RIO DE JANEIRO, 23/05/2008 – (Tierramérica) A humanidade consumiu mais de sete mil espécies vegetais em sua história. Hoje, depende de apenas três para satisfazer a maior parte de suas necessidades calóricas.
O papel das pessoas As mulheres exercem papéis opostos na diversidade alimentar. Como consumidoras, esmagadas pela dupla ou tripla jornada de trabalho, “contribuem para a homogeneização”, pois buscam alimentos rápidos e fáceis de cozinhar, afirma Emma Siliprandi, agrônoma e socióloga que pesquisa as relações entre gênero e comida. Contudo, na agricultura as mulheres são “depositárias da biodiversidade, de sementes e de conhecimentos” sobre numerosos alimentos, infusões e hortaliças plantadas nos quintais, enquanto os homens tendem a seguir a lógica do mercado, descartando as “miudezas”, disse ao Terramérica. São mulheres que iniciaram, na rede internacional Via Camponesa, o movimento em defesa das sementes como patrimônio da humanidade, acrescenta. Por outro lado, a preocupação dos indígenas vai além. “Não só é preciso resgatar os mal chamados velhos cultivos com alto poder nutritivo, mas também reafirmar nossa concepção da Mãe Terra”, afirma o senador Ramiro Estácio, do Movimento de Autoridades Indígenas do Sudeste Colombiano (Aico). Isso significa “resgatar todo um sistema que implique fortalecer os conhecimentos, a cultura, a variedade produtiva e nutritiva e permita a reafirmação dos saberes milenares”, explica ao Terramérica.
Agroecologia versus agronegócio Recuperar a diversidade depende da agricultura familiar e requer práticas de agroecologia e reforma agrária, afirma Von der Weid. Também é indispensável a educação culinária, porque os hábitos impedem diversificar os alimentos, com comprovaram tentativas sem sucesso de difundir hortaliças no Brasil, acrescenta. Por outro lado, um projeto chileno de hortas urbanas, com educação nutricional e espécies de várias colheitas por ano, teve sucesso. A agroecologia, que descarta os produtos químicos, é “uma proposta interessante”, mas atende apenas “nichos de mercado e não substitui” a grande cultura comercial, afirma Ariovaldo Luchiari Júnior, chefe-adjunto do Centro de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Luchiari reconhece uma tendência ascendente, pela maior demanda por produtos inócuos, a queda dos fertilizantes não renováveis e os bons resultados de combinações agrossilvopastoris e horticultura. As exigências atuais do mercado marcam preferências por produtos de maior qualidade, seguros, rastreáveis e com valor agregado, como a cenoura que já vem ralada ou a soja com mais conteúdo de isoflavona, substância que atenua os sintomas da menopausa, acrescenta. Enquanto isso, as espécies comerciais têm usos cada vez mais diversos: o milho é alimento humano e animal e matéria-prima de muitos produtos e de um combustível, o etanol. A cana há muito deixou de ser apenas “de açúcar”, é fertilizante e origem de plásticos, enquanto o trigo não é apenas pão, mas biscoitos, macarrão e doces. A biodiversidade de nossa região pode gerar novos produtos de consumo maciço, mas é “um processo longo”, com investimento e pesquisa para responder às exigências nutricionais e ambientais. “Não é um caminho fácil”, alerta Luchiari. “Produtividade, uniformidade e processamento” são princípios necessários para um cultivo “útil”, explica Izquierdo, da FAO. A “consciência” para aproveitar oportunidades é outro fator, acrescenta. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de quinoa, porque em um condado do Estado de Nebrasca a ela são dedicados 25 mil hectares. A colheita se destina a um alimento infantil da companhia Nestlé. “Os cultivos objeto de intenso melhoramento genético, como milho, arroz e trigo, rendem muito mais por unidade de superfície”, afirma Edmundo Acevedo, especialista em Produção Agrícola da Universidade do Chile. Sem melhorias semelhantes, é difícil que espécies nativas, como o amaranto e a quinoa, possam competir no mercado, acrescenta. No México, apesar da carestia, a tortilha de milho não perde a liderança no consumo. “Se o preço do milho subir ainda mais, isso pesará no bolso de todos, mas é impossível imaginar que se deixe de consumir. Uma cultura milenar sustenta esta dieta”, afirma ao Terramérica Marcelino Vela, economista e assessor de empresas de alimentos.
* Com as colaborações de Daniela Estrada (Santiago), Diego Cevallos (México) e Helda Martinez (Bogotá).


