NAIRÓBI, 05/05/2008 – Numa altura de grande preocupação internacional sobre o futuro dos abastecimentos alimentares mundiais, há um comentário que faz pensar: “Ensino agricultura e actividades de extensão a estudantes universitários mas muitos escolhem outras profissões, especialmente nas TICs, porque a agricultura é 'para aqueles que não foram à escola'.” Washington Ochola, profissor de agricultura sustentável e desenvolvimento rural na Universidade de Egerton, perto de Nairóbi, fez aquele comentário no recente lançamento, na capital queniana, das conclusões da Avaliação Internacional das Ciências Agrícolas e da Tecnologia para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla inglesa). Esta iniciativa, que durou três anos, juntou as opiniões de todas as partes envolvidas no sector agrícola com vista a torná-lo mais eficiente e sustentável.
No entanto, longe de ser um refúgio para aqueles sem educação formal, o trabalho de extensão agrícola exige ainda mais conhecimentos por parte daqueles que o praticam, já que os agricultores que ajudam enfrentam dificuldades que seriam inimagináveis há uma geração: a pressão de trabalhar num mercado globalizado, por exemplo, ou a produção de culturas numa altura em que o VIH/SIDA ceifa a mão-de-obra rural. Tradicionalmente, os técnicos de extensão funcionaram como elo entre os investigadores que desenvolvem novas tecnologias e os agricultores que põem em prática estas novas abordagens.
A forma como as autoridades no Quénia — e noutras partes de África — respondem ao desafio de produzir técnicos qualificados de extensão e de permitir aos que já estão no terreno de realizarem o seu trabalho de forma mais eficaz tem um papel importante para determinar se a agricultura atinge o seu potencial no continente. Também é necessário exigir mais do que a simples elevação do estatuto profissional destes técnicos acima do dos trabalhadores no sector das tecnologias de informação e comunicação; também poderá ser necessário aumentar o orçamento destinado ao trabalho de extensão.
“Os técnicos de extensão existem, mas não há recursos que lhes permitam prestar serviços ao agricultor,” Daniel Otunge, do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrícolas-Biotecnológicas (ISAAA) disse à IPS. O ISAAA, organização não governamental sediada em Nairóbi, está envolvida no trabalho de extensão para a cultura de tecidos de banana e a plantação de eucaliptos.
“Sem uma motorizada, por exemplo, o técnico de extensão não pode chegar aos agricultores.”
Também é preciso melhorar as comunicações entre os diversos grupos responsáveis pelos técnicos de extensão.
“Não existe uma abordagem integrada no trabalho de extensão,” afirmou Ochola, que foi um dos autores da análise da agricultura na África SubSariana efectuada pela IAASTD. “Isto conduz à duplicação ou ao conflito de ideias, confundindo os agricultores. Por exemplo, as açucareiras têm actividades de extensão mas o Governo também tem técnicos de extensão cujo alvo são os mesmos agricultores!”
Embora o trabalho de extensão tenha frequentemente beneficiado as grandes propriedades agrícolas viradas para as culturas comercializáveis, tem-se revelado menos eficaz para explorações mais pequenas e diversificadas. Os pequenos agricultores simplesmente não têm os recursos necessários para lidar com os técnicos de extensão no que diz respeito às diversas culturas e animais nas suas propriedades, disse Ochola. Para os grandes agricultores que têm menos culturas é mais fácil ter contactos com os técnicos.
Mas mesmo aqueles que têm propriedades de maior dimensão podem não estar a receber os melhores conselhos.
“Muitos resultados da investigação não chegam aos agricultores atempadamente e sob formas que possam ser consumidas devido à falta de seriedade relativamente à reorganização de informações agrícolas eficazes e à gestão de conhecimentos,” opinou Ochola.
Além disso, “São os técnicos de extensão impulsionados por doadores que definem as agendas, as quais normalmente vão contra as expectativas dos agricultores.”
