Brasília, 23/05/2008 – A União de Nações Sul-americanas (Unasur), que se constituirá formalmente nesta sexta-feira, em Brasília, com à assinatura de governantes de 12 países da região, destaca as diferenças de Brasil e Venezuela sobre o futuro da integração, disseram analistas políticos. O Brasil tenta recuperar a iniciativa política na formação do bloco sul-americano como uma entidade com personalidade jurídica, depois de sucessivos adiamentos causados justamente por conflitos entre os países da região, em especial os protagonizados desde março por Colômbia, Equador e Venezuela.
“Se o Brasil não o fizer agora, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o fará à sua maneira”, disse à IPS o especialista em política externa João Augusto de Castro Neves, após lembrar que a idéia do bloco foi originalmente apresentada em 2000 em uma reunião convocada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). “O Brasil tenta recuperar a iniciativa”, disse Neves ao recordar que inicialmente a chamada Comunidade Sul-americana de Nações pretendia aprofundar a integração regional estabelecendo uma zona de livre comércio entre os países do Mercosul e os da Comunidade Andina. A Comunidade Andina de Nações (CAN) era então formada por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, que se retirou para aderir ao Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), ao qual ainda não se integrou completamente. Aquele projeto de Comunidade Sul-americana e zona de livre comércio tinha como um de seus fundamentos a construção de grandes obras de interligação física e energética entre os países, cujo financiamento estaria a cargo do BNDES, um dos maiores da região.
A própria denominação do grupo foi mudada a pedido do presidente venezuelano, mas o verdadeiro foco das diferenças parece ser a própria agenda do novo organismo devido às diferenças entre Brasil e Venezuela. A relação com os Estados Unidos é um dos temas que separam os dois governos, com um Brasil disposto ao diálogo político e ao aproveitamento de um intercâmbio de quase US$ 44 bilhões, e uma Venezuela francamente hostil em relação aos norte-americanos que é, entretanto, seu maior sócio comercial.
Um comunicado da chancelaria brasileira diz que “os objetivos centrais da Unasur são o fortalecimento do diálogo político entre os Estados-membros e o aprofundamento da integração regional” para avançar na integração econômica e produtiva, mecanismos financeiros, desenvolvimento social, cooperação cultural e desenvolvimento de infra-estrutura de transportes, energia e comunicações. A Unsaur está constituída por Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
Fontes diplomáticas informaram que a reunião de Brasília proporá incluir sobre o guarda-chuva da Unasur o Banco do Sul, cujas características causaram atritos entre os governos brasileiro e venezuelano, bem como o Conselho de Defesa e o Parlamento Sul-americano. Mas, muitos alertam para o risco da superposição de instituições com objetivos semelhantes como no caso do Parlamento, que se confundiria com o Parlatino (Parlamento Latino-americano) e com o Parlamento do Mercosul. “Me parece que há uma dispersão de energia na criação de mecanismos paralelos”, disse o senador brasileiro Heráclito Fortes, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, reiterando uma impressão de que há muitas instituições no âmbito latino-americano.
A agenda desses organismos obriga as autoridades dos países-membros a uma sucessão de reuniões ao longo do ano, cuja eficácia é muito questionada em várias nações. Mas o chanceler Celso Amorim reduziu a importância da duplicidade e garantiu que a nova instituição “tem de se ajustar à realidade”. Além disso, a sucessão de conflitos entre vários países criou uma espécie de anticlímax que obrigou as autoridades brasileiras a serem cautelosas, como a mudança de última hora do hotel onde se hospedaria o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, para evitar encontros fora de agenda com seus colegas Rafael Correa, do Equador, e Chávez, da Venezuela.
As dificuldades de logística traduzem uma série de conflitos na região cujo tom não foi amainado apesar dos apertos de mãos que fazem supor a superação das diferenças na reunião do Grupo do rio (de democracias latino-americanas) realizada na República Dominicana no dia 7 de março. (IPS/Envolverde)

