmento de 414 quilômetros quadrados da plataforma gelada de Wilkins se desprendeu no final do inverno por causa do aquecimento global, afirma, cientistas do British Antarctic Survey. “Veremos grandes mudanças em todo o globo. Isso me assusta. O aquecimento provocado pelos gases que causam o efeito estufa não vai parar até que o detenhamos”, disse Scambos à IPS.
E os desafios tecnológicos não são tão difíceis. “Podemos desenvolver e instalar turbinas eólicas, automóveis elétricos, etc e viver bem sem prejudicar o meio ambiente”, afirmou Caldeira. A maioria dos passos necessários, como estimula ra eficiência energetic,a também são viáveis do ponto de vista econômico. Por outro lado, uma mudança climática severa custaria bilhões de dólares, acrescentou Scambos. Isso deveria gerar uma nova compreensão do custo real do consumo de petróleo e gás.
“O futuro pode ser melhor do que o presente, mas temos que dar passos para começar a abandonar agora o habito do dióxido de carbono, dessa forma não iremos precisar atravessar uma síndrome de abstinência mais tarde”, afirmou Caldeira. A maioria dos governos ainda não dispostos, ou sem podem, dar esses primeiros passos. As vendas de veículos esportivos utilitários com motor a gás nos Estados Unidos foram altas em 2007, e o modelo maior foi o mais vendido. IPS/Envolverde
* Este artigo é parte de uma série de quatro sobre as mudanças psicológicas e de comportamento necessárias para reduzir a temperatura do planeta.