Outro dos participantes no lançamento da IAASTD em Nairóbi apresentou um retrato de técnicos cujas competências estão cada vez mais desactualizadas: “Penso que, visto que foram deslocados para estas regiões depois da sua formação universitária, muitos deles não actualizaram a sua educação, e bebem com os locais — esquecendo-se de se manter a par da investigação e das novas tecnologias.”
Os factores culturais antiquíssimos também desempenham o seu papel. Segundo a análise da África Subsariana feita pela IAASTD, 83 por cento dos técnicos de extensão na região são homens que podem estar proibidos ou serem desencorajados de lidarem com agricultores do sexo feminino devido a barreiras culturais. Isto apesar de as mulheres representarem cerca de 70 por cento dos trabalhadores agrícolas na África Subsariana.
A Co-Presidente da IAASTD, Judi Wakhungu, aponta “O técnico de extensão fala com os homens porque não lhe é permitido interagir com as mulheres nessas culturas. Como o homem não é o agricultor, a mensagem certa não chega ao alvo certo, não se cumprindo o objectivo do trabalho de extensão.”
Wakhungu também é directora executiva do Centro Africano para os Estudos Tecnológicos (ACTS), sediado em Nairóbi. O ACTS supervisionou a compilação do estudo efectuado pela IAASTD sobre a África Subsariana.
O resultado de todos estes problemas é um sector de extensão que não consegue atingir os objectivos traçados.
“O trabalho de extensão é apoiado por doadores e organizações não governamentais e sente-se a sua presença na região, mas os técnicos não respondem às necessidades em constante mudança dos agricultores, não tendo portanto qualquer impacto no seu trabalho,” afirmou Ochola.
No entanto, a necessidade de se envidarem todos os esforços no sentido de melhorar a agricultura africana não pode ser mais clara. Como indica a IAASTD, a agricultura representa cerca de um terço do produto interno bruto na África Subsariana, mas 30 por cento da população que vive nesta região passa fome. Entre 1970 e 1980, os rendimentos diminuíram e têm-se mantido inalteráveis desde então — mesmo quando as populações nacionais aumentam.
Soluções possíveis
Garantir que mais mulheres recebam a formação necessária como técnicas de extensão, e se mantenham nesse papel, muito ajudaria para responder às deficiências do trabalho de extensão agrícola.
O educar os técnicos no sentido de terem múltiplas competências e de serem capazes de dar conselhos sobre uma variedade de culturas e de animais, por sua vez, iria beneficiar aqueles que gerem explorações agrícolas pequenas mas diversificadas.
Estas opiniões repetem-se num estudo de 2005 efectuado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). “As mudanças cosméticas nos sistemas de extensão nacionais existentes pouco benefício trarão, assim como a formação repetida do pessoal em disciplinas agrícolas estereotipadas. Isto é igual a malhar em pedra dura,” observa o documento, intitulado 'Modernizar os Sistemas de Extensão Agrícola Nacionais: Um Guia Prático para os Legisladores dos Países em Desenvolvimento'.
Outras recomendações feitas pela FAO: a criação de uma política nacional para o trabalho de extensão que garanta o empenho político e financeiro neste sector, e o encorajamento da participação “de baixo para cima” dos agricultores por forma a assegurar que o trabalho de extensão vá ao encontro das suas necessidades, ao mesmo tempo que se retém a opção de uma “modalidade de cima para baixo destinada a promover boas práticas públicas, como a conservação de recursos nacionais e a protecção do meio amabiente.”
Pode ser preciso aumentar os níveis de educação dos próprios agricultores, com vista a auxiliá-los a interagir com os técnicos de extensão de forma mais eficaz. “A não ser que existam muitos agricultores com instrução, é difícil simplificar os resultados científicos e a conseguir que aqueles sigam instruções,” declarou Ochola.
Segundo o relatório da FAO: “Chegou a altura de os legisladores nos países em desenvolvimento desafiarem e tornarem a contemplar o trabalho de extensão num contexto global…”
A alternativa a essa reavaliação? Uma situação em que os técnicos de extensão constituem o elo mais fraco na cadeia entre governo, investigadores e agricultores — em vez de representarem o elo indispensável.

