UE-AMÉRICA LATINA: Menos armas, mais comida

Lima, 19/05/2008 – Deixar de lado a hipocrisia, gastar menos em armamento e destinar mais recursos à erradicação da pobreza foram os principais reclamos do presidente peruano, Alan García, aos seus pares e chefes de governo no encerramento da V Cúpula da América Latina, do Caribe e da União Européia (ALC-UE).

Alan García dando su discurso en la clausura de la cumbre. - Prensa ALC-UE

Alan García dando su discurso en la clausura de la cumbre. - Prensa ALC-UE

García fez seu duro discurso, que despertou da modorra protocolar os presentes à cerimônia, depois de ouvir as conclusões das mesas de trabalho sobre a agenda estabelecida: mudança climática, desenvolvimento sustentável, pobreza, desigualdade e exclusão.

“Com que autoridade moral poderemos continuar falando de luta contra a pobreza se não pusermos um ponto final na loucura da corrida armamentista?”, disse o chefe de Estado, erguendo a voz. Sem mencionar países, García afirmou que a América Latina gastou US$ 40 bilhões em equipamentos bélicos. “Com esse dinheiro se poderia ter aliviado a pobreza e a dor de 80 milhões de famílias (que poderiam ter sido beneficiadas) com US$ 50 por mês. Então, digo aqui onde estão sentados os que compram e vendem armas, com que autoridade falaremos de pobreza?”, questionou.

Nos rostos de alguns mandatários era evidente o incômodo causado pelas palavras de García, que incrementou sua alocução com versos do poema “Masa”, de César Vallejo. Ao que parece, o presidente peruano ficou descontente porque nas mesas de trabalho da ALC-UE não se chegou a acordos concretos, tendo sido assinado apenas um documento geral de 57 pontos que abordam superficialmente os temas. Simplesmente se ampliou o documento original de 11 pontos da Declaração de Lima.

Alan García se referia às compras militares de Chile e Venezuela, que segundo um informe recente do não-governamental Instituto Internacional da Suécia de Pesquisa para a Paz (Sipri) são os maiores compradores de material de guerra na América Latina. Entre 2002 e 2007, o Chile destinou US$ 2,283 bilhões em uma frota de 28 aviões caça F-16, 118 tanques Leopard, submarinos Scorpene, fragatas lança-mísseis holandesas, entre outros equipamentos. Caracas gastou US$ 1,147 bilhão no mesmo período, segundo o Sipri, especialmente em 24 unidades de Sukhoi –30MK2V, 53 helicóteros Mi-35, Mi-26 e Mi-17 e 100 mil fuzis Kalashnikov 103.

Os governos esquerdistas do equatoriano Rafael Correa e do venezuelano Hugo Chávez inclusive anunciaram mais aquisições: o primeiro destinará US$ 280 milhões para comprar 24 aviões Super tucano e o segundo investirá US$ 2 bilhões em 12 avioes Ilyushin, quatro submarinos 636 e 10 helicópteros de ataque noturno Mi-28NE, segundo informou o jornal moscovita Kommersant. De acordo com o Sipri, o Chile é o país que mais gasta em armas na América Latina, seguido da Venezuela.

Para Alan García, os ódios não resolvidos entre países vizinhos incentiva a corrida armamentista na região, em óbvia alusão às diferenças entre Venezuela e Colômbia, Equador e Colômbia. O Peru também mantém diferenças quanto a limites marítimos com o Chile, caso que levou ao Tribunal Internacional de Justiça, com sede em Haia. Para o período 2007-2011 – Alan García conclui seu período em 28 de julho desse ano – seu governo prevê gastar US$ 654 milhões na modernização do sistema de armas das três forças. Os primeiros US$ 196,4 milhões já foram aprovados.

Devemos por “nossos conflitos e nossos problemas – que sempre são pequenos – em mãos de soluções pacíficas e jurídicas, em lugar de nos armarmos e vendermos armas a uns e outros”, disse García. Seu governo iniciou a reparação dos aviões de combate MiG-29 e Sukhoi-25, e estuda a compra de mísseis antitanque. “Ainda há muito de ódio e de rivalidade entre nossos povos. Ainda há muito de competição e, por conseguinte, muito de compra de armamento”, afirmou em tom severo.

O mandatário peruano foi muito aplaudido. Mas, nenhum dos 57 pontos da Declaração de Lima se refere à redução da compra ou venda de equipamentos de guerra. Apenas foram aprovados acordos declaratórios, com exceção de um pronunciamento a respeito da grave crise alimentar no Haiti. “Superar a pobreza, a desigualdade e a exclusão é crucial para o êxito da coesão social, para o desenvolvimento sustentável e para a eficácia de nossa associação bi-regional”, diz o documento.

“Confirmamos que a luta contra a pobreza, a desigualdade e a exclusão par alcançar ou aumentar a coesão social é uma prioridade política-chave da associação estratégica entre nossas regiões”, diz a Declaração de Lima. “Observamos com preocupação que, apesar do progresso alcançado, a pobreza, a desigualdade e a exclusão continuam sendo obstáculo ao acesso de diversos setores da população à desigualdade de oportunidades para se beneficiar de uma vida digna e produtiva, dificultam o bem-estar dos indivíduos e fomentam o deslocamento de pessoas”, diz outro ponto do texto aprovado pelos mandatários europeus e latino-americanos.

Além de ratificar o êxito dos Objetivos de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas para o Milênio, com prazo até 2015, os países vinculados à ALC-UE se propõem metas adicionais. Esta são erradicar a desnutrição e prevenir a má nutrição infantil, especialmente das crianças com menos de 3 anos, universalizar os cuidados com as gestantes e os recém-nascidos, erradicar progressivamente o analfabetismo, universalizar o acesso aos serviços de água potável e saneamento, incrementar as taxas de emprego e estabelecer programas de formação profissional. Na Declaração de Lima é difícil encontrar alguma fórmula que permita alcançar alguns dos objetivos descritos. (IPS/Envolverde)

Ángel Páez

Ángel Páez se sumó a IPS como corresponsal desde Perú en 2005. Tiene una amplia experiencia como periodista de investigación en su país, en particular sobre violencia política, así como sobre corrupción, narcotráfico, tráfico de armas y otras formas de crimen organizado. Nacido en 1963, estudió periodismo en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos en Lima y comenzó a trabajar en el diario La República en 1985. En 1990 fundó la Unidad de Investigación, un colectivo de periodistas que destapó escándalos de corrupción del gobierno de Alberto Fujimori (1990-2000). Ángel fue el primero en publicar la noticia sobre uno de esos casos que más tarde contribuyeron a que tribunales chilenos extraditaran a Fujimori para que fuera juzgado en su país. apaezsalcedo@gmail.com Corresponsal en Lima del diario argentino Clarín y de la revista mexicana Proceso, Ángel es miembro del International Consortium of Investigative Journalists, una organización con sede en Washington que promueve investigaciones internacionales.

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